Arquivo do mês: abril 2011

DESCONECTE-SE E ABRA UM LIVRO- DICA N°1: FRANZ KAFKA

FRANZ KAFKA (1883-1924)

KAFKA E O MARAVILHOSO

Nascido em Praga em 1883, o escritor tcheco Franz Kafka foi um dos responsáveis pela ruptura estética que influenciaria toda uma geração de escritores e estabeleceria novos conceitos em relação ao “fantástico” e ao “maravilhoso”. Obras seminais como “O Processo”, “A América”, “O Castelo” e “A Metamorfose” foram de suma importância para a elaboração de uma nova estética, que fomentaria novos questionamentos em relação à teoria literária contemporânea.

Em “A Metamorfose”, Kafka narra a patética trajetória de Gregor Samsa, um homem comum que certa manhã acorda metamorfoseado em um inseto. A situação inusitada, inicialmente causa pavor, mas em seguida recai em um estado de total normalidade. É exatamente nesse ponto que a obra difere do conceito idealizado do “fantástico” para entrar no reino do “maravilhoso”. Kafka não causa estranheza ao meio em que insere suas tramas.

O fato de uma pessoa transformar-se repentinamente em um inseto monstruoso, a principio causa espanto, mas não gera o horror e a perplexidade que são comuns as obras fantásticas. A experiência

é rapidamente assimilada após o choque inicial, para em seguida inserir-se num contexto de normalidade. O bizarro e o absurdo tomam proporções apenas banais e integram-se perfeitamente ao cotidiano dos personagens. Assim Gregor Samsa aceita gradualmente a sua condição de inseto, como sua família habitua-se a sua estranha presença e ao fato inusitado, resignando-se a levar uma vida normal. O leitor por sua vez, também é obrigado a aceitar tal situação sem questionar a racionalidade dos fatos, pois o universo do “maravilhoso” não aceita tais questionamentos, a não ser os da lógica interna do próprio texto.

O filósofo grego Aristóteles, com seus rígidos conceitos sobre a produção de uma “arte verossímil”, já dissertava sobre a coerência interna de uma obra: “Ainda que o personagem a apresentar não seja coerente nas suas ações, é necessário, todavia, que (no drama) ele seja incoerente, coerentemente”.

A obra “fantástica” segundo Irene Bessiere se desenvolve através da “desconstrução de um verossímil de origem religiosa pelo jogo de uma racionalidade suposta comum ao sujeito e ao mundo”, ou seja, o homem deparado com uma situação tão incomum a sua realidade que pode desencadear uma reação de horror e conflito, coloca-se então no âmbito do “fantástico”.

O “maravilhoso” refere-se justamente ao texto em que a irracionalidade não causa “choque” e “torpor”, como o fato de a família de Samsa encarar com naturalidade a sua metamorfose. Em seu ensaio “Unheimlich”,  Sigmund Freud faz uma clara distinção entre ambos, em certo trecho comenta: “A situação altera-se tão logo o escritor pretenda mover-se no mundo da realidade comum. Nesse caso, ele aceita também todas as condições que operam para produzir sentimentos estranhos na vida real, e tudo o que teria um efeito estranho na realidade, o tem na sua história”.

Essa citação de Freud nos faz compreender que no “maravilhoso” tudo é possível, pois estamos adentrando em um universo com uma lógica interna que obedece apenas as suas próprias regras.

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FIGHT FOR YOUR RIGHT, TO PAAAAARTY!

“You wake up late for school man you don’t wanna go,
You ask your mom “please?” but she still says “NO!”
You miss two classes and no homework
but your teacher preaches class like you’re some kind of jerk

You gotta fight, for your right,
to paaaaaaaaaarty”

(Beastie Boys)

