Arquivo do mês: abril 2010

FANTASMA TECHNICOLOR

Originalmente publicado em 1911 pelo escritor francês Gaston Leroux, o tétrico romance O Fantasma da Ópera tornou-se um inesperado sucesso, cativando o público com sua trama macabra e folhetinesca. O êxito literário fez com que a história fosse transposta para o cinema pela primeira vez em 1925, e a triste figura do músico virtuoso, transformado numa figura grotesca e amargurada, que guiada por suas obsessões vaga pelos subterrâneos da Ópera de Paris em busca de vingança, acabou eternizada através da interpretação de Lon Chaney, também conhecido como O Homem das Mil Faces. O Fantasma da Ópera, dirigido por Rupert Julian, tornou-se não apenas um ícone do cinema mudo, mas um dos mais influentes filmes de horror da história, e grande parte deste mérito se deve a marcante caracterização de Chaney.

Em 1943, o mundo estava mergulhado na Segunda Guerra Mundial, e a indústria cinematográfica também sentia os reflexos desta crise, quando os produtores da Universal resolveram ressuscitar o seu antigo sucesso, afinal, com o advento do cinema falado e com as novas técnicas de coloração, poderiam realizar uma releitura sonora e em cores da obra de Leroux, fornecendo assim um espetáculo grandioso o suficiente para atrair o público, que neste período estava muito mais preocupado com as investidas de Hitler na Europa.

Para realizar a façanha, a Universal contratou o polivalente diretor Arthur Lubin, e a fotografia, um elemento essencial nesta nova concepção da obra, ficou a cargo de Hal Mohr e Howard Greene, dois pioneiros na área dos filmes coloridos, que optaram por investir no, então inovador, processo Technicolor. Para o elenco foram escaladas figuras populares da época, como o carismático cantor Nelson Eddy, que possuía grande empatia com o público, portanto era o tipo de galã certo para as horas incertas; para viver Christine, a fonte das obsessões do Fantasma, a jovem atriz e cantora Susanna Foster; e por fim, para encarnar o famigerado Erique Claudin, mais conhecido como O Fantasma da Ópera, o talentoso ator inglês Claude Rains, que antes havia interpretado outros ícones do cinema fantástico, o insano cientista de O Homem Invisível (1933),  e o amaldiçoado John Talbot de O Lobisomem (1941).

O novo roteiro mantinha basicamente a história original. Erique, um veterano violinista da Ópera de Paris, nutre uma estranha atração pela jovem cantora Christine, porém, suas atitudes beiram o patético e transparecem em atitudes paternais, Christine, por sua vez, só pensa em ter seu talento de soprano reconhecido, e divide suas intenções amorosas entre o barítono Anatole (Nelson Eddy) e o agente de polícia Raoul (Edgar Barrier). Ao descobrir que suas composições foram roubadas por outro músico, Erique perde o controle e se envolve em uma briga onde tem seu rosto desfigurado. Enlouquecido, ele se refugia nos subterrâneos de Paris, e encobrindo o rosto com uma máscara, atormenta a famosa casa de óperas com sabotagens e assassinatos que visam promover a ascensão de Christine nos palcos.

A trama não sofreu grandes inovações em comparação com a versão anterior, no entanto, o deslumbramento com as possibilidades do Technicolor tornou-se uma faca de dois gumes. O filme ganhou uma colorido vibrante, típico do processo que caracterizava-se pela intensidade do brilho e do contraste, porém, a vivacidade das cores o tornou menos sombrio que a antiga versão em preto e branco. O atrapalhado triângulo amoroso envolvendo Christine, Anatole e Raoul, é utilizado como um recurso de alívio cômico, e também auxilia a amenizar o tom soturno da história. É no palco, nos momentos musicais, que o filme consegue equilibrar a técnica ao enredo, em momentos de pura fruição. Um deleite para os olhos e para os ouvidos. Curiosamente, devido aos altos impostos gerados pela guerra, para baratear a produção a Universal optou por utilizar apenas trechos de óperas que estivessem em domínio público. Outra curiosidade é referente à seqüência da queda do lustre. Em 1896, um militante anarquista sabotou o lustre da Ópera de Paris, que caiu tragicamente sobre a platéia; o evento inspirou Leroux a escrever a famigerada cena.

A interpretação de Rains, apesar de correta, inspirando simpatia pela trágica sina de seu personagem, ficou aquém do Fantasma de Chaney, que marcou época por inspirar um sentimento ainda mais primordial, o medo. Lon Chaney, com seu rosto horrendamente deformado, e seus trejeitos alucinados, se fixou de tal maneira no imaginário popular, que fica difícil, mesmo após tantas décadas e inúmeras refilmagens desassociar sua imagem da vingativa figura do Fantasma da Ópera.

