Arquivo da categoria: Drama

13 ASSASSINOS: ENTRE A ICONOCLASTIA E A TRADIÇÃO

Encurralados, guerreiros exercitam a arte de morrer com honra

Em 13 Assassinos, encurralados, guerreiros exercitam a arte de morrer com honra

I

ESSÊNCIA ICONOCLASTA

Existe no cinema proposto por Takashi Miike uma evidente nota dissonante, uma semente de anarquia que, mesmo quando imperceptível a um primeiro olhar, desestrutura a composição geral; um elemento de estranheza que se infiltra e subverte as regras até mesmo da mais convencional das narrativas. No entanto, se a palavra convencional nunca foi apropriada para definir a sua obra, por vezes Miike se dedica a projetos aparentemente formais se comparados ao seu universo habitualmente caótico. E foi o que fez entre 2010 e 2011 quando aceitou dirigir a releitura de dois clássicos do cinema japonês, 13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku, 1963), originalmente dirigido por Eiichi Kudo, e Harakiri (Seppuku, 1962), de Masaki Kobayashi. Miike declarou certa vez que não faz regras para si, pois nunca teve estudo o suficiente para aprender a fazê-las. Declaração compreensível em se tratando de alguém forjado num universo culturalmente estéril e distante da cinefilia que costuma engendrar futuros diretores. A origem de Miike se encontra num bairro operário de Yao, nos arredores de Osaka, onde cresceu em meio a um lar conturbado e cercado por amigos que tinham como maior motivação de vida ingressar na Yakuza, a temível máfia japonesa. Sua paixão não era o cinema, algo que só viria a se interessar após a adolescência, mas o motociclismo. A fascinação pela velocidade o levou a tentar seguir uma frustrada carreira como piloto de corridas. “Eu nunca pensei em me tornar um diretor. Eu considerava a ocupação de diretor de cinema como sendo uma atividade para intelectuais”, afirmaria em uma entrevista, ostentando sua origem proletária. Porém, ao ingressar, a princípio de forma desinteressada em uma escola de cinema em Yokohama dirigida pelo renomado Shohei Imamura, a Yakuza perdeu um possível membro, às pistas de corrida um velocista, e o cinema japonês ganhou um realizador original, com uma queda pelo grotesco e pela transgressão. Suas investidas iniciais na direção já evidenciavam seu desdém pelas convenções da gramática cinematográfica, transformando simples filmes de encomenda para o mercado de vídeo japonês em delirantes exercícios estéticos e narrativos, e em ousadas provocações à rígida moral da sociedade japonesa. De certa forma o baixo orçamento investido lhe dava liberdade criativa, pois os produtores apenas se importavam com os prazos, pouco se intrometendo no resultado final desde que tivessem um produto para comercializar. Miike filmava incessantemente com velocidade e fúria, investindo, sempre com seu toque peculiar, nos mais variados gêneros. Independentemente do suporte que dispunha em mãos, seja produzindo em vídeo, película, ou para a TV, Miike chegou a dirigir mais de seis filmes por ano, o que lhe rendeu a memorável marca de mais de 90 filmes em 20 anos de carreira. A produção intensa naturalmente gerou obras irregulares, mas que foram seminais para a lapidação de sua persona cinematográfica, que começou a chamar a atenção do público internacional através do niilismo brutal de Fudoh: The New Generation (Gokudô: Sengokushi: Fudô, 1996). A caótica edição vista nos minutos iniciais de Morrer ou Viver (Dead or Alive: Hanzaisha, 1999), onde o espectador é bombardeado freneticamente por imagens desconexas envolvendo sexo, drogas e violência, a naturalidade com que transforma abruptamente um romance açucarado em uma trama repleta de horrores em Audition (Ôdishon, 1999), ou como destrói sem pudores os valores da família japonesa em Visitor Q (Bijitâ Q, 2001), constituem bons exemplos de sua deliberada iconoclastia, seja moral ou estética. Sempre indiferente ao gênero e as suas regras, realizou desde populares filmes de Yakuza, como Shinjuku Triad Society (Shinjuku kuroshakai: Chaina mafia sensô 1995) e Full Metal Yakuza (Full Metal Gokudô, 1997), até dramas sensíveis como The Bird People in China (Chûgoku no chôjin, 1998), além de inusitadas obras infantis, como A Grande Guerra Yokai (Yôkai Daisensô, 2005), e o recente Ninja Kids!!! (2011). E nem mesmo a sua descoberta pelo público ocidental, potencializada com o sucesso internacional de Audition (1999), e a possibilidade de alcançar uma platéia mais diversificada parece ter aplacado a sua propensão instintiva à quebra de paradigmas. Contratado para dirigir um dos segmentos da série televisiva norte americana Mestres do Horror, Miike chocou os produtores com o resultado final. Seu episódio Marcas do Terror (Imprint, 2006), acabou censurado pelo canal Showtime, não indo ao ar nos E.U.A devido a sua trama grotesca e a uma seqüência de tortura de extrema violência e degradação. Porém, se a subversão parece ser uma tendência natural para o seu cinema, Miike não se importa em também quebrar a expectativa de seu público, entregando silêncio quando todos aguardam histeria, ou sensibilidade invés da truculência. Ao crítico holandês Tom Mês, autor do livro Agitator: The Cinema of Takashi Miike, declararia: “Tenho a sensação de que as pessoas nos festivais internacionais esperam algo violento ou radical dos meus filmes, um tipo de entretenimento extremo (…). Mas não era meu objetivo fazer esse tipo de filme, eles são apenas o resultado da escolha da melhor maneira de se retratar algo”.

