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A VINGANÇA DOS FILMES B- PARTE 3

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Foto do Cartaz: Priscila Poletti e Diego Bertoldi
Arte final: Marcelo Lim

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02/12/2013 · 1:30

A VINGANÇA DOS FILMES B-PARTE 3

A VINGANÇA DOS FILMES B- PARTE 3

“A vingança nunca é plena…mas pode ser divertida”

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 De 13 a 15 de dezembro a Sala P.F.Gastal (3° andar da Usina do Gasômetro) sedia a terceira edição da mostra A Vingança dos Filmes B. Concebida em 2011 para servir de vitrine para produções que flertam com o cinema de gênero, a mostra chega ao seu terceiro ano consecutivo se consolidando como um território destinado a divulgação e ao resgate de filmes independentes, produções de baixo orçamento e outros delírios fílmicos, buscando incentivar o público a dialogar com obras que dificilmente encontram espaço nas telas dos cinemas comerciais. Filmes repletos de horror, ação, anarquia, humor e demência, ocupando um mesmo espaço sem restrições quanto ao seu orçamento ou suporte de realização.

O filme de abertura desta edição será o documentário Desagradável, produção que retrata a conturbada trajetória da mítica banda carioca Gangrena Gasosa e sua explosiva mistura de macumba, irreverência e heavy metal. A banda criou o conceito de saravá metal lançando  álbuns agressivos e iconoclastas como Welcome to Terreiro (1993) e Smells Like Tenda Spirita (2000). O diretor paulista Fernando Rick estará presente na mostra para realizar um debate após a sessão.

Fernando Rick tem se destacado entre os realizadores independentes paulistas, sendo também responsável pelo documentário “Guidable: A Verdadeira História do Ratos de Porão”, pelo premiado curta “Ivan”, e pelo violento e polêmico “Coleção de Humanos Mortos”.

Três longa-metragens presentes na mostra ajudam a fortalecer e ampliar as possibilidade de se realizar cinema de horror no Brasil, “Mar Negro”, de Rodrigo Aragão, “Nervo Craniano Zero”, de Paulo Biscaia e “Zombio 2- Chimarrão Zombies”, de Petter Baiestorf.

A Sessão Shot or Die apresenta três produções realizadas com pouco, ou nenhum dinheiro, tendo como incentivo apenas a paixão pelo cinema. Obras com orçamento limitado e criatividade de sobra.

A sessão Malditos Curtas reúne obras de diversos estados brasileiros, constituindo um mosaico representativo da atual produção de cinema de gênero no país. Jovens realizadores investindo em filmes de ação, horror, suspense e ficção científica, injetando sangue novo nas veias do cinema brasileiro.

E por fim, a Sessão Sala Especial é dedicada ao grupo de anárquicos comediantes capixabas da TV QUASE. Unidos por Gabriel Labanca (falecido prococemente aos 30 anos, em 2012) a trupe formada pelos dementes Daniel Furlan, Juliano Enrico, Raul Chequer e Klaus Berg, iniciou a mais de 10 anos o projeto de humor multimidia QUASE. O projeto que começou como uma revista em quadrinhos migrou para o youtube, e agora começa a semear seu humor nonsense e sua insolência também na tv aberta. A sessão exibirá além do curta Loja de Inconveniências: A Maldição do Caipora, diversos sketches e a homenagem Labanca Eterno.  E para melhor compreender o que é a QUASE, uma definição do próprio grupo: “Ilogia, delírios, blasfêmia, alucinações, inadequação afetiva, piru, negligência social, devaneio permanente, incoerência, travestismo, cocô, agressividade, mau humor e quadrinhos”.

Sejam bem vindos à Vingança dos Filmes B- Parte 3

(Cristian Verardi- organizador)

APOIO: The Raven / Dirty Old Man / Secretária Municipal de Cultura de Porto Alegre / SalaP.F.Gastal
GRADE DE PROGRAMAÇÃO

 Longas:

Desagradável (2013 / 120 minutos), de Fernando Rick / A banda Gangrena Gasosa tornou-se um mito do underground carioca com a sua inusitada mistura de heavy metal com elementos de umbanda. O documentário aborda a anarquica trajetória da banda em seus 20 anos de existência. Uma história repleta de confusões, estranhas maldições e muito “saravá metal”. (Após a sessão debate com o diretor Fernando Rick)