Em 1944, a Universal comemorou os frutos de seu investimento, conseguindo quatro indicações e arrebatando dois Oscars (melhor fotografia e melhor direção de arte). As cores vibrantes do Technicolor hipnotizaram as platéias, e amenizaram os dias cinzentos de guerra. O sistema de cores dominou o cinema por mais de vinte anos, e só foi substituído no começo dos anos 1960 pelo Eastmancolor, um processo menos mágico, porém, mais barato para os verdadeiros Fantasmas da Indústria Cinematográfica.

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DELÍRIOS DE UMA COLETIVA

Aproveitando o fato de Encarnação do Demônio estar novamente em evidência (para apreciação, revisão e crítica) após sua estréia no Canal Brasil, resgato esta entrevista que realizei com Mojica em 2008 quando do lançamento  do filme em Porto Alegre durante o 4° Fantaspoa. Uma coletiva com Mojica pode se tornar uma aventura inusitada, um caleidoscópio frenético refletindo um turbilhão de idéias que habitualmente se transformam em longos monólogos onde o mítico diretor desenvolve questões que pouco ou nada tem a ver com a pergunta proposta, ou como bem ilustrou Felipe Guerra, também presente nesta coletiva: “Entrevistar Mojica é algo tão surreal quanto assistir Delírios de Um Anormal sem estar chapado”. Porém, por mais delirante que pareça, ouvir um realizador lendário dissertar sobre sua trajetória sempre é algo instigante.

ESTRANHO ENCONTRO COM O MESTRE MOJICA

Eu e Mojica durante o 4° Fantaspoa

CV– O personagem Zé do Caixão nasceu de um pesadelo. Os pesadelos continuam sendo uma fonte de inspiração?

Mojica– Pra mim é! Em 1963, em outubro exatamente, os padres me desiludiram, disseram que eu não servia para fazer cinema. Eu estava fazendo uma fita em 1961 (Meu Destino em Tuas Mãos), pra crianças, um filme feliz, legal, os padres e as freiras aplaudiram de pé, mas quando eu fui lançar ninguém quis a fita. Eu vinha de “A Sina do Aventureiro”, um bang bang meio nosso, bem brasileiro, e eu faço de repente um filme bem água com açúcar. E aí eu fui falar com o padre, falei: “Vocês aplaudiram de pé, pediram que eu fizesse, e o cinema não quer exibir a fita porque é muito água com açúcar”. Aí o padre virou pra mim e disse: “Olha meu filho, eu sinto ter de falar, você não nasceu pra fazer cinema.” E eu: “Eu só sei fazer isso, minha religião é o cinema!” E o padre: ”Você não nasceu pra isso, as pessoas tem de nascer, você podia vender uva passa, engraxar sapatos que é mais fácil, pega uma outra profissão, mas esqueça o cinema”. Pô, aí eu fiquei meio revoltado, então tinha James Dean com “Juventude Transviada”, “Vidas Amargas”, então eu pensei, o negócio é tentar fazer uma fita sobre a mudança dos jovens no Brasil, já que tavam mudando no mundo todo. E aí eu tava com “Geração Maldita” pra fazer. Consegui juntar uns associados pra fazer o “Geração Maldita”. Eu tava com barba porque tive um problema intestinal e invés de fazerem promessa pros meus cunhados deixar a barba, fizeram pra mim, eu por respeito deixei a barba, né. E aí, saio um dia cansado, chego em casa, tô jantando, e o cansaço era muito, e eu já tinha tomado comprimidos pra dormir, eu sou dependente de comprimidos, sofro muito de insônia. E aí acabei adormecendo na mesa, e devo ter me retorcido, me agitado. E ao adormecer veio esse pesadelo com a figura de preto, que eu retratei no “Esta Noite levarei Sua Alma”, que me levava pra uma gruta onde tinha uma lápide com data do meu nascimento e da morte! Era uma espécie de um prenúncio pra mim entrar naquilo que eu gostava, o horror, o terror, que eu já tinha feito umas fitas experimentais, aos 10, 12 anos. Trouxeram um pai de santo, acharam que eu estava com algum espírito maligno dentro. O pai de santo falou: “Pronto, tirei o diabo do corpo dele”! Eu disse que não tava com diabo nenhum, pô! Eu tive uma premonição, eu vou fazer outro negócio. Não quis saber mais de dormir, então fui buscar minha secretária, bati na casa e ela ficou toda apavorada: “Aconteceu alguma coisa?” Eu disse: “Não! Preciso de você pra fazer um resumo, eu não vou mais fazer “Geração Maldita”, eu vou fazer “A Meia Noite Levarei Sua Alma”! (…) Ficou um negócio bem cabalístico, 13 latas e 13 dias, era o material e o tempo que eu tinha pra filmar e pra pagar a equipe, porque a produção já tinha sido levantada. E aí começou a minha procura do Zé do Caixão. (…) Eu tinha achado uma capa de Exu, que o zelador do prédio do meu estúdio praticava macumba, e esqueceu a capa, e tinha um maço de cigarros com uma cartolinha, pô, já era a roupa do personagem.

