Arquivo do mês: maio 2010

SERRAS DA DESORDEM

Serras da Desordem representou o retorno de Andrea Tonacci à tela grande após um hiato de 30 anos, período no qual ocasionalmente se dedicou a televisão, e que em nada apaziguou a verve anárquica do diretor dos cultuados Bang Bang e Blablablá. O título Serras da Desordem não apenas indica a região onde a trama se desenvolve, como também serve de analogia as opções estéticas e narrativas tomadas por Tonacci para recriar a história de Carapiru, índio que após o massacre de sua família se tornou um andarilho solitário, empreendendo uma fuga que o manteve isolado de seu povo e da civilização por 10 anos, até ser encontrado em 1987, distante mais de 2 mil quilômetros do local da chacina.

Andrea Tonacci não faz concessões comerciais na recriação deste épico intimista, e desordem é uma palavra chave para acompanhar a trajetória de um homem em estado de completa alienação, isolado de sua cultura, confrontado com uma civilização que não compreende. A montagem, por vezes caótica, da veterana Cristina Amaral é uma artimanha essencial para instigar o espectador, se negando a fornecer respostas fáceis, pois para acompanhar Carapiru também é preciso perder-se.

Para recontar a história Tonacci utiliza um curioso processo, misto de documentário e reconstrução ficcional, utilizando como atores as pessoas que vivenciaram os fatos, inclusive o próprio Carapiru. O velho índio retorna ao local do massacre, visita o vilarejo que o acolheu antes de ser entregue aos cuidados da Funai, e refaz sua trajetória de dor e redenção, que culminou com um deus ex machina tão improvável que só poderia acabar na tela do cinema. Carapiru é encontrado pelo filho que julgava morto, e é reconduzido ao seu povo.

A câmera ubíqua de Tonacci acompanha Carapiru, realçando seu olhar repleto de tristeza, estranheza e ingenuidade diante de uma realidade tão diferente da sua. Serras da Desordem, mais do que uma análise do destrutivo processo de aculturação a que foram submetidos

Tonacci e eu Sala PF Gastal junho de 2007

os povos indígenas, é a história de uma vida devastada, a trajetória de um indivíduo sobrevivendo em meio ao caos silencioso da solidão e da exclusão cultural. O diretor Andrea Tonacci, oriundo do provocativo cinema marginal dos anos 60, não facilita para o espectador, e a história de Carapiru é narrada de forma fragmentada, desordenada, mas não tão caótica quanto o processo de civilização imposto à cultura indígena.

É compreensível o interesse de Tonacci pela figura peculiar de Carapiru, afinal ambos de certa forma estiveram isolados, mesmo que em limbos distintos, por um longo período, involuntariamente impedidos de exercitar uma vital necessidade de expressão. Carapiru retornou para seu povo e Tonacci às telas de cinema, e seu retorno, após uma inexplicável ausência de 30 anos que não lhe domou o gênio anárquico, foi laureado com o Kikito de Ouro no Festival de Gramado em 2006.

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Canibal Holocausto

I. A Antropofagia Imagética de Ruggero Deodato.

A década de 1970 foi especialmente frutífera em termos de transgressão cinematográfica, repleta de diretores iconoclastas e obras polêmicas, como Saló, ou os 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasolini, Império dos Sentidos de Nagisa Oshima, e as estripulias escatológicas de John Waters, porém, poucos filmes geraram tanta controvérsia e reações tão extremadas quanto às suscitadas por uma pequena pérola de baixo orçamento chamada Canibal Holocausto. Produzido em 1979 e lançado comercialmente no começo dos anos 1980, o filme ainda reverberava o cinema anárquico da década anterior; um suspiro de transgressão antes da ascenção do politicamente correto e da onda de conscientização ecológica que se espalhou pelo planeta.  Idealizado e dirigido pelo italiano Ruggero Deodato, o filme ainda é acusado com freqüência por seus detratores de ser uma obra essencialmente sensacionalista, que se apropria de um tema tabu, a antropofagia, para exibir um indigesto cardápio de sadismo, escatologia e violência gratuita (real e encenada), numa verdadeira ode ao mau gosto. O filme, no entanto, encontrou fervorosos defensores entre os fãs do cinema extremo, mas não sem criar polêmica mesmo entre os admiradores do gênero. O fato de ter sido censurado ou banido em mais de 40 países auxiliou na construção de sua fama de maldito, assim como as lendas em torno de sua produção se encarregaram de elevá-lo gradualmente a condição de filme mítico.