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Mar Negro (2013 / 100 minutos), de Rodrigo Aragão. Com: Walderrama dos Santos, Mayra Alarcon, Cristian Verardi  / Após se depararem com uma estranha criatura marítima, dois incautos pescadores levam sem saber a morte e a destruição para uma pequena vila à beira mar. Zumbis, demônios, e criaturas mutantes orquestram um dantesco banho de sangue e vísceras. Alucinante desfecho da trilogia iniciada por Rodrigo Aragão em 2008 com “Mangue Negro” (2008), e seguida por “A Noite do Chupacabras” (2011).  Selecionado para festivais como: SITGES Film Festival (Esp) / Morbido (Mex) / Montevideo Fantastico (Ury) / Festival do Rio 2013 (Bra) / Rojo Sangre (Arg)

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Zombio 2- Chimarrão Zombies (2013 / 83 minutos), de Petter Baiestorf. Com: Airton Bratz, Coffin Souza, Gisele Ferran, Gircius Gewdner / Uma pequena comunidade interiorana sofre uma estranha epidemia após consumirem a erva-mate Cronenberg. Um grupo tenta sobreviver em meio ao caos provocado pela invasão de mortos-vivos e outros seres raivosos. Irreverente mistura de horror, humor e sexploitation nesta sequência direta de Zombio (1999), do cultuado diretor independente Petter Baiestorf. (Censura 18 anos). Selecionado para festivais como: SITGES Film Festival (ESp) /  Montevideo Fantastico (Ury)

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Nervo Craniano Zero (2012 / 88 minutos), de Paulo Biscaia. Com: Guenia Lemos, Uyara Torrente, Leandro Daniel Colombo / Uma escritora ambiciosa e um neurocirurgião obcecado utilizam uma ingênua garota como cobaia em um experimento perigoso. Um chip é instalado em seu cérebro afetando o “nervo craniano zero”, o resultado da experiência foge ao controle, gerando consequências nefastas. Prêmio de melhor direção no New Orleans Horror Film Festival 2012 (EUA) / Melhores efeitos de FX no Thriller Chiller Festival 2012 (EUA)

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Curtas:

Distúrbios, Palavrões e Batidas de Carro (2013 / 38 minutos), de Cláudio Guidugli / Jovem apaixonado por prostituta planeja uma ação para assassinar o próprio pai, mas assaltantes desastrados, um psicopata estuprador e um homem com um acesso de fúria após um acidente de carro, transformam o crime perfeito num desastre sanguinolento. Ação, humor negro e drama familiar numa produção independente filmada na pequena cidade de Roca Sales (RS) com orçamento zero, utilizando apenas uma câmera cybershot e muita criatividade.
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You Bitch Die
(2009 / 3 minutos), de Lucas Sá / Traição, vingança e morte. Ela traiu o homem errado, e agora vai pagar com o próprio sangue!

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Filmes São Seus Amigos (2 minutos), de Gurcius Gewdner: Com Raissa Vitral: O diretor independente Gurcius Gewdner faz um procunciamento importante: Filmes são seus amigos!
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A História de Lia (2010 / 13 minutos), de Rubens Mello / Lia é uma adolescente que vive num lar doentio e violento. Para fugir de sua cruel realidade ela se envolve com um grupo de jovens marginais. Porém, uma tragédia é desencadeada quando ela é possuída por sua amiga invisível.

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Rise Weirdo Army (2012 / 4 minutos), de Francis K / Monstros gigantes, kung fu e rock’n’roll, no melhor estilo Damn Laser Vampires.

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Catalogárgula (2013 / 5 minutos), de Lucas Neris / Hélio é um homem peculiar que tira fotos de tudo à sua volta, dando uma conotação própria e estranha aos objetos que o cercam.

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Belphegor (2013 / 6 minutos), de Ricardo Ghiorzi / Nem mesmo a santidade está a salvo diante da presença do mal.

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Tate Parade (2012 / 10 minutos), de Marja Calafange / Sharon Tate volta do além para vingar sua morte e salvar o seu bebê. Uma vingança com sabor de melância.

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O Membro Decaído (2012 / 18 minutos), de Lucas Sá / Um homem vaga a esmo. O destino lhe reserva um caminho de sangue.

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Encosto (2013 / 7 minutos), de Joel Caetano / Um ritual de magia negra não ocorre com o esperado. Qual o preço a pagar pelos seus desejos?