CV “Encarnação do Demônio” levou 40 anos para ser realizado. O roteiro foi reescrito pelo cineasta gaúcho Dennison Ramalho. O quanto foi mantido da trama original?

Mojica– No original o Zé tinha uma pequena passagem por São Paulo, agora tudo se passa na grande metrópole. Só aí já foi uma mudança muito grande. Com a violência, a vaidade de uma cidade grande, ficou um prato muito saboroso. A superstição continua a mesma, mas sentimos que tínhamos de partir pra mais violência porque estávamos numa cidade violenta. Queira ou não São Paulo já está chegando na altura do Rio. Em violência já estão se igualando. Então, acho que aí já foi uma modificação muito grande. Eu vejo uma outra modificação, aqui nós temos os espectros perseguindo o Zé em pleno centro da cidade. Espectros preto e branco junto com o colorido. A outra fita era preto e branco, só o inferno colorido, e agora se inverteu. Mas a grande vingança é a seguinte. Quando eu fiz o “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, nos 30 segundos finais a censura me obrigou a fazer o Zé do Caixão se converter. Ele teve de pedir a cruz quando ele tava morrendo. No original dizia “Não acredito!”, mas daí teve de dizer “Acredito!”, e de repente a cruz. Eu tinha um problema grave, eu não podia falar pra ninguém, só os amigos sabiam o que aconteceu, então o público não sabia, e era uma incoerência, o Zé afundando e dizendo: “Eu creio! A cruz padre! A Cruz!” E aqui nós demos o troco, filmamos como tinha de ser. No lugar de pedir a cruz o Zé afunda no lago, mas levanta e pega a cruz, renegando cristo, pra crucificá-lo outra vez. Então é a resposta ao passado, a essa censura violenta dessa ditadura, tivemos algo bem violento, bem forte. Ah, também temos baratas, ratos, aranhas no próprio Zé do Caixão. Antes ele punhas nas mulheres, agora as mulheres botam as aranhas nele. Temos tudo pra deixar o público contente. E sempre tem alguém que fala, reclama sobre o lance da sexualidade. A sexualidade caminha com o terror.

CV– Fome, miséria, violência, injustiça. A realidade brasileira tem fornecido uma vasta matéria prima pra gerar o horror. “Encarnação do Demônio” incorpora em sua trama elementos da violência urbana. O que é mais assustador, o medo do desconhecido, o sobrenatural ou a realidade brasileira?

Mojica– A realidade brasileira. A realidade brasileira na verdade assusta uma determinada camada social, da média para cima, agora, da baixa à baixíssima ainda existe uma superstição, um medo danado. Você roga uma praga, o cara tem medo, todo mundo usa patuá, medalhão, mascote, pra realmente tirar as maldição. Então, a classe baixa mesmo, tem medo do sobrenatural. De ter castigo, de ter uma perseguição de Satanás. Na minha concepção, Deus criou o homem, e o homem criou o Diabo. Para os elementos com mais escolaridade, mais vividos, o medo é o da violência, aquela em que você sai e não sabe se volta pra casa. Esse é o grande problema!

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Encarnação do Demônio

“Nesta segunda-feira Encarnação do Demônio estreou no Canal Brasil. Muitas teorias foram formuladas na tentativa de elucidar o porquê do fracasso do filme nas bilheterias brasileiras, eu mesmo quebrei a cabeça tentando encontrar alguma explicação plausível para a péssima recepção do público, e apenas consegui esboçar mais dúvidas que certezas. Porém, se a obra de Mojica nunca foi unanimidade, foi na adversidade que ela encontrou sua força. Talvez a televisão seja o veículo ideal para auxiliar  a obra em suas futuras revisões, encontrando ali uma nova geração de fãs. Encarnação do Demônio será reprisado no dia 24 de abril, às 22 horas. Aproveito para republicar uma breve resenha que escrevi no calor do momento após assistir o filme em seu lançamento durante o 4° Fantaspoa.”