Apesar de ter sido um “heavy metal kid” radical durante boa parte dos anos 90, muitas vezes abusando da teimosia e da empáfia que a adolescência nos permite, Beastie Boys era uma das poucas exceções em minha discoteca que fugia de um paradigma musical centrado em figuras como  Slayer, Sepultura, Iron Maiden, Napalm Death e outros ícones do metal. Portanto causava estranheza aos amigos quando invés de algum álbum do Mercyful Fate,  eram “Check Your Head” ou “Ill Communication” que explodiam as caixas de som.  Estes álbuns certamente auxiliaram a ampliar meus horizontes musicais, e para mim, ainda figuram entre os melhores discos produzidos naquele período. Mas é de “Licensed To Ill” (1986), o primeiro trabalho dos rappers branquelas de New York, umas de suas músicas mais emblemáticas, “Figh For Your Right”, que amparada por um clip hilário tornou-se um bem humorado hino de anarquia juvenil. E é exatamente esse  clip a inspiração para o curta “Fight for your Right, Revisited:”, dirigido pelo Beastie Boy Adam Yauch, que tem lançamento previsto para maio, acompanhando o novo CD, Hot Sauce Commietée Part Two. O envolvimento dos Beastie Boys com o cinema vem de longa data, além de serem figuras constantes em diversas trilhas sonoras, Adam Horovitz já atuou em diversos filmes, como Um Beijo Antes de Morrer (A Kiss Before Dying / 1991) e Profetas do Asfalto (Roadside Prophets / 1992), Adam Yauch esteve envolvido na produção de curtas e documentários e Michael Diamond já compôs trilhas sonoras, além de terem realizado um dos melhores clips da história, “Sabotage”, onde parodiam filmes policiais da década de 1970. O que chama a atenção em “Fight for your Right, Revisited:” é o elenco envolvido no projeto, nomes como Will Ferrel, Seth Rogen, Danny MacBride, John C. Reilly, Susan Sarandon, Stanley Tucci, Ted Danson, Steve Buscemi, só aumentam a expectativa com relação ao tamanho da bagunça. E o trailer abaixo é um prenuncio de pura diversão.  Fight for you right…

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O CINEMA EX MACHINA COMPLETA UM ANO DE VIDA!

CINEMA EX MACHINA, PRIMEIRO ANO EM ATIVIDADE!

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COM A PALAVRA…JEAN-CLAUDE CARRIÈRE!

Jean-Claude Carrère (1931-_)

“Os cineastas sérios não são necessariamente os melhores”.

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R.I.P SIDNEY LUMET (1924-2011)- UM DIA DE CÃO PARA O CINEMA!

Sidney Lumet (1924-2011)

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O PROJETO RAROS APRESENTA “NÃO NOS LIVRE DO MAL”!

A Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro (3º andar) retoma nesta sexta-feira, dia 8 de abril, às 20h, as sessões do projeto Raros, exibindo o polêmico filme francês Não Nos Livre do Mal, de Joël Séria , produção de 1971 nunca lançada nos cinemas brasileiros.Constantemente incluído na extensa galeria de filmes malditos dos anos 1970, Não Nos Livre do Mal (Mais Ne Nous Délivrez Pas du Mal) causou alvoroço em seu lançamento, despertando a ira da igreja e chocando o público mais conservador, ao retratar sem pudores a amizade doentia entre duas adolescentes que desafiam normas sociais, empreendendo uma desenfreada e iconoclástica viagem rumo à autodestruição. Numa atitude de recusa às convenções, as jovens Anne (Jeanne Goupil) e Lore (Catherine Wagener) realizam missas negras, seduzem homens incautos e provocam tragédias ao praticarem perigosas brincadeiras. Inicialmente banido pela censura francesa por sua “perversão, sadismo e outras formas de destruição mental e moral”, o filme foi liberado após nove meses de proibição total para ser exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Apesar da boa recepção por parte da crítica, Não Nos Livre do Mal fez uma carreira errática nos cinemas, sofrendo constante pressão de entidades religiosas e de censores de plantão, até cair gradualmente no esquecimento. Seu lançamento em DVD nos Estados Unidos (em 2006) e no Japão (em 2008) e novas exibições em festivais de cinema fantástico como o Night Visions Film Festival (na Finlândia) e o L’Etrange Festival (na cidade francesa de Lyon) deram início a uma nova onda de culto em torno deste estranho filme que somente agora, exatos 40 anos após a sua estreia (sua primeira exibição aconteceu em 5 de abril de 1971, no Festival de Cannes), poderá ser finalmente conhecido pelos espectadores porto-alegrenses.         A sessão de Não Nos Livre do Mal tem entrada franca, e será comentada pelo jornalista Thomaz Albornoz. Exibição em DVD. Diálogos em francês, com legendas em espanhol.Não Nos Livre do Mal (Mais Ne Nous Délivrez Pas du Mal), de Joël Séraa (França, 1971, 102 minutos). Com Jeanne Goupil, Catherine Wagener, Bernard Dhéran e Gérard Darrieu. Colorido. Diálogos em francês, com legendas em espanhol. Exibição em DVD.