II

13 ASSASSINOS E O FLERTE COM A TRADIÇÃO

13-assassins-movie-image-03

  Sempre prolífico, em 2010 Miike produziu quase que simultaneamente novas adaptações para dois clássicos do cinema japonês dos anos 1960, 13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku), e  Hara-Kiri: A Morte de um Samurai (Ishimei), este último filmado em 3D e lançado em 2011. Embora tenha preferência por projetos originais, refilmagens não são nenhuma novidade em seu currículo, em 2002, por exemplo, realizou uma abordagem mais contemporânea do cultuado thriller Alugados Pelo Inferno (Jingi no hakaba, 1975), de Kinji Fukasaku. Curiosamente, apesar de filmado em 3D, Hara-Kiri: A Morte de um Samurai não utiliza as artimanhas fáceis do suporte, preocupando-se apenas em captar a profundidade de campo. Ou seja, o provocador Miike filma um drama em terceira dimensão sem usar os recursos mais óbvios desta técnica. Em comum, 13 Assassinos e Hara-Kiri: A Morte de um Samurai lidam com temas caros à cultura japonesa, honra, tradição e sacrifício. Ambos se passam no Japão feudal, dissertam sobre o rígido universo dos samurais, e suas tramas são deflagradas através do cometimento do seppuku (o suicídio ritual japonês). Miike optou por manter a estrutura narrativa clássica destas obras, e mergulhou com reverência no universo dos samurais, mantendo-se, ao menos na superfície, fiel ao material original. Porém, se narrativamente os filmes não se distanciam de seus antecessores, é no discurso referente às tradições que o texto revela ambigüidade. Na visão de Miike toda honra é questionável. A trama de 13 Assassinos ocorre durante a Era Koka (por volta dos anos 1840), quando o Japão, superado seus conflitos internos, passava por um período de paz, e muitos samurais encontravam-se desprovidos de utilidade, ganhando a vida como simples guarda-costas ou matadores de aluguel. No entanto o suicídio é o recurso extremo que um ancião do clã Akashi utiliza para alertar as autoridades sobre o vergonhoso comportamento do Lorde Naritsugu (Goro Inaki). Meio irmão do atual Xogum, Naritsugu protegido por sua estirpe real incorre impunemente em atos de crueldade, estuprando e matando com requintes de sadismo, tanto nobres como cidadãos comuns. Suas atitudes se tornam um escândalo, e sua ascensão política pode acabar com a paz no Império. A solução encontrada pelos clãs é planejar, sem o conhecimento do Xogum, a morte de Naritsugu. Um guerreiro aposentado chamado Shinzaemon (Kôji Yakusho) é escalado para executar o atentado, cabendo a ele a tarefa de arregimentar um pequeno grupo de samurais renegados dispostos a 13-assassins-2partir em uma missão suicida, motivados apenas pela honra de morrer pelo futuro do Império. O vilão concebido por Goro Inaki impressiona por sua composição niilista. Sua frieza e seu sadismo o colocam num lugar de honra na extensa galeria de personagens psicóticos que compõem a obra de Miike. O embate estratégico entre Shinzaemon e Hanbei (Masachika Ichimura), líder da guarda pessoal de Lorde Naritsugu, domina boa parte da trama. Desenvolve-se a partir do conflito entre estes dois velhos samurais fieis ao código de honra do Bushido, um verdadeiro jogo de enxadristas, onde um tenta antecipar o próximo passo do outro, culminando em uma batalha de proporções épicas que se estenderá de forma brutal durante os 40 minutos finais. É na crueldade do campo de batalha que Miike sente-se à vontade para exercitar a sua verve cruel; é onde as estratégias saem do papel para