Encarnação do Demônio

“Das trevas surge o oculto. O ventre perfeito gesta a maior criação: um ser que desconheça qualquer limite. Apenas força e fulgor; ímpeto e desejo. A perfeição suprema em meio ao caos. Excesso que surge do completo vazio. Para além de qualquer dor, ou loucura. Mais alto que Deus, mais baixo que Satã. Poderosa, indômita, impiedosa, lasciva, livre. É preciso gerar esta criança. Forjá-la na continuidade de meu sangue.” (Zé do Caixão)

Cineasta maldito, mítico e controverso, José Mojica Marins invadiu de tal forma o inconsciente coletivo do povo brasileiro que se tornou uma figura indissociável de sua maior criação, Zé do Caixão! Ícone absoluto do horror brasileiro, José Mojica Marins deixou sua marca no cinema nacional através de uma filmografia tão vasta e singular quanto incompreendida, composta por obras como “À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963)”, “Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967)” e “O Ritual dos Sádicos (1970)”. Admirado por cineastas canônicos como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, Mojica sobreviveu à margem da indústria cinematográfica brasileira, resistindo bravamente à falta de apoio estatal, ao descaso da crítica e ao preconceito com o gênero horror, e após uma inexplicável gestação de 40 anos consegue enfim produzir “Encarnação do Demônio”, o desfecho da trilogia iniciada em 1963 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”.

“Encarnação do Demônio” é o retorno às telas do famigerado personagem Josefel Zanatas, o sádico e obstinado coveiro mais conhecido como Zé do Caixão. Mojica estava distante da direção desde 1987, e sem personificar o sinistro personagem em um filme próprio desde “Delírios de um anormal” (1978). Neste período de ausência nos cinemas o personagem sobreviveu no imaginário popular devido ao uso que o diretor fez de sua criação. Durante os anos 80 e 90, por uma questão de necessidade econômica, Mojica se viu obrigado a incorporar Zé do Caixão nos mais diversos campos midiáticos (de apresentador de TV à atração do Playcenter), fortalecendo o amálgama entre criador e criatura. Porém, diante dos olhos das platéias mais jovens a superexposição do personagem o transformou em uma mera caricatura, distante do ser que gerava o pavor no público e nos censores federais das décadas de 60 e 70. “Encarnação do Demônio” recupera a essência maléfica do personagem. O homem da capa preta, da cartola e das unhas compridas, está de volta, ainda mais sacrílego, iconoclasta e cruel.

A trama de “Encarnação do Demônio” dá seguimento aos fatos ocorridos em “Está Noite Encarnarei em Teu Cadáver”. Após 40 anos preso por seus crimes, Zé do Caixão é posto em liberdade, porém, o cárcere não sobrepujou a sua filosofia de vida, composta por uma teoria quase nietzscheana a respeito do “homem superior”. Zé do Caixão tem como principal meta a imortalidade do seu sangue, e isto somente será possível através do nascimento do filho perfeito, que só poderá ser concebido do ventre de uma “mulher superior”. Com o auxilio de Bruno (Rui Resende), seu fiel discípulo, o coveiro irá raptar belas mulheres que terão que passar por macabras e dolorosas provas até serem consideradas dignas de gerar o homem perfeito.

Ao sair da prisão, Zé é obrigado a morar em uma favela, e encontra um universo muito diferente daquele que deixou ao ser trancafiado no fim dos anos 1960, e assim, precisa se adaptar aos novos tempos. E nesta nova realidade onde a violência urbana, a pobreza e a truculência policial assustam mais do que qualquer entidade sobrenatural, o velho coveiro precisa ser tão cruel quanto o ambiente hostil que o acolheu, e é neste aspecto que os desavisados irão encontrar um Zé do Caixão bem diferente daquele que estavam acostumados a ver na televisão. Assombrado por fantasmas do passado e obcecado por gerar seu filho, ele irá desencadear um banho de sangue sem precedentes no cinema brasileiro, com cenas grotescas, capazes de corar Jigsaw, ou qualquer outro psicopata genérico do cinema americano. São especialmente incomodas as cenas em que uma garota é sufocada, tendo sua cabeça enfiada num barril cheio de baratas (reais), ou quando outra é costurada dentro de um porco, numa das seqüências mais chocantes e surreais do filme.

A jornada dantesca de Zé do Caixão, uma figura anacrônica perdida em meio à modernidade, é o resgate não apenas de um cineasta de talento indômito, submetido ao limbo pela incompreensão da indústria cultural, mas é também o resgate de um gênero cinematográfico que ainda enfrenta forte resistência por parte, não apenas da crítica brasileira, mas do grande público, que prefere engolir a seco os similares estrangeiros e não percebe as qualidades das produções nacionais, tanto que a obra de Mojica tornou-se objeto de culto ao redor do mundo, enquanto no Brasil ainda é vista com incompreensível descaso.

