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CINEMA EX MACHINA NO LANÇAMENTO DO LIVRO CEMITÉRIO PERDIDO DOS FILMES B- EXPLOITATION!

Mais uma vez o Cinema Ex Machina ultrapassa as fronteiras do mundo virtual, desta vez a convite do Cesar Alcázar, para fazer parte do elenco de autores do livro “Cemitério Perdido dos Filme B- Exploitation” (Ed. Estronho). O lançamento será durante o FANTASPOA neste sábado no Cine Bancários às 13h30. Fãs de horror, sci-fi bagaceira, filmes de ação B e exploitation em geral, compareçam ou sejam amaldiçoados!

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ENQUANTO O APOCALIPSE NÃO VEM…

… o Cinema Ex Machina participa de seu último projeto do ano além das fronteiras do blogue com o lançamento do livro “Fim do Mundo: Guerras, destruição e Apocalipse na História e no Cinema”. Minha participação no livro ocorre com o artigo “Demônios e Maravilhas: Um Panorama Infernal no Cinema”; uma breve análise sobre o papel do Demônio no cinema, do século XIX até os dias atuais. O lançamento do livro será no dia 21 de dezembro, sexta-feira, às 18h30 na Sala Redenção no Campus Central da UFRGS. E caso o planeta não esteja sendo bombardeado por bolas de fogo ou ruindo sob nossos pés, compareçam!

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PROJETO RAROS APRESENTA FILME INSPIRADO NA OBRA DE CHARLES BUKOWSKI

 

O projeto Raros da Sala P. F. Gastal (Usina do Gasômetro, 3º andar) exibe nesta sexta-feira, 04 de novembro, às 20 horas,  o filme belga Crazy Love, baseado na obra do escritor maldito Charles Bukowski. Realizado em 1987, Crazy Love é o primeiro longa do diretor belga Dominique Deruddere, mais conhecido do grande público por sua indicação ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2001 por Fama Para Todos. Inspirado em diversos contos de Bukowski, sendo mais evidente a transposição de A Sereia que Copulava em Veneza, Califórnia, do livro Crônica de Um Amor Louco, a trama acompanha três momentos distintos na vida do trágico e patético personagem Harry Voss, e sua incessante busca por amor e aceitação, passando por sua adolescência conturbada, até focar o retrato cruel de um homem amargo e solitário. Crazy Love é considerada uma das mais fiéis adaptações do universo de desesperança e degradação concebido por Bukowski.
  ENTRADA FRANCA

Crazy Love, de Dominique Deruddere (Bélgica, 1987). Duração: 90 minutos.

“Projeto Raros: Filmes que você sempre quis ver ou nem imaginava que existiam”.

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OLIVER TWIST: DICKENS SOB O OLHAR DE POLANSKI

A infância pobre do diretor Roman Polanski, e as suas desventuras nos guetos de Varsóvia durante a segunda guerra mundial, amenizam a estranheza inicial de ver seu nome relacionado a uma obra como “Oliver Twist”. A evocação de sua própria infância talvez tenha sido um fator decisivo em sua opção por embarcar em um projeto tão dissonante de seu universo cinematográfico, e já vertido para as telas inúmeras vezes, sendo a lacrimosa versão de 1948, dirigida por David Lean e com Alec Guinnes no elenco, a mais aclamada.

Mas ao contrário do que se poderia esperar, a sua visão da clássica obra de Charles Dickens não sofre arroubos de criatividade ou tendências ostensivamente sombrias, mantendo-se fiel ao romance escrito em 1837. O jovem órfão Oliver Twist (Barney Clark) sofre com a fome, a indiferença e a rígida educação da Inglaterra Vitoriana. Submetido a um trabalho de semi-escravidão em uma fábrica de estopas, ele é expulso por ousar pedir um prato de comida além de sua cota. Entregue a um coveiro, ele é submetido a diversas humilhações, até que decide fugir para Londres, onde é acolhido por Fagin (Ben Kingsley) e sua turma de pequenos ladrões. O inocente Oliver é incitado a cometer pequenos furtos, mas antes de envolver-se definitivamente com o crime, cai nas graças de Mr. Brownlow (Edward Hardwicke), um benfeitor que o ampara, dedicando-lhe confiança e educação. Porém, o crime insiste em estar presente na vida de Oliver, pois temendo ser denunciado, Fagin resolve silenciar definitivamente o garoto, recorrendo aos serviços do temido marginal Bill Sykes (Jamie Foreman). Assim, novamente Oliver terá de enfrentar grandes provações que ameaçarão seus planos de uma vida instável.