selar destinos, rasgando graficamente a carne do inimigo. O vilarejo-armadilha onde os 13 samurais emboscam o exército de Naritsugu transforma-se num inferno de sangue e fúria, onde no fim das contas revela-se a verdadeira natureza de cada homem em combate. A cultura secular japonesa do seppuku, mais conhecida popularmente por harakiri (palavra que significa cortar a barriga), é carregada de elementos tão complexos que motivações aparentemente insignificantes fogem a compreensão de nossos olhos ocidentais. Ao dissecar a cultura do suicídio, em seu estudo A Morte Voluntária no Japão, Maurice Pinguet escreveu: “Trata-se da honra de uma família, do sucesso de uma expedição, no máximo da tranqüilidade do Império- mas o movimento é o mesmo. O sacrifício enfim se interioriza e se depura em morte voluntária, toda a violência é reabsorvida na decisão de morrer, e a vitima, morrendo com seu pleno consentimento, não suscita tanto a piedade, mas a admiração e a gratidão”. Assim, neste período conturbado da história do Japão, onde a violência era uma ferramenta necessária, saber matar era uma obrigação, mas saber morrer com dignidade era uma arte para poucos, e Miike explora com sobriedade as motivações deste sacrifício voluntário, mas não sem inserir um elemento contestador. “Como o destino sorri para mim. Como samurai nessa era de paz, estive esperando por uma morte honrada”, diz Shinzaemon sentindo-se agraciado com a missão suicida, mas o contraponto deste pensamento surge na figura do último guerreiro a ser cooptado. Encontrado preso em uma armadilha nas montanhas, o caçador Koyata une-se ao grupo de assassinos, mas se revela um ser misterioso, ambíguo, seria ele um demônio da floresta? Um mítico Youkai? Pois é Koyata o elemento desestabilizador que zomba da honra dos samurais, da sua arrogância e seriedade, de seu compromisso com as tradições. Koyata é a voz subversiva de Miike infiltrando-se na narrativa, questionando valores, debochando das inúteis formalidades, que no fim das contas apodrecem com os cadáveres no campo de batalha. E é no destino surreal deste personagem que o diretor deixa emergir naturalmente a sua pré-disposição em romper com as convenções. É também na exploração gráfica da violência que Miike desequilibra as sutilezas da narrativa, não poupando o espectador dos detalhes mórbidos dos crimes cometidos por Naritsugu, como a exibição da garota nua, que com seus membros decepados e língua extirpada, torna-se prisioneira de seu próprio corpo, sufocando em sua agonia.s crimes de a narrativa clrmal e Em 13 Assassinos Miike vai de encontro a um universo consolidado no cinema por realizadores como Kobayashi, Okamoto e Kurosawa, que através de Os 7 Samurais (Shichinin No Samurai, 1954) tornou canônica a fórmula onde figuras marginais são recrutadas para empreender uma missão suicida, modelo que refletiu em obras além do oriente, como na refilmagem americana Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, 1960), de John Sturges, na composição de Os 12 Condenados (The Dirty Dozen, 1967), de Robert Aldrich, e tantos outros. Os samurais sobrevivem no imaginário popular graças principalmente a imagem que cinema construiu deles, e Miike flerta com essa tradição, reverenciando e questionando noções de sacrifício e honra, porém, seu espírito anárquico continua correndo velozmente sob a epiderme, indo ao encontro da amarga conclusão de Pinguet: “A morte voluntária foi o coração sombrio imutável e dilacerado da ética guerreira”.