Em “Encarnação do Demônio”, Mojica trabalha pela primeira vez com um orçamento digno, e saltam aos olhos as qualidades técnicas do filme, seja pela excelente fotografia do veterano José Roberto Eliezer, pela impactante trilha de André Abujamra e Marcio Nigro ou pelo elenco afiado que reúne talentos de várias gerações, como Jece Valadão (falecido durante as filmagens), Adriano Stuart e Milhem Cortaz. Um dos desafios do filme é conquistar um publico que, apesar de conhecer a figura de Zé do Caixão, na verdade desconhece a obra de José Mojica Marins. O Zé do Caixão do cinema é uma figura intrínseca e malévola, que destoa da figura caricata e patética que se limitava a rogar pragas em programas de televisão. Os programas televisivos apagavam a verdadeira essência do personagem, sendo um freio para a imaginação mórbida de Mojica. Livre das amarras ele voltou a soltar sobre os espectadores os demônios aprisionados em sua imaginação, e grande parte do mérito é do talentoso roteirista gaúcho Dennison Ramalho (diretor do sombrio e premiado curta “Amor Só de Mãe”) que captou com maestria a aura maldita que envolve o personagem, e num trabalho de fã ardoroso deu um seguimento digno à mitologia iniciada no longínquo ano de 1963.

José Mojica Marins, após travar uma longa e árdua batalha contra a mediocridade e a incompreensão do stablishment da indústria cultural brasileira, encerra enfim sua trilogia de obsessão e horror, e no auge dos seus 72 anos ainda tem forças para renegar o canto do cisne, e promete lançar ainda mais sangue e vísceras nas telas dos cinemas brasileiros.

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Favela Alien

Em outubro de 1938 ecoavam rumores a respeito de um conflito mundial, quando Orson Welles causou um surto de histeria coletiva em Nova York ao transmitir sua versão radiofônica de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. A população, apreensiva com a iminência de uma guerra, entrou em pânico ao ouvir o rádio noticiar que invasores de outro mundo estavam destruindo a cidade. A ameaça vinha do espaço, mas apenas refletia temores próprios de sua época. A ficção científica, seja na literatura ou no cinema, sempre foi uma perfeita ferramenta especulativa da natureza humana, e assim, o encontro entre seres de mundos distintos serve tanto para realizar uma alegoria de nossa própria realidade, como serve de indagação sobre a essência do desconhecido. A invasão marciana criada por H.G. Wells em 1898, foi a metáfora encontrada pelo autor para criticar a política colonialista européia, condescendente com o genocídio e a dominação de povos considerados culturalmente inferiores.

Apesar de estar presente nas telas desde 1902, quando o pioneiro George Méliès adaptou Viagem a Lua (La Voyage Dans La Lune), do escritor francês Julio Verne, o gênero somente se popularizou no cinema a partir dos anos 1950, período em que invasões alienígenas se transformaram num artifício corriqueiro para retratar os medos provenientes da “Guerra Fria”. A paranóia comunista e as imprevisíveis conseqüências do uso de novas tecnologias, como a energia atômica, geraram obras canônicas como Vampiros de Almas (Invasion of The Body Snatchers, 1956), de Don Siegel, O Planeta Vermelho (Red Planet Mars, 1952) de Harry Horner, e O Dia em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, 1951), de Robert Wise. Desde então se cristalizou uma extensa filmografia dedicada ao tema, onde invariavelmente estranhas criaturas surgem de algum canto desconhecido do espaço sideral com o intuito de subjugar a humanidade.

Em décadas de exploração do gênero, a coexistência, seja ela hostil ou pacífica entre humanos e extraterrestres, há muito deixou de ser novidade para os cinéfilos. Porém, Distrito 9 (District 9, 2009), produzido por Peter Jackson e idealizado pelo estreante diretor sul africano Neill Blomkamp, surpreende ao utilizar, travestido com a roupagem típica dos modernos filmes de ação, uma ocupação alienígena como analogia para revelar os meandros de uma sociedade embasada na segregação racial.

O enredo de Distrito 9 suscita fantasmas da antiga política social da África do Sul, remontando o regime do apharteid através de uma curiosa inversão de valores. Após uma gigantesca espaçonave extraterrestre sofrer pane e ficar a deriva sobre os céus de Johanesburgo, os guetos da cidade passam a ser habitados por seres chamados de “camarões”, uma referência as suas bizarras características físicas. Passados o espanto e a curiosidade iniciais, não tarda para que a convivência entre espécies tão distintas se transforme em algo caótico, tornando os aliens alvo das manifestações racistas e xenófobas que costumam afligir as minorias. Vinte anos depois, as criaturas sobrevivem isoladas da sociedade humana, subnutridas e marginalizadas em meio a miséria de um território conhecido como “Distrito 9”. Oprimidos pelos humanos, os “camarões”, apesar de sua avançada tecnologia bélica, não demonstram qualquer interesse pela dominação do planeta, em nada lembrando os malévolos invasores espaciais eternizados pela ficção dos anos 1950.