Em 1979, quando se embrenhou na Amazônia colombiana com uma pequena equipe e um modesto orçamento, Deodato não suspeitava da comoção que causaria no meio cinematográfico. Ele intencionava realizar uma experiência única, repetindo em tom mais grave o mesmo teor de aventura exótica com elementos antropofágicos que ele havia utilizado em seu filme anterior, O Último Mundo Canibal (Ultimo Mondo Canibale / 1977). Lançado na Itália em fevereiro de 1980, o filme revelou-se mais radical que o esperado, deixando a crítica perplexa, e o público em estado de choque. Canibal Holocausto extrapolou os limites entre realidade e ficção, num misto de aventura, horror e shockumentary, amparado em um paradigma original, copiado duas décadas depois, tanto no formato de linguagem quanto em sua estratégia de marketing, pelo superestimado A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project / 1999), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, e mais recentemente por Atividade paranormal (Paranormal Activity / 2007), de Oren Peli.

Uma aventura exótica envolvendo tribos canibais e turistas incautos não era novidade para o habitualmente desconcertante cinema exploitation italiano dos anos 1970. O tema fora utilizado pela primeira vez numa produção italiana em 1972, pelo diretor Umberto Lenzi em Man From Deep River (Il Paese Del Sesso Selvaggio), e o sucesso popular desta produção deixou as portas escancaradas para que outros diretores se aventurassem num gênero tão pouco explorado.

Apesar da trama improvável, o diretor Deodato utilizou um golpe promocional bizarro, vendendo a idéia de que se tratava de um documentário real utilizado como fio condutor de uma trama ficcional paralela; e o público em geral acreditou. A ação divide-se em duas partes distintas, centralizando-se primeiro no misterioso desaparecimento de quatro documentaristas americanos ao tentarem retratar o feroz povo yanomamo (sic), uma das tribos antropófagas que viveriam isoladas da civilização numa parte remota da floresta amazônica. O fato leva o Prof. Harold Monroe (Robert Kerman) a penetrar no inferno verde em busca de uma resposta para os desaparecimentos. Durante o percurso ele enfrenta, além da natureza hostil, a fúria de outras tribos canibais, até entrar em contato com os yanomamos, e encontrar entre eles o material filmado pela equipe americana. De volta à civilização, o material encontrado revela uma verdade chocante, mudando o foco narrativo para o documentário em si, onde está contido o trágico destino da equipe, composta por Alan (Carl G. York), Faye (Francesca Ciardi), Jack (Perry Pirkanen) e Mark (Luca Barbareschi).

Neste ponto passamos a acompanhar a trama em primeira pessoa, e a linha segura e confortável que separa ficção e realidade, protegendo o espectador de conflitos éticos e morais, é rompida. A capa que reveste de ficção a trama é retirada. Serão reais os corpos empalados, os animais trucidados, os corpos destroçados e devorados? Deodato, num golpe de mestre do ofício, instaura a dúvida através do choque.

Após a morte de seu guia, a equipe, perdida em meio à selva, vai gradativamente perdendo a noção de humanidade, sendo consumida pelo horror, e pela obsessão em documentar todos os fatos. O contato com os selvagens desencadeia um repertório inominável de atrocidades, gerando cenas que se tornaram ícones do cinema exploitation, como a da índia empalada, o esquartejamento de uma tartaruga gigante, e a aldeia indígena em chamas.

As cenas explícitas de canibalismo, apesar de distorcerem ritos antropofágicos reais para seguirem a lógica própria do universo criado por Deodato e pelo roteirista Gianfranco Clerici, ainda são de grande impacto e incomodam os estômagos mais sensíveis. A perna do guia Felipe sendo amputada a golpes de facão, após ser picada por uma cobra ainda causa aflição, o banquete com cérebros de macaco e a famigerada cena da tartaruga geram a fúria dos ecologistas de plantão, e o estupro de uma índia pela equipe americana é tão repugnante quanto o Prof. Monroe sendo obrigado a devorar um fígado humano. O sangrento clímax embalado pela desconcertante trilha do veterano compositor italiano Riz Ortolani, eleva a tensão a níveis dantescos, sendo difícil esquecer o desespero dos atores diante de uma situação em que tudo parece ter saído do controle, e até mesmo a ficção parece estar sendo devorada pela realidade.

