INIMIGOS PÚBLICOS: DILLINGER SOB A MIRA DE MICHAEL MANN

A grande depressão econômica que atingiu os E.U.A no final dos anos 1920, persistindo durante boa parte da década seguinte, gerou uma alarmante taxa de desemprego que levou milhares de americanos a um estado de penúria e desesperança. Um dos efeitos colaterais desta recessão foi o alto índice de criminalidade que assolou o país. Este período foi propício para a proliferação de famigerados assaltantes de banco, como Baby Face Nelson, Pretty Boy Floyd, o casal Bonnie Parker e Clyde Barrow e o lendário John Dillinger.

Estes criminosos geravam sentimentos ambíguos na população, angariando repulsa e simpatia por seus feitos, afinal, as principais vítimas de seus atos eram as instituições bancárias, consideradas pela maioria dos americanos como as grandes responsáveis pela derrocada econômica do país. Muitos destes anti-heróis, apesar de romantizados através dos filmes de gangsteres e da literatura pulp, eram sociopatas violentos que não hesitavam em metralhar qualquer um que estivesse entre eles e um cofre. John Dillinger era um homem perigoso, porém, com charme e inteligência soube como poucos tirar proveito da opinião pública ao seu favor. A figura romântica do marginal que nunca assaltava cidadãos comuns, lesando apenas os bancos, gerava a simpatia necessária para que pudesse se esconder com tranqüilidade entre os populares sem que fosse denunciado. Uma série de crimes audaciosos e fugas espetaculares transformaram Dillinger numa lenda, e no “inimigo público número um” da América.

O diretor Michael Mann, mais do que reconstruir rigorosamente a biografia de John Dillinger, se dedicou em recriar a atmosfera mítica que cercava a sua figura, reproduzindo os principais fatos de sua carreira criminal, mas evitando a visão sórdida dos fatos, ao contrário do que fez John Milius no excelente “Dillinger” (1973). Johnny Depp fornece ao personagem charme e consistência, elementos necessários para se compreender o fascínio que este anti-herói exercia sobre as classes populares. O embate entre Dillinger e seu implacável perseguidor, o oficial federal Melvin Purvis (Christian Bale), revela o outro lado da moeda, as articulações do estado para deter um criminoso de alta periculosidade a qualquer custo.

A francesa Marion Cotillard desembarca de vez no cinema norte-americano numa competente interpretação de Billie Frechette, a incauta namorada de Dillinger. A relação do casal é apresentada por Mann como um caso de amor trágico, mas que na realidade nada tinha de monogâmica, pois Dillinger, um notório apreciador das mulheres, estava sempre rodeado de prostitutas, fato que originou diversas lendas sobre seus dotes sexuais.  Se o famoso apetite sexual do personagem não é devidamente explorado, seus violentos conflitos com a lei são graficamente detalhados em cenas de ação captadas com impressionante realismo pelas câmeras digitais de Mann. A intensidade das cenas quase nos fazem sentir o cheiro de pólvora no ar.

Ao emular situações e diálogos típicos dos filmes de gangsteres dos anos 1930, como “O Inimigo Público” de William A. Wellman e “Anjos de Cara Suja” de Michael Curtiz, Mann realiza uma obra reverencial ao gênero e se rende ao fascínio que estas figuras marginais ainda exercem sobre o imaginário popular. Ironicamente a derrocada do próprio Dillinger ocorreu na saída de um cinema, após uma sessão de “Vencido pela lei”, um notório filme de gangsteres estrelado por Clark Gable.

Inimigos Públicos / Public Enemies / EUA/ 2009/140’

Dir: Michael Mann

Com: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Giovanni Ribisi.

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2 Comentários

Arquivado em Ação, Drama, Policial

2 Respostas para “INIMIGOS PÚBLICOS: DILLINGER SOB A MIRA DE MICHAEL MANN

  1. CArlos

    Dop ponto de vista historico, Mann modificou um monte de coisa Pretty Boy Floyd morreu depois de Dillinger e não antes como acontece no filme e Baby Face Nelson não morreu naquele tiroteio de noite.

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