A superpopulação do território eleva os conflitos sociais entre as espécies, obrigando o governo a criar um campo de concentração batizado “Distrito 10”. O humano Wikus Van De Merve (Sharlto Copley), um pacato burocrata a serviço da MNU (grupo industrial com interesses humanitários suspeitos) é o responsável pela operação de despejo e realocação dos indesejados visitantes. Durante a ação ele acidentalmente entra em contato com uma misteriosa substância alienígena, e tem sua vida transformada num pesadelo kafkiano. Subitamente Wickus, um homem comum, passa a ser a chave biológica para a compreensão da tecnologia extraterrestre, despertando os interesses escusos da indústria armamentista.

Partindo de uma premissa original, presente em seu curta Alive in Joburg realizado em 2005, Neill Blomkamp faz uma breve e violenta análise da natureza humana, enquanto desenvolve o seu conceito particular de colonização alienígena. Utilizando uma curiosa gramática cinematográfica, o diretor mescla gêneros e transita com desenvoltura através de elementos que vão da crítica social ao universo fantástico e grotesco dos filmes B de ficção e horror. A nauseante metamorfose de Wickus, por exemplo, emula perfeitamente as obsessões corpóreas de David Cronenberg em “A Mosca” (The Fly, 1986).

A trama se desenrola de forma labiríntica, alternando a linguagem formal com a dos mockumentaries (falsos documentários), onde o recurso flash-ahead nos posiciona cronologicamente em pontos distintos da história. A opção de usar a câmera diegética, coloca o espectador constantemente no centro ação, onde a crueza e a brutalidade dos embates são ressaltadas através da fotografia dessaturada de Trent Opaloch. Não por acaso algumas seqüências lembram os modernos jogos de videogame, pois o filme só foi possível graças a frustração de Peter Jackson em não conseguir viabilizar a versão cinematográfica do jogo Halo.

Após assistir Alive in Joburg, o diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis” ficou tão empolgado com a inventividade de Blomkamp, que o escalou para dirigir a versão live action do jogo da Microsoft. Descontente com o fato de um inexperiente diretor sul africano ter sido escolhido para realizar Halo, a Microsoft cancelou o projeto. Peter Jackson, talvez se recordando da época em que era um realizador desconhecido tentando conseguir financiamento para seus projetos insólitos, resolveu investir 30 milhões de dólares nos delírios fílmicos de Blomkamp.

Apesar de seu forte subtexto sócio-político, Distrito 9, conduzido com o entusiasmo de um estreante, não se exime de ser, acima de tudo, um excitante veículo de entretenimento, utilizando toda a pirotecnia comum aos filmes de ação contemporâneos, gerando momentos de grande impacto visual. Mas ao traçar um paralelo entre uma raça extraterrestre e nossa própria humanidade, invertendo os habituais papéis de opressor e oprimido, Neill Blomkamp e a co-roteirista Terri Tatchell, mantiveram o dialogo com a tradição crítica de autores como H.G. Wells, reformulando paradigmas e auxiliando a revitalizar o gênero através de um inusitado e instigante thriller de ficção científica.

(Artigo originalmente publicado na revista Teorema n° 15)

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WARRIORS- OS SELVAGENS DA NOITE

No princípio da década de 1980 aparelhos de videocassete ainda eram considerados artigos de luxo para a maioria dos cidadãos brasileiros, e as raras vídeolocadoras existentes restringiam-se às grandes capitais, sendo quase inexistentes nas cidades interioranas. Cinéfilos mais obstinados se aventuravam pelas salas lúgubres dos cinemas-poeira, ou perambulavam por cineclubes decadentes, realizando verdadeiras odisséias para assistirem aos filmes de seus diretores prediletos. Era uma época de transição, em que os aparelhos de TV (após o boom televisivo dos anos 1970), começavam a chegar com mais facilidade aos lares. E assim os cinemas de bairro, e principalmente das cidadezinhas do interior, começavam a agonizar, cedendo o seu espaço para salões de festas e cultos evangélicos, culminando nas famigeradas casas de bingo. Nem os mais otimistas poderiam sonhar com as facilidades tecnológicas que hoje encontramos para assistir um bom filme.