A primorosa reconstituição da Londres vitoriana vista através das lentes de Pawel Edelman, realçam o perfeccionismo técnico que envolve toda a produção. Se ao escrever o romance no século XIX, Charles Dickens queria denunciar a pobreza, varrida para debaixo do tapete pelos nobres ingleses, esse fato foi captado com sensibilidade por Polanski, que nos faz passear por ruas e becos imundos, repletos de pessoas famintas e desesperadas. Ben Kingsley, no papel do patético larápio Fagin, é um dos alicerces fortes do filme, com uma interpretação carismática, no limite do caricatural, que consegue nos provocar sentimentos ambíguos, que vão da raiva à comiseração. A trama, por mais que inspire lágrimas, consegue fugir da pieguice habitual do gênero, mas tem como ponto fraco justamente o seu personagem central. O garoto Barney Clark nos apresenta um Oliver Twist irritantemente passivo, e sem o carisma necessário para sustentar um personagem de tamanha carga emocional, sendo apagado pelas interpretações mais do que corretas dos coadjuvantes, com destaque para a jovem ladra Nancy (Leanne Rowe), que ao entrar em cena exibindo seios fartos e ares vulgares de prostituta mirim, nos faz lembrar que ainda estamos diante de um filme de Polanski.

Em alguns momentos “Oliver Twist” sofre com o desempenho irregular de seu personagem título, mas é uma falha menor que não consegue embaçar as qualidades desta obra de apelo universal, repleta de dor, sofrimento e redenção, em que o próprio diretor teve direito a exorcizar alguns de seus demônios.

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DESCONECTE-SE E ABRA UM LIVRO: SOB AS ASAS DO CORVO- INFLUÊNCIAS DE EDGAR ALLAN POE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS.

A literatura, esta arte por vezes obscura, composta de caminhos intempestivos e tortuosos, não raramente aproxima, através de uma estranha rede intertextual, escritores tão talentosos quanto dispares em suas intenções literárias, assim como o americano Edgar Allan Poe e o brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis.

Em comum a vida reservou para ambos uma infância pobre, além do talento literário e de uma singular percepção da humanidade. A pobreza refletiu de forma complexa e oposta em suas obras. Poe era tão obsessivo quanto

Edgar A. Poe (1809-1849)

emblemático ao compor a dissolução do espirito e do corpo, tendendo copiosamente para o macabro. O homem tragado por um emaranhado de sensações, diluído pelo convívio da sociedade humana. Machado envereda pela sutileza, e da mesma forma desvenda as particularidades da natureza humana, no entanto, sem as patologias, tão latentes em Poe.

Edgar Allan Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809 na cidade de Boston, E. U. A . Filho de um casal de atores fracassados, ficou orfão de mãe aos três anos de idade, quando foi juntamente com a irmã dado para adoção. Seu relacionamento conturbado com os pais adotivos, acabou gerando o seu primeiro livro, “Tamerlão e Outros Poemas”, datado de 1827.

Em 1839 , Poe publica alguns de seus mais representativos contos, como “A Queda da Casa de Usher” e a compilação  “Contos do Grotesco e do Arabesco”. Em 21 de junho do mesmo ano, nascia sob o calor dos trópicos, em pleno Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, Machado de Assis. Filho de uma lavadeira e de um pintor de paredes, de origem humilde e espírito indômito assim como o atormentado escritor americano.

Enquanto Machado dava seus primeiros passos e aprendia com dificuldade as primeiras palavras, Poe já se tornava um dos mais conturbados e famigerados escritores americanos, mesmo que o reconhecimento só tenha se efetivado realmente após a sua morte. Em 1849, ano de seu falecimento, Charles Baudelaire apaixona-se pela sua obra, e publica com sucesso na França, “Contos do Grotesco e do Arabesco” com o título de “Histórias Extraordinárias”. O reconhecimento, mesmo que tardio, projeta a obra de Poe, fomentando uma nova leitura de seu trabalho, tornando-o rapidamente em um dos cânones da literatura americana. De escritor maldito, rejeitado pelos críticos elitistas, ele passa a ser uma figura de transição entre o romantismo e o realismo, um gênio mórbido no limite da modernidade.

Machado de Assis, aos 16 anos já freqüentava a tipografia da revista Marmota Fluminense, em cujo número de 21 de janeiro de 1855 sai o poema “Ela”. Assim

Machado de Assis (1839-1908)

estreava Machado no mundo das letras. Moreno e de origem humilde, tratou de utilizar o seu intelecto para galgar os preconceituosos degraus da sociedade carioca da época. Aos cinqüenta anos, já era considerado o maior escritor vivo do país, sendo figura respeitada e admirada nos círculos acadêmicos.

