Arquivo do mês: agosto 2011

O MÊS EM QUE PORTO ALEGRE RESPIROU CINEMA!

Mostra Kenneth Anger no mezanino da Usina do Gasômetro

Durante o mês de julho Porto Alegre vivenciou um raro momento de verdadeiro êxtase entre os cinéfilos locais. Os menos atentos aos eventos culturais relativos a cinema, ou simplesmente insensíveis as artes em geral, não perceberam ou deram importância a feliz conjunção de agendas que possibilitou o fato de nomes como Kenneth Anger, Claire Denis e Lamberto Bava estarem perambulando simultaneamente pelas ruas da cidade. Estes cineastas tão

Anger e Denis em encontro inusitado

díspares quanto importantes em seus respectivos nichos podiam ser vistos passeando tranquilamente pela Rua da Praia, bebendo um cafezinho no Mercado Público ou assistindo ao pôr do sol na beira do Guaíba. Presenças inusitadas que tornaram a cidade um cenário quase surreal, de ares fílmicos, pois para os amantes do cinema, estas figuras aparentemente comuns bebendo o cafezinho na mesa ao lado não passavam despercebidas, estavam envoltas na mítica de suas obras.

Enquanto Lamberto Bava era o homenageado do VII FANTASPOA, tanto Claire Denis como Kenneth Anger tinham suas obras dissecadas em retrospectivas na Usina do Gasômetro. Por trabalhar na Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da prefeitura junto com Bernardo de Souza e Marcus Mello, que com esforços hercúleos foram os responsáveis pela vinda de Anger e Denis, tive a oportunidade de participar ativamente destas mostras e dialogar com estas figuras icônicas.

Mostra Kenneth Anger no mezanino da Usina do Gasômetro

Receoso com a aura maldita envolvendo o cineasta místico que concebeu “Invocation My Demon Brother”, “Lucifer Rising” e o livro “Hollywood Babylon”, encontrei Kenneth Anger ainda no aeroporto, e tive minhas ressalvas dissipadas ao me deparar com um senhor sorridente e acessível, que em nada lembrava o artista obscuro, famoso seguidor dos preceitos de Aleister Crowley, sempre relacionado a temas polêmicos envolvendo arte, homossexualismo e missas negras. Não foi à toa que os Rolling Stones compuseram “Simpathy for the Devil” em sua homenagem. Aos 84 anos Anger parecia sereno, sempre esboçando um sorriso resplandecente, ao contrário de seu acompanhante, o sisudo artista multimídia e ocultista Brian Butler.

Na coletiva de imprensa a idade pareceu lhe pesar nos ombros, e no geral Anger foi lacônico, respondendo sem muito entusiasmo algumas questões sobre sua obra ou se esquivando de forma bem humorada de perguntas sobre sua relação com rituais ocultistas. Quando indaguei se Hollywood ainda era uma Babilônia sobre a qual valeria escrever algo a respeito, respondeu que tem um terceiro volume de “Hollywood Babylon” quase finalizado, mas tem receio de lançá-lo, pois certamente seria processado pelos adeptos da Cientologia. Sobre o satanismo, não apenas em seus filmes como em sua trajetória pessoal, contrapôs que as pessoas as vezes não compreendem o seu estranho senso de humor, e o levam mais a sério do que deveriam. Porém, se Anger apenas quis se desvencilhar do assunto, talvez por estar cansado de responder sobre o tema, ou se realmente a magia era apenas mais uma ferramenta lírica em seu trabalho, seu amigo Brian Butler parece realmente levar as forças ocultas com seriedade. Ao final da coletiva Butler foi conversar com meu amigo Antônio Augusto

Fagundes Filho (mestre em tarô e outras atividades mágicas), que foi quem

Brian, Antônio e eu, na caça das entidades.

durante a coletiva mais manifestou curiosidade nas atividades demoníacas de Anger. E o interesse de Butler era claro, “brazilian black magic”, a boa e velha macumba. Após a coletiva acompanhamos Antônio numa tour pelas “floras’ do Mercado Público, e ficamos o resto da manhã envoltos com exus, pombas giras, pretos velhos e outras entidades. Engraçado foi explicar para Brian a denominação de algumas entidades da umbanda. Como traduzir “Exu Tranca Rua”? Com meu inglês macarrônico arrisquei um “Exu Lock Street”. Durante todo mês de julho a obra de Anger pôde ser devidamente apreciada numa exposição delirante que ocupou um grande espaço no 2° andar da Usina do Gasômetro. O velho cineasta deu seu aval, e retornou para sua babilônica Hollywood, nos deixando em dúvida sobre o quanto de realmente demoníaco havia na ostentação de seu simpático sorriso.