(artigo publicado originalmente na revista Teorema- Crítica de Cinema, número 21, dezembro de 2012)

1 comentário

Arquivado em Ação, Drama, martial arts, Thriller

R.I.P- KOJI WAKAMATSU (1936-2012)

Koji Wakamatsu (1936-2012)

Violated Angels (Okasareta hakui / 1967)

Ecstasy of the Angels (Tenshi no Kôkotsu / 1972)

Gewalt! Gewalt shojo geba-geba (1969)

Go Go Second Time Virgin (Yuke yuke nidome no shojo / 1969)

Deixe um comentário

Arquivado em Diretores, Drama, Erótico, Experimental, exploitation, humor negro, R.I.P

MEMÓRIA FOTOGRAMA: FILME DEMÊNCIA

Exibição de Filme Demência na Sala PF Gastal em homenagem a Carlos Reichenbach 29/06/20012

Deixe um comentário

Arquivado em Cinema brasileiro, Cinema Nacional Porra!, Diretores, Drama

O CURTA NOVE E MEIA ESTRÉIA NO CINE BANCÁRIOS!

O curta metragem baseado no conto de Rubem Fonseca, “Nove e Meia”,  no qual eu tive o prazer de trabalhar como assistente de direção, em mais uma parceria com os amigos da Arquivo Morto, Filipe Ferreira e Ednei Pedroso, estréia no Cine Bancários na segunda-feira, dia 09 de julho! Apareçam!

Deixe um comentário

Arquivado em Cinema brasileiro, Cinema Nacional Porra!, Curta, Divulgação, Drama, Thriller

FROST/NIXON

Em 1974, após o escândalo Watergate, e o humilhante fracasso da intervenção militar no Vietnam, o presidente Richard Nixon renunciou a presidência dos E.U.A, e durante três anos manteve silêncio sobre o caso. Nenhuma emissora de TV, nenhum jornalista político de renome, nenhum adversário político conseguiu qualquer manifestação de Nixon sobre os fatos que levaram a sua derrocada. O ex-presidente se manteve firme em suas convicções de que não devia nenhum esclarecimento ao povo americano sobre o mar de corrupção, os abusos de poder, e a utilização de escutas ilegais, que foram recurso freqüente em seu governo.

Em 1977, para surpresa geral, Nixon aceitou conceder uma entrevista para David Frost, um desacreditado showman inglês, mais conhecido por seus programas sensacionalistas e pela sua fama de playboy. Frost vê nesta entrevista a possibilidade de conseguir credibilidade no mercado de entretenimento americano, enquanto Nixon enxerga uma oportunidade de recuperar a simpatia dos americanos e se reerguer politicamente. O resultado deste embate entrou para a história do jornalismo político, porém, foram os bastidores deste confronto que forneceram o material mais contundente para se compreender não apenas as engrenagens da política americana, mas principalmente os jogos de poder e as forças estranhas que movimentam a mídia.

A caracterização de Frank Langella como o falecido presidente Richard Nixon, não apenas impressiona, é quase uma possessão espírita, sua atuação ultrapassa a simples reprodução de trejeitos, vai além da caricatura, e se apóia em pequenas nuanças e contradições de caráter, apostando mais na sutileza do que no habitual exagero com que Nixon é costumeiramente retratado. A interpretação de Anthony Hopkins, que optou por um nariz falso, em “Nixon” (1995) de Oliver Stone, é um bom exemplo da tendência da figura do ex-presidente assumir aspectos cartunescos. E ao contrário de Oliver Stone, a direção de Ron Howard também prezou pela sutileza, e optou em centrar a ação nos conflitos éticos e pessoais das personagens, deixando de lado a simples diatribe política.