Leitor voraz, Machado nunca escondeu suas influências e seus desafetos literários. O fascínio pela obra de Edgar Allan Poe o levou a verter para a língua portuguesa o célebre poema “O Corvo”.

As singularidades mórbidas do escritor americano podem ser pontuadas, mesmo que por leves nuanças, em vários trabalhos de Machado. Obras como “O Enfermeiro”, “A Causa Secreta” e “O Alienista” reservam em si elementos comuns a Poe, como a dualidade do ser, o sadismo mórbido e a loucura.

O personagem Fortunato, do conto “A Causa Secreta”, remete diretamente a obra “O Barril de Amontilado”, contido na compilação “Histórias Extraordinárias”. O Fortunato de Machado revela-se um sádico escondido sob uma máscara de bondade. Tal sadismo é um complemento forjado no molde clássico criado por Poe.

“O Alienista” discute a insanidade de forma irônica, utilizando a lógica para determinar o “certo” e o “errado”. A loucura e a normalidade encontram parâmetros nos atormentados personagens criados por Poe e suas divagações sobre a sanidade e os efeitos de ser uma anormal perante a sociedade.

Em “O Enfermeiro” encontramos reflexos dos intrigantes contos de Poe, “O Gato Preto” e “O Coração Delator”. Neste caso a própria narrativa já se estabelece como uma ponte referencial entre os dois autores. O recurso narrativo utilizado é o da “confissão em primeira pessoa”. Existe um diálogo direto com o leitor.

A confissão de um crime hediondo tem como intuito, não apenas o desabafo do personagem, mas a busca de um cúmplice no leitor. A narrativa tenta impor a compreensão e gerar uma certa cumplicidade no ato criminoso cometido. O diálogo com o leitor é um recurso recorrente na obra machadiana; uma estratégia simples que determina e acerta o ritmo do texto. Poe utilizou-se do mesmo recurso, porém, sem a intensidade de Machado.

O personagem Procópio, assim como o narrador atormentado de “O Gato Preto”, apresenta-se inicialmente como um cidadão de boa índole, gradualmente impelido a cometer um assassinato por uma convergência de fatores incontroláveis.

A famigerada transformação de caráter do personagem não ocorre devido a fraqueza etílica, como o de Poe, mas o crime de morte cometido por ambos procede da obscura cólera que paira sob a natureza humana. A isto Poe chamou de “o espírito da perversidade”.

O gato preto que atormenta e modifica a vida da patética figura que narra o conto de Poe, é substituído por Machado pela figura decrépita e avara do “Coronel”, que transforma o cotidiano do enfermeiro Procópio em um inferno. Assim Machado nos apresenta o personagem:

“Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por não dizer nada; pôs em mim dous olhos de gato que observa, depois, uma espécie de riso maligno alumiou-lhes as feições, que eram duras”.

A utilização do termo “gatuno”, de forma pejorativa, é recorrente no texto.  O termo é uma citação sutil, porém, importante em seu aspecto de intertextualidade:

“Afinal, disse-me que nenhum dos enfermeiros que tivera prestava para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao faro das escravas; dous eram até gatunos!

– Você é gatuno?

– Não senhor.

Ao leitor mais atento é impossível não notar a insistente referência ao felino de Poe. Em relação ao motivo que eclode no crime de morte, são evidentes as semelhanças.  Assim Poe narra a agressão ao felino:

“…me feriu a mão levemente com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se instantaneamente de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo”.

O gato preto que intitula o conto de Poe acaba sendo enforcado pelo próprio dono, curiosamente, assim narra Machado o assassinato do coronel:

“Não tive tempo de desviar-me; a moringa bateu-me na face esquerda, e tal foi a dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o”.

A motivação portanto é a mesma, apesar das diferenças circunstanciais. Algumas semelhanças com o conto “O Coração Delator” podem ser encontradas diante da consciência acusadora que persegue o assassino; assim confessa o personagem Procópio:

“Não creia que esteja fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino! Assassino!”.

A culpa manifestando-se quase como uma matéria sólida, impelindo o personagem a tomar uma atitude é comum a obra de Poe. A morbidez nunca foi um tema costumas a Machado, aparecendo somente sob circunstâncias especificas, mas nunca gratuitamente, ou como diz Ana Maria Lisboa de Mello em seu artigo “Processos Narrativos Nos Contos de Machado de Assis”:

“As estruturas da ficção machadiana ensejam rupturas com o passado literário, estabelecendo regras que obedecem às próprias lógicas. Ao dialogar com a tradição literária, Machado retoma e, simultaneamente, tranforma aquilo que pode vir a serviço da significação que tenciona construir”.