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O Matador de Bagé (2013 / 15 minutos), de Felipe Iesbick / Assis. Matador Profissional. Quinze anos consecutivos o número um de Porto Alegre. Até a chegada de Assunção. (Prêmio de melhor curta da Mostra Gaúcha do Festival de Gramado)

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Estrela Radiante (2013 / 25 minutos), de Fabiana Servilha / Após encontrar um estranho objeto caído dos céus, um homem tem a sua vida modificada quando começa a sofrer estranhas mutações.

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 Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre (1998 / 15 minutos ), de Rogério Brasil Ferrari / Um casal portoalegrense com um gosto peculiar pelos prazeres da carne.  Sexo, gastronomia e assassinato num clássico do cinema gore gaúcho.

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Sessão Sala Especial: TV Quase: Loja de Inconveniências: A Maldição do Caipora (2013), de Juliano Enrico /   Jairo só queria entrar em qualquer loja para comprar cigarros. Mas esta não é qualquer loja. E Seu Argemiro é qualquer coisa, menos qualquer vendedor. Aqui ele tenta convencer Jairo a fumar menos, além de alertá-lo para a perigosa criatura que espreita nas profundezas da floresta. (curta seguido de sketches da trupe de comediantes da TV Quase e homenagem póstuma ao humorista Gabriel Labanca). Total: 60 minutos.

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 GRADE DE HORÁRIOS

 13 de Dezembro

20h- Encosto (7’) + Desagradável (120’). Total: 127 minutos (Após a sessão debate com o diretor Fernando Rick)

 14 de Dezembro

15h- Sessão Maldita Matinê I- Filmes São Seus Amigos (2’) + Zombio 2- Chimarrão Zombies (88’). Total: 90 minutos

 17h- Sessão Shot or Die: You Bitch Die (3’ + História de Lia (13’) + Distúrbios, Palavrões e Batidas de Carro (38’). Total: 54 minutos

 20h- Sessão Malditos Curtas: Rise, Weirdo Army (4’) + Catalogárgula (5’) + Belphegor (6’) + Tate Parade (10’) + O Membro Decaído (18’) + O Matador de Bagé (15’) + Estrela Radiante (25’) + Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre (15’). Total: 98 minutos. (Após a sessão debate com os realizadores)

 15 de Dezembro

15h- Sessão Sala Especial: TV Quase: Loja de Inconveniências: A Maldição do Caipora + sketches + Homenagem a Gabriel Labanca) (60’)

17h- Sessão Maldita Matinê II – Nervo Craniano Zero (88’)

 19h- Mar Negro (100’)

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PROJETO RAROS APRESENTA O MONSTRO NORTE- COREANO!

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Nesta sexta-feira (23 de agosto), às 20h, o Projeto Raros da Sala P.F. Gastal (3º andar da Usina do Gasômetro) exibe o filme norte-coreano Pulgasari (1985), de Shin Sang-ok, cineasta sul-coreano sequestrado por agentes do país vizinho a mando de Kim Jong-il, filho do então presidente Kim Il-sung. O filme será exibido em DVD com legendas em espanhol.

O desejo de construir uma indústria cinematográfica na Coréia do Norte, somado a uma notável cinefilia, levou Kim Jong-il a orquestrar no final dos anos 1970 o rapto do cineasta, apelidado de “príncipe do cinema sul-coreano”. Shin Sang-ok é considerado um dos nomes mais importantes da chamada era de ouro do cinema de seu país, realizando e produzindo centenas de filmes durante os anos 1950 e 1960.

Baseado em uma lenda do século XIV, Pulgasari é o filme mais famoso dos sete que o cineasta realizou na Coréia do Norte com a produção executiva de Kim Jong-il. Na Coréia feudal, durante a dinastia Goryeo, um rei controla a terra com mãos de ferro, sujeitando os camponeses à miséria. Quando uma pequena criatura de arroz, criada por um velho ferreiro, ganha vida ao entrar em contato com o sangue de uma jovem, um monstro aparece para enfrentar as tropas do rei e defender os ideais do povo. Não apenas uma peça de propaganda política, Pulgasari também remonta aos filmes kaiju, gênero japonês de filmes de monstro, cujo título mais célebre é Godzilla (1954), de Ishiro Honda.