Frank Langella e Michael Sheen repetem na tela os papéis que haviam interpretado nos palcos, o que talvez explique a intimidade e a força que impõem aos seus personagens. Em2007 apeça rendeu a Langella o prêmio Tony de melhor ator, além da indicação de melhor ator no Oscar 2009, uma das 5 indicações que o filme recebeu. A adaptação do roteiro para as telas foi realizada pelo próprio dramaturgo, Peter Morgan, que soube equilibrar a origem teatral da história, conseguindo tornar empolgante um conflito em que basicamente duas pessoas confrontam suas idéias sentadas diante de uma câmera. O ping pong entre entrevistador e entrevistado adquire aos poucos um sentido mais amplo, uma batalha em que convicções políticas, ideais, e vaidades são o menos importante, o que realmente está em jogo é a verdade, e ambos sabem que ela pertencerá àquele que melhor se apropriar dos fatos.

 

(O vergonhoso silêncio imposto pela grande mídia com relação ao livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro JR, me instigou a republicar este artigo, escrito em 2009 quando do lançamento de Frost/Nixon nos cinemas brasileiros. Apesar das escabrosas evidências de mais um legítimo “Watergate” brasileiro, boa parte da imprensa, invés de fazer o seu papel, parece estar agindo feitos os três macacos da famigerada fábula chinesa, tapando os olhos, os ouvidos e a boca.)

2 Comentários

Arquivado em Drama

PROJETO RAROS APRESENTA FILME INSPIRADO NA OBRA DE CHARLES BUKOWSKI

 

O projeto Raros da Sala P. F. Gastal (Usina do Gasômetro, 3º andar) exibe nesta sexta-feira, 04 de novembro, às 20 horas,  o filme belga Crazy Love, baseado na obra do escritor maldito Charles Bukowski. Realizado em 1987, Crazy Love é o primeiro longa do diretor belga Dominique Deruddere, mais conhecido do grande público por sua indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2001 por Fama Para Todos. Inspirado em diversos contos de Bukowski, sendo mais evidente a transposição de A Sereia que Copulava em Veneza, Califórnia, do livro Crônica de Um Amor Louco, a trama acompanha três momentos distintos na vida do trágico e patético personagem Harry Voss, e sua incessante busca por amor e aceitação, passando por sua adolescência conturbada, até focar o retrato cruel de um homem amargo e solitário. Crazy Love é considerada uma das mais fiéis adaptações do universo de desesperança e degradação concebido por Bukowski.
  ENTRADA FRANCA

Crazy Love, de Dominique Deruddere (Bélgica, 1987). Duração: 90 minutos.

“Projeto Raros: Filmes que você sempre quis ver ou nem imaginava que existiam”.

Deixe um comentário

Arquivado em Drama, Literatura, Mostras

NOVE E MEIA- PRIMEIRO TEASER

Saiu o primeiro teaser do curta “Nove e Meia”, produção da Arquivo Morto baseada em conto de Rubem Fonseca, dirigida pelo Filipe Ferreira, na qual fui assistente de direção.  Confiram, e aguardem novidades sobre o lançamento em 2012.

Deixe um comentário

Arquivado em Drama, Teaser, Thriller, Trailer

CRIANÇAS SÃO MONSTROS, OU MONSTROS SÃO CRIANÇAS?

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.”

(Augusto dos Anjos)

A infância certamente é uma fascinante época de descobertas e deslumbramentos, mas ao contrário do que as campanhas de marketing insistem em nos vender sempre que o mês de outubro se aproxima, nem tudo são flores e maravilhas neste período da vida. Se o cinema foi pródigo em propagar a infância como uma fase onde impera o lúdico, também foi hábil em retratá-la como uma época sombria, onde traumas são gerados, pesadelos tomam formas concretas, horrores se consolidam além da imaginação e pequenos monstros são engendrados. E é este tétrico universo infantil, de maldade inata e inocência corrompida que mais desperta meu interesse.  Porém, como sentenciou Henry James, “ninguém nunca saberá se crianças são monstros, ou monstros são crianças”.