O diálogo entre autores tão distintos é essencial para se compreender as complexas engrenagens da intertextualidade, e a importância das leituras subjacentes que tornam o leitor uma peça essencial na compreensão de uma obra.

Machado, em determinado momento criou sob a influência e as asas do corvo de Poe, assim como Poe estabeleceu-se em algum momento sob a sombra de escritores ancestrais para gerar as suas histórias extraordinárias.

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DESCONECTE-SE E ABRA UM LIVRO- DICA N°1: FRANZ KAFKA

FRANZ KAFKA (1883-1924)

KAFKA E O MARAVILHOSO

Nascido em Praga em 1883, o escritor tcheco Franz Kafka foi um dos responsáveis pela ruptura estética que influenciaria toda uma geração de escritores e estabeleceria novos conceitos em relação ao “fantástico” e ao “maravilhoso”. Obras seminais como “O Processo”, “A América”, “O Castelo” e “A Metamorfose” foram de suma importância para a elaboração de uma nova estética, que fomentaria novos questionamentos em relação à teoria literária contemporânea.

Em “A Metamorfose”, Kafka narra a patética trajetória de Gregor Samsa, um homem comum que certa manhã acorda metamorfoseado em um inseto. A situação inusitada, inicialmente causa pavor, mas em seguida recai em um estado de total normalidade. É exatamente nesse ponto que a obra difere do conceito idealizado do “fantástico” para entrar no reino do “maravilhoso”. Kafka não causa estranheza ao meio em que insere suas tramas.

O fato de uma pessoa transformar-se repentinamente em um inseto monstruoso, a principio causa espanto, mas não gera o horror e a perplexidade que são comuns as obras fantásticas. A experiência

é rapidamente assimilada após o choque inicial, para em seguida inserir-se num contexto de normalidade. O bizarro e o absurdo tomam proporções apenas banais e integram-se perfeitamente ao cotidiano dos personagens. Assim Gregor Samsa aceita gradualmente a sua condição de inseto, como sua família habitua-se a sua estranha presença e ao fato inusitado, resignando-se a levar uma vida normal. O leitor por sua vez, também é obrigado a aceitar tal situação sem questionar a racionalidade dos fatos, pois o universo do “maravilhoso” não aceita tais questionamentos, a não ser os da lógica interna do próprio texto.

O filósofo grego Aristóteles, com seus rígidos conceitos sobre a produção de uma “arte verossímil”, já dissertava sobre a coerência interna de uma obra: “Ainda que o personagem a apresentar não seja coerente nas suas ações, é necessário, todavia, que (no drama) ele seja incoerente, coerentemente”.

A obra “fantástica” segundo Irene Bessiere se desenvolve através da “desconstrução de um verossímil de origem religiosa pelo jogo de uma racionalidade suposta comum ao sujeito e ao mundo”, ou seja, o homem deparado com uma situação tão incomum a sua realidade que pode desencadear uma reação de horror e conflito, coloca-se então no âmbito do “fantástico”.

O “maravilhoso” refere-se justamente ao texto em que a irracionalidade não causa “choque” e “torpor”, como o fato de a família de Samsa encarar com naturalidade a sua metamorfose. Em seu ensaio “Unheimlich”,  Sigmund Freud faz uma clara distinção entre ambos, em certo trecho comenta: “A situação altera-se tão logo o escritor pretenda mover-se no mundo da realidade comum. Nesse caso, ele aceita também todas as condições que operam para produzir sentimentos estranhos na vida real, e tudo o que teria um efeito estranho na realidade, o tem na sua história”.

Essa citação de Freud nos faz compreender que no “maravilhoso” tudo é possível, pois estamos adentrando em um universo com uma lógica interna que obedece apenas as suas próprias regras.

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1984- GEORGE ORWELL E A SUBVERSÃO DA UTOPIA

Perpetuada através de pensadores tão dispares quanto Campanella, Saint-Simon e Fourier, a corrente utópica de pensamento, surgida em 1516 com a seminal obra “A Utopia”, de Thomas Morus, encontraria em meados do século XX um curioso contraponto em obras como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e principalmente em “1984”, do escritor inglês George Orwell.