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Kim Jong-il coordenando as filmagens de Pulgasari

Projeto Raros. Dia 23 de agosto às 20:00

Pulgasari (Pulgasari), de Shin Sang-ok (Coréia do Norte, 1985, 95 minutos)

Com Chang Son Hui, Ham Gi Sop, Jong-uk Ri e Gwon Ri

O filme será exibido em DVD com legendas em espanhol

Entrada franca

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PREPAREM-SE PARA O MAR NEGRO

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“Mar Negro”, de Rodrigo Aragão, abrirá o FANTASPOA 2013 nesta sexta-feira (03 de maio)  às 19 e às 21h15, no CIneBancários (Rua General Câmara, 424 – Centro). “Mar Negro” não é apenas a consolidação de Aragão como um dos mais notórios realizadores independentes do país, mas também a concretização de uma meta para os fãs de horror que sonham com a proliferação do gênero fantástico no cinema brasileiro. Está é segunda parceria minha com Aragão, que me presenteou com um grande desafio, interpretar uma personagem tão complexa e bizarra quanto a que me foi destinada em “A Noite do Chupacabras”. Espero todos vocês para se divertirem e se aterrorizarem com o mar de sangue e demência que preparamos com tanto carinho!

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DEMÔNIOS E MARAVILHAS- UM BREVE PANORAMA INFERNAL NO CINEMA

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Haxan- A Feitiçaria Através dos Tempos (1922)

          I

Lúcifer, o Anjo Caído, o grande adversário do Criador e de sua criação, o

homem, é uma das figuras mais emblemáticas da cultura judaico-cristã. O anjo

que desafiou Deus, e foi banido do paraíso celeste por sua ousadia, travando

desde então uma batalha pela alma humana, tem sido uma metáfora milenar

para ilustrar e expiar os males que assombram a humanidade.

Com a ascensão do cristianismo, sincretismos religiosos e outras formas

de assimilação cultural acabaram gerando inúmeros nomes e formas para

designar as múltiplas facetas desta criatura mítica que representa o contra

peso da balança na eterna dualidade entre o bem e o mal. Lúcifer, Satanás,

Belzebu, Mefistófeles, Pazuzu, seja qual for a nomenclatura utilizada, é o termo

grego “daemon” (δαίμων), que origina a sua designação genérica mais comum,

Demônio. Da serpente que seduz Eva no Genesis, passando pelo dragão do

Apocalipse e das lendas medievais até a figura popular do homem com chifres

e cascos no lugar dos pés, esta entidade maléfica ultrapassa os limites do

contexto bíblico e dos delirantes sermões admoestatórios sobre os tormentos

do inferno, para fazer parte de uma mitologia universal, gerando uma fonte de

inspiração inesgotável para reflexões artísticas sobre a natureza humana.

O cinema em seus primórdios, assim como ocorreu com a pintura, a fotografia

e outras formas de arte, também foi considerado por muitos uma ferramenta

diabólica. Religiosos alertavam os fiéis sobre a ilusão demoníaca e a

permissividade moral da nova invenção, como lembra Jean-Claude Carrière

em seu ensaio “A Linguagem Secreta do Cinema”, espectadores muçulmanos

fechavam seus olhos diante da tela, pois “uma antiga e severa tradição proibia-

os de representar a forma e a face humanas, criações de Deus”. A imitação do

mundo era, portanto, obra do Demônio.

Pois o cinema parecia realmente uma ferramenta ideal para a ação do mítico

mestre da mentira e da ilusão, e não tardou para que ele desse as caras

na nova invenção, que assombrava e seduzia o público no final do século

XIX. O pioneiro cineasta francês Georges Méliès (1861-1938), foi um dos

Le Diable au Convent

Le Diable au Convent

precursores ao utilizar a figura do Demônio em suas produções. Diabos de

traços picarescos, herança das sátiras medievais, infestavam suas produções,

como Le Diable au Convent (1899), Le Cake Walk Infernal (1903) e Le

Chaudron Infernal (1903). Amparado por trucagens visuais nunca antes

vistas pelo público, Méliès, segundo Jean Tulard, “rompeu com o aborrecido

cinema-verdade de Lumière, criando o cinema-espetáculo”. Ao fornecer ao

público, demônios e maravilhas, além de uma fascinante viagem à lua, o

experimentalismo de Méliès auxiliou a conceber a linguagem cinematográfica

que hoje conhecemos.