A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1960), de Wolf Rilla

¿Quién puede matar a un niño (1976), de Narciso Ibáñez Serrador

A Inocente Face do Terror (The Other,1972), de Robert Mulligan

Cría Cuervos (1976), de Carlos Saura

Os Inocentes (The Innocents, 1961), de Jack Clayton

The Child, de Robert Voskanian (1977)

Filhos do Medo (The Brood,1979), de David Cronenberg

Kill, Baby, Kill, de Mario Bava (Operazione Paura,1966)

O Reflexo do Mal (The Reflecting Skin, 1990), de Philip Ridley

A Tara Maldita (The Bad Seed, 1956), de Mervyn Leroy

A Profecia (The Omen,1976), de Richard Donner

O Exorcista (The Exorcist, 1973), de Willian Friedkin

Terror nas Trevas (L'Aldilà, 1981), de Lucio Fulci

Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984), de Fritz Kiersch

Cemitério Maldito (Pet Cemetery, 1989), de Mary Lambert

Joshua- O Filho do Mal (Joshua, 2007), de George Ratliff

kick Ass- Quebrando Tudo, (Kick Ass,2010)de Matthew Vaughn

The Children (2008), de Tom Shankland

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008), de Tomas Alfredson

A Fita Branca (Das weisse Band, 2009), de Michael Haneke

6 Comentários

Arquivado em Ação, Drama, exploitation, gore, Horror, humor negro, Sci-fi, Suspense

OLIVER TWIST: DICKENS SOB O OLHAR DE POLANSKI

A infância pobre do diretor Roman Polanski, e as suas desventuras nos guetos de Varsóvia durante a segunda guerra mundial, amenizam a estranheza inicial de ver seu nome relacionado a uma obra como “Oliver Twist”. A evocação de sua própria infância talvez tenha sido um fator decisivo em sua opção por embarcar em um projeto tão dissonante de seu universo cinematográfico, e já vertido para as telas inúmeras vezes, sendo a lacrimosa versão de 1948, dirigida por David Lean e com Alec Guinnes no elenco, a mais aclamada.

Mas ao contrário do que se poderia esperar, a sua visão da clássica obra de Charles Dickens não sofre arroubos de criatividade ou tendências ostensivamente sombrias, mantendo-se fiel ao romance escrito em 1837. O jovem órfão Oliver Twist (Barney Clark) sofre com a fome, a indiferença e a rígida educação da Inglaterra Vitoriana. Submetido a um trabalho de semi-escravidão em uma fábrica de estopas, ele é expulso por ousar pedir um prato de comida além de sua cota. Entregue a um coveiro, ele é submetido a diversas humilhações, até que decide fugir para Londres, onde é acolhido por Fagin (Ben Kingsley) e sua turma de pequenos ladrões. O inocente Oliver é incitado a cometer pequenos furtos, mas antes de envolver-se definitivamente com o crime, cai nas graças de Mr. Brownlow (Edward Hardwicke), um benfeitor que o ampara, dedicando-lhe confiança e educação. Porém, o crime insiste em estar presente na vida de Oliver, pois temendo ser denunciado, Fagin resolve silenciar definitivamente o garoto, recorrendo aos serviços do temido marginal Bill Sykes (Jamie Foreman). Assim, novamente Oliver terá de enfrentar grandes provações que ameaçarão seus planos de uma vida instável.

A primorosa reconstituição da Londres vitoriana vista através das lentes de Pawel Edelman, realçam o perfeccionismo técnico que envolve toda a produção. Se ao escrever o romance no século XIX, Charles Dickens queria denunciar a pobreza, varrida para debaixo do tapete pelos nobres ingleses, esse fato foi captado com sensibilidade por Polanski, que nos faz passear por ruas e becos imundos, repletos de pessoas famintas e desesperadas. Ben Kingsley, no papel do patético larápio Fagin, é um dos alicerces fortes do filme, com uma interpretação carismática, no limite do caricatural, que consegue nos provocar sentimentos ambíguos, que vão da raiva à comiseração. A trama, por mais que inspire lágrimas, consegue fugir da pieguice habitual do gênero, mas tem como ponto fraco justamente o seu personagem central. O garoto Barney Clark nos apresenta um Oliver Twist irritantemente passivo, e sem o carisma necessário para sustentar um personagem de tamanha carga emocional, sendo apagado pelas interpretações mais do que corretas dos coadjuvantes, com destaque para a jovem ladra Nancy (Leanne Rowe), que ao entrar em cena exibindo seios fartos e ares vulgares de prostituta mirim, nos faz lembrar que ainda estamos diante de um filme de Polanski.

