Arquivo do mês: outubro 2010

R.I.P ROY WARD BAKER (1916-2010)

 

Roy Ward Baker

 

 

Roy Ward Baker

 

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Arquivado em Horror, R.I.P, Suspense

CÃO SEM DONO

“É uma dor canalha que te dilacera

é um grito que se espalha também pudera

não tarda nem falha, apenas te espera […] “

(Walter Franco)

Na seqüência de abertura de “Cão Sem Dono”, as personagens Ciro (Julio Andrade) e Marcela (Tainá Müller) são dois corpos ardentes que parecem se fundir num amálgama libidinoso onde não existe espaço para falsos pudores. Na cena seguinte, sentados à mesa do café, eles agem como dois estranhos, medindo palavras e tropeçando no aflitivo silêncio das pausas. A intimidade adquirida durante uma noite de sexo casual, pela manhã tornou-se tão fugaz quanto um orgasmo. Esta sensação de estranheza e distanciamento com relação ao próximo e ao mundo é o fio que nos conduz através do cotidiano de Ciro, um jovem tradutor de russo desempregado, que atravessa uma crise existencial, e se perde gradualmente num tortuoso labirinto de sensações e sentimentos. Numa existência sem maiores expectativas, em que a figura de um cão vira-lata chamado Churras (simbólica extensão do próprio Ciro) é a mais próxima representação de um amigo, Ciro não consegue definir o papel de Marcela em sua vida. Será ela a sua Ariadne, ou o seu Minotauro?

A partir do romance “Até o Dia em que o Cão Morreu”, do escritor Daniel Galera, os diretores Beto Brant e Renato Ciasca conceberam uma densa trama urbana, que causa espanto pela crueza de sua produção, despida de qualquer barroquismo estético, inclusive trilha incidental, e que cativa pela sua sinceridade atroz. A trama elíptica, amparada em atuações viscerais e corajosas, e num roteiro que se deixa levar por situações cotidianas, navegando com naturalidade pelos pequenos dramas que compõem a vida de Ciro, não nos proporciona soluções mirabolantes, apenas serve de guia e retrato instântaneo da dilacerante jornada interior de um homem em busca de identidade própria.

A produção concisa e despojada de “Cão Sem Dono” contradiz os caminhos estéticos e cinemáticos indicados por Brant em seu trabalho anterior, o hermético e polêmico “Crime Delicado”. Brant e Ciasca, companheiros de longa data (mas em seu primeiro crédito conjunto na direção), não tiveram medo de reinventar mais uma vez a sua visão de cinema, indicando novos caminhos para velhos questionamentos. Outro mérito do filme é fugir da armadilha de se tornar uma obra regional, pois apesar do sotaque sulista inundar a tela, Porto Alegre é apenas o cenário, o drama é universal.

As dores, amores, dúvidas e apreensões de Ciro, ecoam muito além da simples ficção, transformam a tela do cinema em nosso espelho, o reflexo de uma geração, que queira ou não, também é um pouco cachorro vadio.

Cão Sem Dono/ BR./ 2007

Dir: Beto Brant e Renato Ciasca

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