A retrospectiva da obra de Claire Denis na Sala P.F Gastal, foi essencial para uma reavaliação (e destruição) de conceitos que eu havia sedimentado durante anos sobre o trabalho desta peculiar realizadora francesa. Nunca fui um grande entusiasta de sua visão de cinema, mas sempre admirei a força com que ela defende suas opções narrativas e estéticas, e nesta revisão, filmes como “Desejo e Obsessão” e “35 Doses de Rum” (exibidos em belas cópias em 35mm)

Aula de cinema com Claire Denis

cresceram imensamente, apagando um certo ar de formalismo presunçoso que eu achava existir em seus trabalhos. E uma das surpresas mais agradáveis foi assistir “US Go Home”, uma rara produção realizada para a TV (para a série Tours lês Graçons ET lês Filles de leur Age) sobre a juventude francesa dos anos 60, que se tornou instantaneamente o meu filme preferido da diretora. Porém, o grande mérito desta retrospectiva foi a presença da própria Denis. Após a exibição de “Beau Traveil”, filme de abertura da mostra, realizou-se um debate, mediado pelo excelente montador Milton do Prado, que se transformou em uma extasiante explanação sobre a arte de fazer filmes.  O diálogo franco com o público, onde a realizadora conversou sobre seu processo criativo, suas influências, escolhas e experiências, foi uma absurda aula de cinema como raramente tive a oportunidade de presenciar. Conversei brevemente sobre o começo de sua carreira, iniciada como assistente de direção de um dos meus cineastas prediletos, Dusan Makavejev, em “Sweet Movie”. Ela revelou que a lição mais importante apreendida como assistente foi “não ter medo”. E falou isso não em termos artísticos, mas se referindo à experiência de vida. Aprender a nadar, andar de motocicleta, e realizar outras atividade perigosas que lhe eram exigidas em um filme, foram coisas fundamentais para auxiliá-la (uma jovem considerada frágil) a encarar a vida de frente; não temer. Além de Makavejev, Claire foi assistente de nomes como Win Wenders, Jim Jarmush, Costa-Gavras e Robert Enrico. Um currículo mais do que invejável.

Simpático e bonachão, Lamberto Bava estampou sorrisos nos rostos dos mais fervorosos fãs de horror durante o VII FANTASPOA. Apesar de não constar no hall dos meus diretores prediletos (seu lugar está ocupado pela lendária figura de seu pai, Mario Bava), Lamberto tem o mérito de ser o realizador de um dos filmes que mais marcaram a minha adolescência, auxiliando a sedimentar o meu gosto pelo gênero fantástico, “Demons- Filhos das Trevas”. O gore descarado, e a sequência onde demônios são massacrados dentro de um cinema (ao som de “Fast is a Shark”, do Accept) por um jovem munido de uma katana e uma motocicleta, é o suficiente para perdoá-lo pela gama de filmes medíocres que ele viria a dirigir. Atencioso com o público, o veterano diretor italiano participou de sessões comentadas sobre a sua obra e a de seu pai, e sanou a curiosidade dos cinéfilos revelando fatos interessantes, não apenas sobre os filmes da família Bava, mas também peculiaridades sobre como funcionava a indústria do horror italiano. Na retrospectiva de Mario não faltaram títulos

Ouvindo atentamente Lamberto Bava

clássicos como “A Máscara do Demônio”, “Perigo:Diabolik” e “Whip and the Body”, porém lamentei a ausência de “Sei Donne Per L’assassino”, filme seminal do gênero giallo. Entre os muitos relatos de Lamberto, foi curioso saber que apesar de seu nome constar como assistente de direção na ficha técnica de “Canibal Holocausto”, de Ruggero Deodato, ele não teve nenhum envolvimento com o filme, tendo cedido seu nome apenas para fechar uma cota de produção. E seus comentários sobre a rivalidade entre os diretores de filmes de gênero daquele período, apesar de muitos trabalharem cooperativamente, acabaram com a ilusão de que havia uma relação afetiva entre eles; as relações pareciam ocorrer estritamente no plano comercial Segundo relatou, depois de ter produzido seu primeiro longa-metragem, Deodato teria lhe dito, “Parabéns Lamberto, mas agora que você também é diretor, não podemos ser mais amigos”. Alguns destes comentários proporcionaram uma compreensão maior sobre desavenças lendárias entre diretores como Dario Argento e Lucio Fulci. Foi uma experiência emocionante ouvir histórias pessoalmente de quem presenciou e participou ativamente de um dos períodos mais efervescentes e criativos do cinema fantástico italiano.

O mês de julho de 2011 ficará ainda um bom tempo em minha memória, feito uma velha película technicolor, que mesmo arranhada, as cores persistem em não esmaecer.

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UM DRINK PARA O VELHO SAFADO! HOJE BUKOWSKI COMPLETARIA 91 ANOS.

Charles Bukowski 1920-1994

 

Faye Dunaway, Bukowski e Mickey Rourke nos bastidores de "Barfly".

 

Fazendo justiça ao apelido "Dirty old man".

 

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PROJETO RAROS APRESENTA “A CAÇA”, DE CARLOS SAURA.