Na época de seu lançamento, a violência cometida no filme, principalmente as cenas reais com animais, gerou tanta controvérsia que Deodato precisou comparecer aos tribunais italianos para responder a processos por “obscenidade”, além de ter de provar que não havia assassinado realmente os atores em frente às câmeras. Uma das clausulas do contrato assinado pelos atores exigia que eles desaparecessem da mídia durante um ano, e esse foi um dos fatores que fortaleceu o mito de que teriam sido realmente devorados. Após a estréia, em carta endereçada a Deodato, o veterano diretor italiano Sergio Leone já havia alertado: “Caro Ruggero, que filme! A segunda parte é uma obra-prima de realismo cinematográfico, mas tudo parece tão real que acho que você vai ter problemas no mundo inteiro.”

Em 2007 o diretor americano Eli Roth, um fã assumido do filme, homenageou Deodato convidando-o para uma rápida aparição em O Albergue 2, no papel é claro, de um canibal.

II. Deodato e a reinvenção do canibal.

Para compreender o incômodo causado pelo filme, mesmo após trinta anos de seu lançamento, e a influência que um tema tabu como a antropofagia exerce sobre o imaginário popular, é necessário recuar através dos séculos até a origem etimológica da palavra canibal, para assim embarcar na complexidade de seu horror.

A palavra, ironicamente, foi inventada por outro italiano, Cristóvão Colombo. Ao desembarcar na América, Colombo ainda acreditava ter navegado através do mar tenebroso, onde habitariam criaturas fantásticas das mais variadas espécies, das sereias aos dragões, e foi com a mente povoada de seres lendários que ele ouviu e assimilou pela primeira vez, através de intérpretes arawak, a palavra cariba, que designava os ferozes índios caribes que devoravam seus inimigos, e que significa corajoso, ousado.

Colombo, através de um estranho silogismo, ligou a palavra cariba ao mito dos cinocéfalos, homens com cabeça de cão e apenas um olho, que segundo a lenda devoravam seres humanos, e habitavam um mítico continente paradisíaco. Colombo pensava ter descoberto o paraíso perdido, então uniu a lenda aos fatos e gerou o neologismo canibal (cariba +  canis + caniba).

A imagem do canibal chegou ao Velho Mundo, principalmente através das cartas náuticas, como o Novus Mundus de Américo Vespúcio, e de relatos de aventureiros como Hans Staden. A maioria das informações, porém, era envolta de exageros, que atestavam além da predileção dos selvagens por carne humana, a sua ilimitada crueldade. Alguns relatos ultrapassavam o limite da fantasia e faziam menção a homens-cães, crianças em regime de engorda para o abate, e até o engravidamento de prisioneiras para alimentar a gula dos guerreiros. Assim, a figura do canibal fixou-se rapidamente no imaginário europeu, com a antropofagia sendo interpretada erroneamente como um ato de subsistência, crueldade, e ato extremo de vingança contra o inimigo. “Tudo indica que apenas a vingança pode temperar um alimento que a humanidade recusa”, escreveria o Abade G. em sua “História das índias”.

E assim, apesar de pensadores mais esclarecidos, como Thevet e Montaigne terem renegado a fantasia, voltando o olhar para os aspectos ritualísticos, a imagem que definitivamente traduziu os habitantes da América para o Velho Mundo, foi a do horror puro e simples, como afirma Frank Lestringant: “O canibal- seu cortejo de crimes e seu arsenal de espetos, machadinhas e carnes humanas salgadas- instalava-se recém desembarcado, de forma duradoura, no imaginário popular”. E assim, a ficção tornou-se mais interessante do que a realidade, gerando entre os séculos XVI e XVII um tipo de literatura de grande aceitação popular, narrando aventuras fantasiosas em que o canibalismo era a atração principal, fazendo florescer ainda mais os mitos sobre o Novo Mundo e seus estranhos habitantes. O tema canibalismo já nasceu, portanto, sob o signo do sensacionalismo.

Em pleno século XX, Ruggero Deodato acidentalmente reinventa o canibal, e retoma inconscientemente a mesma vertente que gerou os folhetins sanguinolentos do século XVI, que inspiraram Rabelais e seu Gargantua e Pantagruel, o teatro grand guinol, e Salammbô de Flaubert, substituindo a literatura pela película, numa obra paradoxal que discute e condena o sensacionalismo ao mesmo tempo em que ironicamente aproveita-se dele. Canibal Holocausto é cinema primitivo por excelência, não renega sua veia popular, e guiado pelo instinto, oferece ao público sangue e circo. Os obstinados documentaristas de Deodato filmam com a mesma voracidade com que os canibais devoram a carne alheia, porém, acabam consumidos pela sua própria obsessão. “Quem são os verdadeiros selvagens?”, indaga um perplexo Prof. Monroe ao final do filme. A pergunta que pode soar pseudo-moralista, após um festival de atrocidades, reflete apenas uma cruel ironia.