Outros pioneiros do cinema se aventuraram na exploração de figuras

diabólicas, como o americano D.W. Griffith, com The Devil (EUA, 1908), e os

italianos Francesco Bertolini e Adolfo Padovan, que em 1911, inspirando-se

esteticamente nas ilustrações de Gustav Doré, realizaram L’Inferno (Itália,

1911), uma impressionante adaptação da primeira parte da obra A Divina

 L’Inferno

L’Inferno

Comédia, de Dante Alighieri. Imortalizado na obra Goethe, o mito de Fausto,

homem que em busca de juventude e conhecimento vende sua alma para o

demônio Mefistófeles, foi levado às telas pela primeira vez em 1904, num curta-

metragem do francês Georges Fagot, mas sua representação mais marcante

encontra-se em uma obra crepuscular do expressionismo alemão, Fausto

(Faust – Eine deutsche Volkssage, 1926), de F.W. Murnau. Porém, entre

as obras seminais no tratamento do tema, talvez seja Häxan, A Feitiçaria

Através dos Tempos (Häxan, 1922), de Benjamin Christensen, a que

melhor sobreviveu à evolução da narrativa cinematográfica, apresentando um

pesadelo de beleza lúgubre, que emula visualmente a obra do pintor holandês

Hieronymus Bosch, num universo repleto de demônios, bruxas medievais e

freiras possuídas, numa trama que mescla a ficção e o documental, explorando

teorias tanto místicas como racionais para relatar a influência de entidades

maléficas em nosso mundo. Em Häxan, religiosidade, medos e superstições

medievais se confrontam com as teorias psicanalíticas em voga na época.

Em seus primeiros anos, a abordagem do Diabo no cinema bebeu diretamente

da fonte literária (Goethe, Dante), nas lendas medievais e nos conceitos

bíblicos. Seres demoníacos, munidos de rabo e chifres, pululavam nas telas

fazendo caretas, seduzindo mulheres incautas ou barganhando a alma de

homens gananciosos, e mesmo que sua essência fosse claramente maléfica

para a audiência da época, vistas hoje, essas criaturas burlescas soam

ingênuas, gerando mais risos do que temor. Curiosamente, a figura mais

representativa daquilo que seria a “encarnação do mais puro mal”, pouco foi

explorada nos primórdios de um gênero que tem por natureza o objetivo de

assustar as pessoas, o cinema de horror.

II

Night of the demon poster

Durante os anos 1930 e 1940, os estúdios da Universal

auxiliaram a popularizar o gênero, apavorando o público com títulos

marcantes como Drácula (1931), de Todd Browning, Frankenstein (1931), de

James Whale, e A Múmia (1932), de Karl Freund, mas durante este período

foram raras, ou nulas, as incursões do Demônio como protagonista, salvo

eventuais presenças em produções bíblicas.

Em 1957, Jacques Tourneur, veterano diretor dedicado ao cinema fantástico,

que nos anos 1940 havia realizado as obras primas A Morta-Viva (I Walked

With a Zombie) e Sangue de Pantera (Cat People), realizou o tétrico

A Noite do Demônio (Night of The Demon), onde um homem buscava

desesperadamente livrar-se de uma maldição que o levaria, literalmente, para

o fogo do inferno. Tourneur sempre prezou pela sutileza, preferindo a sugestão

ao susto fácil, e brigou inutilmente com os produtores para que a figura do

Demônio fosse apenas sugestionada, mas sua única e flamejante aparição

foi suficiente para aterrorizar o público. Fã confesso da obra de Tourneur, em

2009 o diretor Sam Raimi inspirou-se em A Noite do Demônio para conceber

a trama de seu Arraste-me Para o Inferno (Drag Me To Hell).

Os anos 1960 despontaram com novas possibilidades para a exploração de

um mito tão controverso. Movimentos de contracultura, influenciados pelo

esoterismo da Era de Aquário, abriram as portas para diversas espécies de

seitas, e o satanismo, revisitado através da obra do ocultista inglês Aleister

Crowley, ficou em voga entre os jovens, influenciando a música, a literatura, e o

cinema.