A Caça (La Caza, 1966)

Projeto Raros, sexta-feira, 12 de agosto, as 20 horas  na Sala P.F. Gastal (3° andar da Usina do Gasômetro).  Entrada franca.

A Caça (La Caza), de Carlos Saura. Espanha, 1966, 91 minutos. Um grupo de amigos sai para uma caçada em região que foi cenário de sangrentos conflitos durante a Guerra Civil Espanhola. Uma poderosa alegoria de Saura sobre o regime ditatorial do General Francisco Franco, nunca lançada nos cinemas brasileiros. Única exibição no projeto Raros. Exibição em DVD.  (legendas em espanhol)

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MOSTRA 20 ANOS DE TAKASHI MIIKE.

Parabéns aos amigos da Tokyo Filmes por essa excepcional  iniciativa!

Mais informações: http://www.takashimiike.com.br/

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R.I.P BUBBA SMITH- GOODBYE SGT. HIGHTOWER (1945-2011)


Bubba Smith como Sgt. Hightower em Loucademia de Polícia.

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GRAN TORINO

Aos 81 anos Clint Eastwood é um dos últimos remanescentes de uma geração que honrou a tradição de cineastas como Don Siegel e Samuel Fuller, praticando um cinema sóbrio, sem afetações estéticas, em que o papel da técnica é o de funcionar em prol da narrativa. Em Gran Torino, Eastwood continua fiel aos aspectos fílmicos que constituíram sua obra, e ciente de sua condição crepuscular, desenvolve um personagem que reflete elementos de sua própria trajetória como ator e diretor; a redenção de um homem rude, no limiar de sua existência, apegado a valores ultrapassados, que começa a questionar o seu olhar perante o mundo que o cerca.

Eastwood interpreta Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia que não se envergonha de ostentar opiniões racistas, valores arcaicos e um mau humor crônico que o torna uma figura quase caricatural em sua amargura. Suas ações o fazem beirar a comicidade, e todos que o cercam são vítimas constantes do seu sarcasmo e de suas grosserias; os filhos ausentes, o padre do bairro, e principalmente os vizinhos asiáticos. Walt Kowalski é um cara durão, forjado nos campos de batalha e em 50 anos de trabalho na linha de montagem de uma fábrica de automóveis. Em uma vida de lutas, não lhe sobrou tempo para amenidades ou delicadezas, e lhe faltou sensibilidade para perceber que o mundo ao seu redor estava mudando. Seu bairro, antes um típico condomínio de trabalhadores da indústria automotiva que perseguiam o american dream, agora é um decadente reduto de imigrantes asiáticos da etnia Hmong, que tentam sobreviver em meio à violência das gangues e a falta de perspectiva de um futuro melhor. Desnorteado com a recente morte da esposa, e vendo ruir tudo aquilo em que um dia acreditou, Walt passa seus derradeiros dias bebendo cerveja, lavando, encerando e exibindo em frente a sua casa um automóvel Gran Torino 1972.

O Gran Torino que dá nome ao filme é o orgulho de Walt, e o estandarte daquilo que restou de seus valores, um símbolo de sua enferrujada crença no american way of life. Quando Thao (Bee Vang), o vizinho vietnamita tenta roubar o automóvel, aos poucos eles acabam desenvolvendo um estranho vínculo de amizade, onde o velho rabugento aos poucos percebe sua triste condição de ser anacrônico; uma criatura estranha num mundo que há tempos deixou de compreender. Walt começa, mesmo sem perder a dureza de seu caráter, a aprender a conviver com as diferenças, mas as ameaças de uma gangue à família de Thao fazem com que ele recarregue seu velho fuzil, e tente, a sua maneira restabelecer a ordem na vizinhança.

Habituado a encarnar nas telas homens durões e justiceiros implacáveis, o Walt Kowalski de Eastwood é um acerto de contas com sua persona cinematográfica, equivalente ao que John Wayne fez ao realizar com Don Siegel em 1976 O Último Pistoleiro. O simples gesto de apontar o dedo indicador para alguém, e disparar como se fosse uma arma, através de Eastwood adquire um significado que ultrapassa o próprio mito. A força de “Gran Torino” está em sua simplicidade, na honestidade de sua trama, e na coragem de Eastwood em desmistificar a figura do herói durão que ajudou a criar em seus mais de 50 anos de cinema, provando que a valentia de um homem pode ser medida, não pela pilha de corpos que deixa pelo chão, mas em quantas vidas pode salvar com seu próprio sacrifício.

 

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COM A PALAVRA…PIER PAOLO PASOLINI!

Pier Paolo Pasolini (1922-1975)

“É tão óbvio que até uma criança entende que a censura é principalmente uma questão política, onde o sexo é uma simples e descarada ilusão. A censura intimida, ameaça, mostra para o público um falso objetivo, distorcendo completamente a sua capacidade de compreensão. Joga sobre o autor descrédito, escândalo e menosprezo, o fazendo perder respeitabilidade e credibilidade. E esse é realmente o resultado mais diabólico.”

 

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