Apesar de ter percorrido os cinema brasileiros durante os anos 80, sendo uma presença marcante nos cinemas-poeira daquele período, Canibal Holocausto jamais havia sido distribuído comercialmente

Ruggero Deodato

no mercado de vídeo brasileiro, seu lançamento em DVD pela Platina Filmes  vem sanar esta inexplicável lacuna, já que a maioria dos filmes do famigerado ciclo de canibais italianos foi lançado em VHS no país. As reações extremas do público em exibições recentes, ocorridas em mostras e festivais como o Fantaspoa, comprovam a força imagética da obra, que consegue impactar mesmo após a saturação da violência nas telas nos últimos 30 anos.

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UM HOMEM DOMINADO POR SUAS OBSESSÕES

O cineasta alemão Werner Herzog, seja na ficção ou no documentário, sempre utilizou sua câmera como uma arma para dissecar os conflitos internos de suas personagens. A ganância e o progressivo enlouquecimento de Klaus Kinski em Aguirre, A Cólera dos Deuses, ou o processo que vai da total alienação do mundo ao

Werner Herzog

desabrochar da consciência pelo qual passa Bruno S, em O Enigma de Kaspar Hauser, são exemplos de seu cinema intimista e anárquico, que reflete tanto a construção  como a diluição do indivíduo.

Em O Homem Urso, Herzog volta suas lentes de documentarista para a trágica história do ambientalista amador Timothy Treadwell, que passou treze verões consecutivos em companhia de ursos pardos no Alasca, até ser, junto com sua companheira Amie Huguenard, pateticamente devorado por um deles. É compreensível o interesse de Herzog pela desastrada empreitada de Treadwell, que sintetizou em vida os paradoxos ficcionais do cineasta alemão.

Quando decidiu dedicar sua vida à proteção dos ursos pardos, Timothy Treadwell acabou abdicando de uma parcela de sua humanidade. Vitima de sua misantropia, ele idealizou em seu refugio no Alasca um mundo perfeito, ao qual considerava menos selvagem e cruel do que o dos humanos. Porém, ao envolver-se de forma tão passional com sua causa, Treadwell traçou o caminho de sua destruição quando ultrapassou os limites de sua própria natureza, e passou a também considerar-se…um urso!

Para tentar desvendar as motivações que levam um homem a renegar a civilização, para embarcar de corpo e alma em uma insana causa ecológica, além de entrevistas com amigos íntimos e especialistas ambientais, onde não faltam comentários que vão da paixão ao puro sarcasmo, Herzog utilizou trechos das mais de cem horas de gravações realizadas pelo próprio Treadwell.

As gravações, que eram utilizadas para educar principalmente as crianças sobre o perigo de extinção dos ursos pardos, revelam, não um destemido protetor da natureza, mas um homem com a mente fragmentada, incapaz de discernir entre a realidade e o mundo selvagem inocentemente idealizado por ele. As imagens retratam o amadorismo de suas ações, prevendo a inevitável tragédia, pois Treadwell lidava com ursos ferozes de quase três metros de altura como

Timothy Treadwell

se fossem ursinhos de pelúcia; e como conseqüência, em outubro de 2003, ele e sua namorada foram vorazmente devorados por um dos ursos que protegiam. Durante sua morte a câmera, apesar da lente estar encoberta, permaneceu ligada, e o áudio captou toda a sua agonia. Um dos momentos de maior impacto de O Homem Urso ocorre quando Herzog ouve o registro. O áudio real não chega aos ouvidos do público, e escutamos apenas a narração hesitante de Herzog, que em determinado momento silencia, e sua reação ao conteúdo da fita é o suficiente para traduzir todo o horror ali contido.

Por ter em mãos um material perigosamente ambíguo, que poderia render um festival de escatologia e sensacionalismo, o diretor optou por não expor graficamente o funesto resultado da empreitada, e centrou-se nos depoimentos, que rendem desde momentos de pura perplexidade até acessos involuntários de humor negro, gerados principalmente pela presença do insólito legista que cuidou do caso.

Timothy Treadwell e Amie Huguenard

A controversa figura de Timothy Treadwell, independente do julgamento de seus atos, rendeu para Herzog mais do que um documentário sobre homens e ursos, ou sobre uma tragédia anunciada; o diretor concebeu uma dramática análise sobre a natureza, humana e animal, e organizou uma excursão por uma região mais selvagem e desconhecida que o gélido Alasca…a mente de um homem que se deixou dominar por suas obsessões.

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