Arquivo do mês: julho 2012

A VINGANÇA TEM GROOVE- COFFY!

“She had a body men would die for – and a lot of them did!”

Após sua irmã ficar gravemente incapacitada  devido ao vício em heroína, Coffy (Pam Grier), cansada de lidar com o descaso da justiça, decide buscar vingança infiltrando-se no submundo do crime. Coffy mergulha no universo sórdido do tráfico e da prostituição, abandonando a pacata vida de enfermeira para transformar-se numa vigilante implacável, eliminando sumariamente quem ela julga responsável pela destruição da única pessoa a quem amava. A situação se complica quando o seu plano de retaliação começa a afetar os negócios da máfia local, além de ameaçar expor o envolvimento de políticos e policiais com o tráfico de drogas.

A parceria entre o diretor Jack Hill e Pam Grier, que gerou quatro filmes entre 1971 e 1974, revelou-se uma combinação perfeita como fósforo e gasolina. Durante os anos 1970 poucos diretores souberam explorar com tanta perspicacia a versatilidade de Grier, uma atriz com mais talentos a oferecer do que apenas sua beleza e sensualidade petulante. Jack Hill tornou-se um mestre em conceber filmes baratos com rapidez e eficiência, qualidades aperfeiçoadas durante o período em que trabalhou diretamente com Roger Corman na AIP. A violenta trama de vingança de Coffy, uma produção modesta financiada pela American International Pictures no auge da onda dos filmes blaxploitation, tornou-se de imediato um sucesso popular. Numa época em que conflitos raciais ainda ecoavam pelos EUA, e os movimentos feministas clamavam por direitos, uma mulher negra e determinada fazendo justiça com as próprias mãos onde  o sistema falhara, assumia automaticamente tons políticos, por menos ideológica que fosse a verdadeira proposta do filme.

A única motivação real para Jack Hill era conseguir realizar bons filmes de ação com o dinheiro escasso que tinha em mãos, sendo hábil em burlar suas deficiências orçamentárias orquestrando cenas empolgantes com uma inventividade cruel. A seqüência de abertura, onde Pam Grier seduz um cafetão para em seguida explodir sua cabeça com um disparo de espingarda ainda causa impacto, e revela que estamos diante de uma personagem que ultrapassou todos os seus limites morais, e que levará seus atos até as últimas conseqüências. Num dos momentos mais memoráveis do filme, após ser provocada em uma festa por uma garota de programa, que lhe derruba uma bandeja de drinks sobre a cabeça, Coffy vai ao banheiro, se recompõe, recheia o seu cabelo black power com gilletes e retorna para iniciar uma briga homérica, onde esbofeteia, esmurra, chuta e nocauteia diversas adversárias, que no ato de tentarem lhe agarrar pelos cabelos acabam se ferindo severamente. Sid Haig, outro ator costumaz na obra de Hill, é o capanga estuprador Omar, mais um personagem sádico na sua extensa galeria de vilões. Através de Rob Zombie, Sid Haig voltaria a ficar em evidência para uma nova geração através do carismático psicopata Captain Spaulding de A Casa dos Mil Corpos (2003) e Rejeitados Pelo Diabo (2005).

Após o sucesso de Coffy,  Samuel Z. Arkoff, o famigerado produtor da American International Pictures, um especialista em filmes B, percebendo o potencial comercial da dupla investiu em outro projeto de Hill, e menos de um ano depois estreava nas telas Foxy Brown (1974), filme que consolidou a carreira de Grier e a transformou num ícone do cinema blaxploitation.  Em 1997  Quentin Tarantino prestou reverência ao trabalho de Jack Hill e ao cinema blaxploitation ao realizar Jackie Brown com Pam Grier no papel título.

Sobre este período Jack Hill desabafou,  “a indústria não tinha nada além de desprezo pelos filmes em que trabalhávamos. Havia muito racismo na industria, uma pequena porção estava apenas na superfície, mas havia. E os executivos dos estúdios realmente tinha desprezo pelo público para o qual estavam fazendo filmes. Foi uma grande batalha tentar fazer algo realmente bom“.

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MEMÓRIA FOTOGRAMA: FILME DEMÊNCIA

Exibição de Filme Demência na Sala PF Gastal em homenagem a Carlos Reichenbach 29/06/20012

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Arquivado em Cinema brasileiro, Cinema Nacional Porra!, Diretores, Drama

RAROS ESPECIAL DE SEXTA-FEIRA 13: PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS

Pavor na Cidade dos Zumbis

Nesta sexta-feira 13, às 20 h30,  o Projeto Raros da Sala P.F. Gastal (Usina do Gasômetro, 3° andar) apresenta o clássico gore oitentista Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura nella città dei morti viventi), do lendário diretor italiano Lucio Fulci. A sessão tem entrada franca e será comentada pelo jornalista Carlos Albornoz.

Na misteriosa cidade de Dunwich, um padre comete suicídio num antigo cemitério desencadeando uma profecia que culminará com a abertura dos sete portais do inferno. No mesmo instante em Nova Iorque, durante uma sessão mediúnica a jovem sensitiva Mary (Catriona MacColl) tem um colapso após ter visões de um futuro apocalíptico, onde os mortos retornam das regiões infernais para subjugar a terra. Auxiliada por Peter (Christopher George), um jornalista obstinado, Mary viaja para Dunwich na tentativa de evitar que a profecia se concretize.