Enquanto a idéia utopista clássica idealiza, em sua essência, uma sociedade regida por valores que enaltecem a liberdade, a igualdade e a justiça, em seu romance “1984”, Orwell, ainda atormentado pelas sombras do nazi fascismo,

George Orwell

e pela força do Stalinismo, orquestra uma visão aterradora do futuro, onde um governo totalitário controla o povo, oprimindo com brutalidade, manipulando a verdade e suprimindo qualquer espécie de pensamento libertário. Sobre o futuro, Orwell revela seu parecer através da fala de uma de suas personagens: “Se quer uma visão do futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano para sempre”. O romance foi levado para as telas pela primeira vez em 1956, dirigido por Michael Anderson, mas a versão mais fiel foi realizada simbolicamente em 1984 por Michael Radford, com as presenças marcantes de John Hurt, no papel de Winston Smith, o homem massacrado sistematicamente pelo poder do estado, e Richard Burton, como O’Brien, o homem frio e metódico que se propõe a ser uma ferramenta a serviço da opressão.

Este olhar amargo e pessimista com relação ao futuro, gera o que convencionamos chamar de “contra-utopia”, ou seja, uma subversão dos valores propostos por Thomas Morus. A sociedade arquitetada por Orwell sofre de um processo de diluição do indivíduo em prol de uma coletividade acéfala, controlada por uma entidade (o estado) quase onipresente conhecida como “Big Brother”. Os conflitos ideológicos iniciados no século XIX com o advento do marxismo, resultaram numa proliferação de utopias e ideologias, conservadoras, liberais e anárquicas, que tiveram como efeito colateral a ascensão de sistemas ditatoriais no século XX. O filósofo Paul Ricoeur, em seu ensaio “Ideologia e Utopia”, cita a “utopia humanitária liberal”, assim classificada por Mannhein, e aponta: “Esta forma é utópica na medida em que nega, e por vezes muito ingenuamente, as fontes reais do poder, na propriedade, no dinheiro, na violência e em todos os tipos de forças não intelectuais. Dá exagerada ênfase ao poder da inteligência para formar e moldar”. Orwell não subestima o poder da violência, da eficácia das baionetas em calar vozes e apagar idéias, e sustenta de forma imperativa em seu romance: “Poder significa estraçalhar a mente humana e reconstituí-la dentro do seu molde”.

Este humanitarismo “ingênuo”, esta fé utópica num futuro repleto de oportunidades, onde os valores intelectuais teriam suma importância na construção de uma sociedade mais justa, podem ser constatados em um Brasil pré-ditatorial, em que o progresso e a democracia semeavam a esperança de uma nação rica e igualitária, então, em março de 1962, o golpe de estado imposto pelo regime militar transformou o país em uma capítulo sombrio, que poderia constar de algum livro de Orwell. Um processo de reforma instaurou-se no país, não tão radical, mas tão danoso quanto os que ocorreram em países como a China, Russia ou a Alemanha. O sistema de reeducação apresentado por Orwell em seu romance, em que o passado histórico é gradualmente destruído ou modificado é completamente devastador. Apagar o passado de um povo afeta diretamente sua identidade cultural, e um povo sem identidade torna-se um barro sem vida, pronto para ser modelado. Porém, sabidamente militares brasileiros usaram de artimanhas dignas de Maquiavel para controlar a sociedade, da força bruta passando pelo cerceamento da liberdade de expressão, até a manipulação da propaganda, inculcando na sociedade um espírito ufanista que pode explicar, em parte, o apoio civil à intervenção militar. Os mesmos métodos foram utilizados com sucesso durante o regime nazista alemão, e foram uma inspiração na composição da figura controladora de “Big Brother”.

Segundo Saint-Simon: “A ideologia é sempre uma tentativa de legitimar o poder, ao passo que a utopia é sempre uma tentativa de substituir o poder por outra coisa qualquer”. Ambas, no entanto, almejam de uma forma ou outra o poder, e esta é palavra chave sob a qual tudo gira no romance de Orwell, catalisando ações e gerando conseqüências irreversíveis no espírito humano.

Escrito em 1949, curiosamente o pesadelo de um escritor antecipou o advento da televisão como veículo de manipulação, e previu aberrações ideológicas como a caça as bruxas do Macartismo, e as barbaridades cometidas nas ditaduras sul americanas. Ao subverter as propostas utópicas Orwell nos legou um exercício de reflexão sobre a liberdade e a natureza humana, e a importância do indivíduo, ele só não previu que uma de suas criações, um estandarte da intolerância chamado “Big Brother”, seria despido de sua simbologia original para tornar-se um símbolo da mediocridade televisiva; porém, indiretamente acertou com relação ao poder de alienação da mesma.

 

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