Em alguns momentos “Oliver Twist” sofre com o desempenho irregular de seu personagem título, mas é uma falha menor que não consegue embaçar as qualidades desta obra de apelo universal, repleta de dor, sofrimento e redenção, em que o próprio diretor teve direito a exorcizar alguns de seus demônios.

Deixe um comentário

Arquivado em Drama, Literatura

GRAN TORINO

Aos 81 anos Clint Eastwood é um dos últimos remanescentes de uma geração que honrou a tradição de cineastas como Don Siegel e Samuel Fuller, praticando um cinema sóbrio, sem afetações estéticas, em que o papel da técnica é o de funcionar em prol da narrativa. Em Gran Torino, Eastwood continua fiel aos aspectos fílmicos que constituíram sua obra, e ciente de sua condição crepuscular, desenvolve um personagem que reflete elementos de sua própria trajetória como ator e diretor; a redenção de um homem rude, no limiar de sua existência, apegado a valores ultrapassados, que começa a questionar o seu olhar perante o mundo que o cerca.

Eastwood interpreta Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia que não se envergonha de ostentar opiniões racistas, valores arcaicos e um mau humor crônico que o torna uma figura quase caricatural em sua amargura. Suas ações o fazem beirar a comicidade, e todos que o cercam são vítimas constantes do seu sarcasmo e de suas grosserias; os filhos ausentes, o padre do bairro, e principalmente os vizinhos asiáticos. Walt Kowalski é um cara durão, forjado nos campos de batalha e em 50 anos de trabalho na linha de montagem de uma fábrica de automóveis. Em uma vida de lutas, não lhe sobrou tempo para amenidades ou delicadezas, e lhe faltou sensibilidade para perceber que o mundo ao seu redor estava mudando. Seu bairro, antes um típico condomínio de trabalhadores da indústria automotiva que perseguiam o american dream, agora é um decadente reduto de imigrantes asiáticos da etnia Hmong, que tentam sobreviver em meio à violência das gangues e a falta de perspectiva de um futuro melhor. Desnorteado com a recente morte da esposa, e vendo ruir tudo aquilo em que um dia acreditou, Walt passa seus derradeiros dias bebendo cerveja, lavando, encerando e exibindo em frente a sua casa um automóvel Gran Torino 1972.

O Gran Torino que dá nome ao filme é o orgulho de Walt, e o estandarte daquilo que restou de seus valores, um símbolo de sua enferrujada crença no american way of life. Quando Thao (Bee Vang), o vizinho vietnamita tenta roubar o automóvel, aos poucos eles acabam desenvolvendo um estranho vínculo de amizade, onde o velho rabugento aos poucos percebe sua triste condição de ser anacrônico; uma criatura estranha num mundo que há tempos deixou de compreender. Walt começa, mesmo sem perder a dureza de seu caráter, a aprender a conviver com as diferenças, mas as ameaças de uma gangue à família de Thao fazem com que ele recarregue seu velho fuzil, e tente, a sua maneira restabelecer a ordem na vizinhança.

Habituado a encarnar nas telas homens durões e justiceiros implacáveis, o Walt Kowalski de Eastwood é um acerto de contas com sua persona cinematográfica, equivalente ao que John Wayne fez ao realizar com Don Siegel em 1976 O Último Pistoleiro. O simples gesto de apontar o dedo indicador para alguém, e disparar como se fosse uma arma, através de Eastwood adquire um significado que ultrapassa o próprio mito. A força de “Gran Torino” está em sua simplicidade, na honestidade de sua trama, e na coragem de Eastwood em desmistificar a figura do herói durão que ajudou a criar em seus mais de 50 anos de cinema, provando que a valentia de um homem pode ser medida, não pela pilha de corpos que deixa pelo chão, mas em quantas vidas pode salvar com seu próprio sacrifício.

 

1 comentário

Arquivado em Drama, Thriller