À partir de Pavor na Cidade dos Zumbis o diretor Lucio Fulci romperia com a narrativa tradicional para elaborar uma trilogia (com a presença de MacColl) onde a razão seria sobrepujada pela lógica de um universo onírico macabro. Essa atmosfera de pesadelo, onde a narrativa formal é substituída por uma estrutura delirante seria complementada com os filmes A Casa do Além (L’Aldilà, 1981) e A Casa do Cemitério(Quella Villa Accanto Al Cimitero, 1981).

A imaginação é mais forte quando pressionada pelos horrores do inferno, declararia Fulci, um diretor acostumado a conduzir suas tramas orquestrando cenas impactantes onde o corpóreo e o metafísico coexistem gerando medo e estranheza em meio a absurdos banhos de sangue. Em Pavor na Cidade dos Zumbis o diretor extrapola o seu gosto por detalhes grotescos fornecendo ao espectador um festival de atrocidades amparado em um roteiro abstrato, repleto de situações que ilustram o seu descompromisso com a razão em prol do choque, numa recusa consciente das convenções formais da narrativa cinematográfica. No universo peculiar de Fulci é possível as pessoas agirem normalmente após uma insólita chuva de vermes, ou  uma garota vomitar os próprios intestinos, numa das cenas mais repugnantes do cinema gore dos anos 1980. A cena onde Giovanni Lombardo Radice, ator fetiche do cinema de horror italiano, tem sua cabeça transpassada por uma furadeira indústrial, e a seqüência onde Catriona MacColl é enterrada viva, auxiliam a justificar o fato de Fulci ser conhecido como o poeta da crueldade.

Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura nella città dei morti viventi, Itália – 1980, Cor, 93 minutos)

Diretor: Lucio Fulci.

Com: Catriona MacColl, Christopher George, Carlo De Mejo, Giovanni Lombardo Radice

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Arquivado em Fantástico, gore, Horror, Suspense

O CURTA NOVE E MEIA ESTRÉIA NO CINE BANCÁRIOS!

O curta metragem baseado no conto de Rubem Fonseca, “Nove e Meia”,  no qual eu tive o prazer de trabalhar como assistente de direção, em mais uma parceria com os amigos da Arquivo Morto, Filipe Ferreira e Ednei Pedroso, estréia no Cine Bancários na segunda-feira, dia 09 de julho! Apareçam!

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Arquivado em Cinema brasileiro, Cinema Nacional Porra!, Curta, Divulgação, Drama, Thriller

A SERBIAN FILM- O FIM DE UMA NOVELA PATÉTICA!

A Serbian Film liberado para exibição!

Após uma longa, patética, e surreal novela promovida de forma absurda pelos moralistas e censores de plantão, enfim A Serbian Film foi liberado para exibição em território nacional. O que estava em jogo não era a defesa das qualidades da obra, mas sim o seu direito como cidadão, garantido pela constituição,  de decidir se queria ou não assistir ao filme  sem a intromissão do estado. A censura prévia estava cerceando o nosso direito legal de assistir, gostar ou desgostar, e emitir opinião a respeito de uma obra de ficção. A proibição ao filme o transformou automaticamente numa das obras mais baixadas no Brasil nos últimos tempos. Um verdadeiro tiro no pé dos censores, pois o ato auxiliou a transformar um filme medíocre, que certamente não extrapolaria o circuíto do público  interessado em cinema de horror extremo, numa febre entre o público em geral. Abaixo à decisão liminar, publicada juntos aos autos do Ofício 48/2012/GAB/DG/DPF, de 24 de janeiro de 2012, subscrito pelo Dr. Leandro Daiello Coimbra, Diretor- Geral da Polícia Federal, endereçado ao Senhor Secretário Nacional de Justiça:

 

“Em atenção ao ofício da referência informamos que a obra audiovisual “A SERBIAN FILM – TERROR SEM LIMITES” não incorre em nenhuma modalidade criminal, uma vez que, as cenas contidas na película não revelam atividades sexuais explícitas (reais ou simuladas) ou a exibição de órgãos genitais das crianças que participam da referida obra, não ferindo a disciplina da Lei nº 8.069/90.”
Cumprido, portanto, o provimento liminar, nos exatos termos em que deferido e tendo a Administração, por um de seus órgãos competentes, a Polícia Federal, concluído pela inocorrência dos crimes tipificados na Lei nº 8.069/90- Estatuto da Criança e Adolescente, entendo que não há mais razões de natureza jurídica que impeçam a exibição do filme “ A Serbian Film” em todo o território nacional.
Uma palavra final: vi o filme. Do início ao fim. O filme é realmente muito forte. Verdadeiramente impactante. O enredo é crudelíssimo. Se é arte eu não sei. Pode ser para alguns, para outros não. O que sei, contudo, é que se estivesse no cinema teria me levantado e ido embora. No entanto, como juiz, não posso ser o seu censor no território nacional, como me diz a Constituição Federal. Aliás, o que me garante a Carta Constitucional – não apenas a mim, mas a todo brasileiro – é o direito de me indignar, de recusar a vê-lo ou até mesmo o direito de me levantar e deixar a sala de sessão, levando comigo as minhas conclusões e convicções acerca da natureza humana, suas dimensões, limites e idiossincrasias. Aprendi com o desassossegado Fernando Pessoa “Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura” (Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Cia das Letras, 2012, p. 82).
Fica, assim, desde já liberada a exibição do filme “A Serbian Film” no Brasil, como permite e autoriza a Constituição Federal.”

RICARDO MACHADO RABELO
Juiz Federal da 3ª Vara

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