Neste período conturbado, repleto de experimentações, enquanto os Rolling

Stones cantavam Sympathy for the Devil, a própria indústria do cinema

passava por um processo radical de transformação, e o Demônio começava

a figurar em diversas produções cinematográficas, e assim surgem obras

ousadas e pouco convencionais como Invocation of My Demon Brother

(1969), de Kenneth Anger (seguida de Lucifer Rising, 1972) uma produção

avant-garde, onde o polêmico fundador da Igreja de Satã, Anton LaVey

representava o próprio Senhor das Trevas, e

Stevens, um filme peculiar, de soturna fotografia expressionista, onde numa

Incubus

Incubus

terra indefinida um humano (William Shatner) e uma Sucubus (espécie de

demônio feminino), se apaixonavam. Um amor que colocava a alma imortal

do homem em jogo, disputada por outro demônio, o Incubus do título, que

nascia das entranhas da terra e assumia a forma de um grande bode negro,

uma das representações clássicas do Baphomet medieval. Para aumentar sua

estranheza, a produção é totalmente falada em esperanto, e fatos sinistros

contribuíram para aumentar sua fama de filme maldito. Não bastasse o fato

de o interprete de Incubus, o ator Milos Milos, assassinar a amante e cometer

suicídio logo após as filmagens, na noite de estréia o cinema onde o filme

seria exibido pegou fogo, e algum tempo depois os copiões desapareceram,

tornando o filme inacessível durante mais de trinta anos, até que uma cópia em

bom estado fosse encontrada na Cinemateca Francesa.

Ainda no começo da década o diretor polonês Jerzy Kawalerowicz abordou o

histerismo religioso em Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od aniolów ,

1961), resgatando a história a respeito de freiras alegadamente possuídas,

abordada anteriormente no clássico Häxan. O tema seria revisitado pelo inglês

Ken Russell em 1971 com o polêmico Os Demônios (The Devils), tornando-se

a base para um subgênero conhecido como nunsesploitation. Estas obras se

baseavam num fato em comum, o notório caso das Freiras de Loudun, ocorrido

na França em 1632, quando religiosas de um convento cometeram sacrilégios

declarando estarem sob a influência de demônios. Até mesmo a tradicional

produtora inglesa Hammer, notória por seu ciclo de filmes sobre o Conde

Drácula, deixou o vampirismo um pouco de lado para produzir As Bodas de

Satã (The Devils’ Ride Out , 1968), e alguns anos depois retornou ao tema do

satanismo com Uma Filha Para o Demônio (To The Devil a Daughter, 1976),

onde uma jovem Nastassja Kinski era oferecida em tributo ao Diabo.

Em meio a dezenas de produções baratas de horror que se sucederam neste

período, é o diretor Roman Polanki e seu notório O Bebê de Rosemary

(Rosemary’s Baby, 1968), quem explora de forma mais contundente a essência

do mal. Os demônios deixavam de ser meras metáforas e carnavalizações,

para se tornarem seres tangíveis, assim como os seus simpáticos vizinhos

de apartamento. O impacto do filme só não foi maior do que o horror que se

estabeleceu fora das telas, quando em 1969 a esposa de Polanski, Sharon

Tate, grávida de oito meses, foi brutalmente assassinada junto com três

amigos, pelos membros da famigerada Família Manson, num dos crimes que

mais chocaram a sociedade norte-americana nos anos 1960. Em 1980, quando

John Lennon foi assassinado diante do edifício Dakota, local onde ocorreram

as filmagens de O Bebê de Rosemary, a aura negra da produção voltou a ficar

em evidência.

Porém, se o filme de Polanski abriu portas para o interesse dos grandes

estúdios sobre o tema, foi William Friedkin, em 1973, quem cimentou de

forma permanente a imagem do Demônio no cinema com O Exorcista

(The Exorcist). A história da possessão demoníaca de uma garotinha, que

blasfema contra Deus, comete automutilação, e se masturba com um crucifixo,

O Exorcista

O Exorcista

causou além de choque e pesadelos em platéias ao redor do mundo, uma

impressionante bilheteria e 10 indicações ao Oscar. Um feito memorável

para uma obra inserida numa linguagem tradicionalmente vista pela crítica

como um subgênero. Não demorou para que outros filmes inspirados em seu

sucesso comercial explorassem a mesma fonte, e até mesmo o plagiassem

descaradamente, como os italianos O Anticristo (L’anticristo, 1974) de

Alberto De Martino e Espírito Maligno (Chi Sei?, 1974), de Ovídeo G.