Com a extinção gradual dos cinemas-poeira, e a inacessibilidade do vídeo, uma geração de futuros cinéfilos (na qual me incluo), formou-se principalmente em frente aos monitores de televisão, assistindo aos filmes da Sessão da Tarde (dublados pela Herbert Richers) ou burlando o controle dos pais para varar noites assistindo a Sessão Coruja e outras sessões noturnas, onde nos deparávamos com obras fantásticas e díspares como Corrida Contra o Destino (1971) e O Incrível Homem que Derreteu (1977). Foi numa destas incursões televisivas madrugada adentro que me deparei, ainda na pré-adolescência, com um dos filmes mais marcantes deste período, Warriors – Os Selvagens da Noite (The Warriors), de Walter Hill.

Realizado em 1979, inspirado em um livro homônimo lançado quatorze anos antes pelo escritor Sol Yurick, Warriors contém uma premissa simples que aparentemente não o diferenciaria das inúmeras produções baratas de ação que povoavam os cinemas da época; um grupo de jovens acuados lutando pela sobrevivência numa cidade dominada pela violência. Porém, a direção precisa de Hill conseguiu extrair da trama elementos mais complexos, envolvendo desde referências a mitos da Grécia antiga até conflitos sociais e culturais, gerados tanto pela ressaca política que afetava os EUA naquele período quanto pelo niilismo anárquico do movimento punk, um dos frutos da efervescência cultural dos anos 70. Walter Hill e o roteirista David Shaber reformularam o romance de Yurick, amenizando o discurso social e focando a trama na ação gerada pelas brigas por território, algo comum entre as gangues que infestavam Nova Iorque naquele final de década. A inspiração veio da lendária batalha de Cunaxa, ocorrida em 401 A.C, quando um pelotão de soldados gregos comandados por Xenofonte precisou atravessar o Império Persa lutando com vários inimigos até chegar ao mar.

Após fixar seu nome como roteirista, escrevendo filmes para realizadores do porte de Sam Peckinpah (A Fuga) e John Huston (O Emissário de Mackintosh), Walter Hill ainda precisava confirmar o seu talento como diretor, e Warriors, sua terceira experiência nesta função, era a prova dos nove de que não era uma promessa vazia. Apesar de Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese ter exercido grande influência sobre os thrillers de temática urbana realizados na segunda metade da década de 70 (quando retratou com crueza quase documental a violência e a paranóia de uma grande metrópole), Walter Hill optou por uma abordagem mais estética; isentando a trama de qualquer compromisso com a realidade ao recriar uma Nova Iorque atemporal e visualmente próxima dos quadrinhos (mérito do diretor de fotografia Andrew Laszlo). Alguns anos antes o diretor Jack Hill havia utilizado recurso semelhante ao tratar do universo das gangues femininas na pérola B Faca na Garganta (1975).

Apesar de sua aparente falta de compromisso com a realidade, na época de seu lançamento, diversas gangues rivais entraram em conflito ao se encontrarem dentro do mesmo cinema. Durante as filmagens a produção precisou lidar diretamente com os líderes de cada bairro, pagando um taxa diária para que o equipamento não fosse roubado; o tipo de acordo que se tornaria comum nas favelas cariocas. E assim, o mundo real batia na porta dos produtores. Estes fatos renderam muita publicidade nas páginas policias, mas também um selo R, que restringia a entrada do público adolescente nos cinemas. No entanto a publicidade negativa apenas auxiliou o filme a tornar-se um fenômeno, e Walter Hillacabou se transformando no pai de um subgênero. Filmes sobre gangues de rua proliferaram durante os anos 1980, e a maioria, apesar de serem imitações de qualidade duvidosa, eram garantia de pura diversão, como a sangrenta produção independente Deadbeat at Dawn (1988) dirigida por Jim Van Bebber, ou os frutos da vertente italiana, representada por filmes como 1990: Guerreiros do Bronx(1982)de Enzo G. Castellari. No Brasil, o vexatório Punk’s, Os Filhos da Noite (1982) de Levy Salgado, é um dos raros representantes nacionais do gênero.

Na trama, Cyrus (Roger Hill) é uma espécie de messias urbano que almeja unir os jovens marginais de Nova Iorque, formando assim um verdadeiro exército de desagregados sociais; uma força criminosa impossível de ser ignorada pela sociedade, ou contida pela polícia. Durante uma reunião onde todas as gangues estão presentes, Cyrus é assassinado por Luther (David Patrick Kelly), membro dos Rogues, mas a culpa recai sobre os integrantes dos Warriors, que impossibilitados de provar sua inocência, precisam cruzar a cidade digladiando com hordas enfurecidas até chegarem a Coney Island, o seu território. Liderados por Swan (Michael Beck), os oito membros dos Warriors, e a intempestiva Mercy (Deborah Van Valkenburgh), partem em uma breve e perigosa odisséia em busca de um lugar seguro, percorrendo metrôs sombrios e ruas estranhas de uma Nova Iorque decadente, dominada pelo crime e pela anarquia. Hill impôs à trama um acertado ritmo de história em quadrinhos, tornando a narrativa ágil e concisa, e criou Luther, um personagem inexistente no livro, mas que se revelou um vilão memorável, marcando para sempre a carreira do então estreante David Patrick Kelly com a indissociável frase: “Warriors. Come out to play!”.