Assonitis. O cinema brasileiro também realizou algumas incursões no rastro

de O Exorcista, como Exorcismo Negro (1974), de José Mojica Marins, e

Seduzidas Pelo Demônio (1978), de Raffaele Rossi. Até mesmo o folclórico

cômico Mazzaropi satirizou a obra de Friedkin em O Jeca Contra o Capeta

(1976).

Com a figura do Demônio rendendo nas bilheterias, os grandes estúdios

continuavam investindo no tema, possibilitando que em 1976 Richard Donner,

amparado no Apocalipse de São João, concebesse A Profecia (The Omen),

outra obra emblemática para o gênero, que abordava o nascimento do

Anticristo; a materialização do mal na forma de uma criança, que ao crescer

tomaria o poder e iniciaria o declínio da humanidade.

Se nos primórdios do cinema o Diabo era apenas uma figura caricata, uma

metáfora ingênua e por vezes burlesca do conflito entre o bem e mal, as

obras de Polanski, Friedkin e Donner expandiram a presença das entidades

malignas para o universo físico, onde o campo de batalha deixava de ser

metaforicamente a alma humana, para afligir corporalmente crianças inocentes,

ou gerar um ser com intenções de exterminar com um golpe toda humanidade.

O horror passou a se originar na perversão da pureza infantil. Assim, as

crianças que antes representavam a esperança, passavam a idealizar um

futuro sombrio. O temor metafísico transforma-se no horror da destruição

em massa, refletindo temores racionais, como a paranóia de uma guerra

nuclear que atormentaria o mundo nos anos 1980. Um demônio possuindo um

presidente com o poder de iniciar a terceira guerra mundial, certamente era

mais aterrorizante que um diabo da Idade do Bronze atormentando freiras num

convento isolado do século XVII.

O Anjo expulso do Paraíso parece ser uma figura de potencial inesgotável para

espelhar os nossos temores, mesmo após figurar em centenas de produções

nestes mais de cem anos de cinema. Apesar de explorado desde o princípio

em todos os gêneros, passando pelas farsas de Méliès, e das comédias como

O Pequeno Diabo (Il piccolo diavolo, 1988), de Roberto Benigni,

existencialista de obras como Sob o Sol de Satan (Sous le soleil de Satan,

1987), de Maurice Pialat, a sua natureza grotesca e complexa o tornou figura

indissociável do cinema de horror, além de render desafios aos atores que o

interpretam. Nos anos 1980, Robert De Niro realizou uma marcante atuação

ao compor um refinado Louis Cyphre, em Coração Satânico (Angel Heart,

1987), de Alan Parker. Em 1997, em O Advogado do Diabo (The Devil’s

Advocate), de Taylor Hackford, o ator Al Pacino imprimiu em seu maléfico

personagem todo o sarcasmo e o cinismo dignos de um embusteiro infernal.

Porém, curiosamente coube a uma mulher, a andrógina atriz italiana Rosalinda

Celentano, a interpretação do Demônio mais enigmático e paradoxal dos

últimos anos, na polêmica produção de Mel Gibson, A Paixão de Cristo (The

Passion of The Christ). Ao ceder o papel para uma mulher, Gibson nos lembra

que o feminino também ostenta sua porção satânica, herança das lendas de

Eva, Lilith, e da força das deusas pagãs.

Em seu livro “Linguagem e Mito”, Ernst Cassirer afirmou que “cada impressão

que o homem recebe, cada desejo que nele se agita, cada esperança que o

atrai e cada perigo que o ameaça, pode vir a afetá-lo religiosamente”. Ainda

vivemos num mundo onde a sombra dos mitos pode desencadear medos

ancestrais, temores irracionais que tomam formas diversas e podem ser

compreendidos em suas manifestações artísticas. Parafraseando Cassirer

(embasado no significado original do termo grego daemon), se for para encarar

esses “demônios momentâneos que vem e vão, aparecendo e desaparecendo

como as próprias emoções subjetivas que os originam”, que seja através da

ficção de uma tela de cinema.

(artigo originalmente publicado no livro “Fim do Mundo:Guerras, Destruição e Apocalipse na História e no Cinema / Ed. Argonautas)

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EM 2013 O MAR NEGRO CHEGARÁ ATÉ VOCÊS!

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A VINGANÇA ESTÁ PRÓXIMA!

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