A jornada do grupo de anti-heróis é pontuada pela voz de uma misteriosa radialista (Lynne Thigpen), que funciona como uma espécie de coro grego, situando o espectador após cada batalha vencida, e pela trilha original composta por Barry De Vorzon (A Noite dos Arrepios, O Exorcista III), recheada de sintetizadores e timbres bizarros, que realçam ainda mais a estranheza da situação. As seqüências de ação são conduzidas com rigor, e a tensão aumenta toda vez que uma nova gangue entra em cena, sendo uma mais exótica e cruel que a outra. Lizzies, Turnbulls, Rogues, todas esperam uma oportunidade para arrancar um pedaço dos pobres guerreiros. A luta contra os excêntricos Baseball Furies (garotos com pinturas faciais estilo Kiss), onde tacos de baseball são utilizados com a reverência de espadas samurais, ou a briga no banheiro da estação de metrô, onde o slow motion (uma das artimanhas preferidas do diretor) intensifica a ação, tornaram-se antológicas. No entanto, uma cena chave da trama é realizada sem nenhum esboço de violência, mas em tortuoso silêncio, quando a bordo do metrô, Swan e Mercy, sujos e ensangüentados após uma noite de luta pela sobrevivência se deparam com dois jovens casais vindos de uma festa disco. De um lado, os párias, os excluídos, de outro, os símbolos de uma sociedade abastada e alienada, lindos e perfeitos em seus ternos e vestidos brancos. Olhares se cruzam revelando medo, ódio e desprezo. Um silencioso e representativo embate social.

A atração de Hill por figuras marginalizadas e o evidente desprezo pelo establishment são fatores constantes em sua filmografia. Desde o boxeador vagabundo, interpretado por Charles Bronson em Lutador de Rua (1975), passando pelo motorista especializado em assaltos vivido por Ryan O’Neal em Caçada Mortal (1978) ou os míticos pistoleiros de Cavalgada dos Proscritos (1980), o diretor costuma lançar um olhar complacente sobre o universo rude daqueles que vivem a margem da lei. Em parte é esta visão afetuosa sobre a vida dos perdedores a causa da empatia do público com o grupo de jovens marginais que compõem os Warriors.

Mas enquanto os cinéfilos compreendiam este fascínio do diretor como uma sublimação artística, a sociedade temerosa preocupava-se com a influência que o filme, já tornado um fenômeno pop, exerceria sobre os jovens. Sua veia explicitamente anárquica era vista como um elemento desestabilizador, uma ode ao caos. O cartaz original, substituído posteriormente pelos produtores, foi acusado de incitar distúrbios por trazer os dizeres: “Eles são os exércitos da noite. Eles têm a força de milhares. Eles superam os policiais em cinco para um. Eles poderiam governar Nova Iorque”.

Não foi à toa que em 1980, como lembra Peter Biskind em seu livro Easy Riders, Raging Bulls, Walter Hill apareceria na capa da revista Saturday Review ao lado de Scorsese, Paul Schrader e Brian De Palma com a manchete: “Os Bárbaros: Fazendo Filmes Cruéis e Feios”. Os filmes destes cineastas apenas refletiam nas telas o espírito de sua época, o caráter violento e desesperançado de uma nação ainda buscando curar a ressaca moral pós-Vietnam.

Em 2005 Walter Hill lançou a sua versão do diretor contendo cenas inéditas e uma introdução sobre a batalha de Cunaxa. A nova edição também reforça os aspectos de HQ ao utilizar transposições rotoscópicas em algumas sequências. Após tornar-se um influente objeto de culto durante os anos 1980, Warriors foi apresentado para uma nova geração, não apenas através de sua nova versão, mas também de um jogo concebido para Playstation 2.

Depois de trinta anos, o filme ainda demonstra ter força o suficiente para manter-se vivo no imaginário popular, e insones e cinéfilos de plantão ainda podem se deparar com ele em alguma inusitada sessão da madrugada. E Walter Hill ainda é um “bárbaro” na ativa, que invariavelmente continua nos presenteando com seus filmes “cruéis e feios”.

(versão revista e ampliada de artigo originalmente publicado em http://www.insolitamaquina.com)

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