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HOBO WITH A SHOTGUN- Cuidado, o vagabundo está armado!

“Hobo With a Shotgun” surgiu inicialmente como um apêndice na brincadeira cinéfila proposta por Quentin Tarantino e Robert Rodriguez em “Grindhouse”, de criar trailers de falsos filmes exploitation. Assim como “Machete”, o trailer concebido pelo jovem, e então desconhecido diretor canadense Jason Eisener, revelou potencial para se tornar um longa-metragem. Afinal, quem não gostaria de ver um mendigo armado com uma escopeta se revoltando contra uma sociedade corrupta, fazendo justiça com as próprias mãos?

Em contrapartida a “Machete”, que no fim das contas se revelou um tímido pastiche dos filmes de ação dos anos 70 e 80, preocupando-se mais com a estética do que com a essência, “Hobo With a Shotgun” não tem vergonha de assumir aquilo que é realmente, um filme deliciosamente vagabundo, repleto de pérolas e imperfeições, e talvez, pelo seu baixo orçamento, pelo seu elenco irregular e pela empolgação desenfreada de um diretor estreante, mais sintonizado com o espírito das produções que tenta emular do que as peripécias fílmicas de Rodriguez e Tarantino.

Enquanto corria atrás de produtores dispostos a investir nas insanidades contidas em seu filme sobre um mendigo justiceiro, em 2008 Jason Eisener realizou um curta chamado “Treevenge”, uma trama de vingança em que pinheirinhos de Natal se revoltam contra os humanos promovendo um festival de atrocidades, onde nem mesmo crianças e animais de estimação escapam da fúria sanguinária das árvores. Um manifesto ecológico mais pungente do que as ingênuas mensagens de James Cameron. “Treevenge” indicava o caminho bizarro que levaria até “Hobo With a Shotgun” ao revelar o gosto do diretor pelo excesso gráfico, promovendo situações grotescas dignas de um Lucio Fulci ou de um Ruggero Deodato, e não por acaso a seqüência de abertura, onde pinheiros são cortados por brutais lenhadores, é embalada pelo tema de “Cannibal Holocausto”.

Ao assumir o papel do vagabundo com a escopeta, Rutger Hauer, o único rosto conhecido do elenco, deu ao filme o ar de integridade necessário para que o projeto fosse concretizado. Porém, qualquer presunção de estarmos diante de uma obra sisuda se perde nos minutos iniciais, quando um corpo com a cabeça decepada se transforma em um chafariz de sangue onde uma garota se banha em estado de êxtase. Uma cena que bem poderia estar em uma produção da Troma. Forasteiro numa cidade onde impera um estado de anarquia e niilismo, em que gangues assassinam pessoas por esporte no meio das ruas, enquanto a polícia corrupta se omite, o solitário mendigo resolve reagir, e munido da famigerada arma começa a eliminar a escória, de assaltantes a pedófilos, enquanto ao melhor estilo “Taxi Driver”, tenta mudar a vida de uma jovem prostituta, interpretada pela novata Molly Dunsworth. Não demora para que “The Drake”, o chefão do crime, e seus filhos psicopatas coloquem sua cabeça à prêmio.

“Hobo With a Shotgun” vai gradualmente assumindo sua identidade absurda, grotesca e hilária, investindo no gore exagerado, em cenas de ação impossíveis e situações tão bizarras, que quando nos deparamos com matadores de aluguel em armaduras medievais e até um polvo monstruoso que parece saído de um filme de Ed Wood, não nos causa estranheza, afinal esse universo foi concebido pela mente de alguém que certamente passou a adolescência assistindo muitos filmes de Lloyd Kaufman e dezenas de produções B de horror e ação dos anos 80. Em certos momentos não me causaria espanto se o Toxic Avenger surgisse em cena.

Jason Eisener conseguiu regurgitar de forma divertida, mesmo que às vezes equivocada, sua cultura cinemática composta por toda espécie de filmes insanos que viu na vida. As irregularidades são típicas de um diretor principiante, como a direção de atores, alguns excessivamente caricatos, ou a inserção desmedida de idéias malucas que nem sempre cumprem sua função, e até mesmo a fotografia (a cargo do cultuado Karin Hussain), não funciona plenamente ao abusar do contraste e da saturação; tropeços perdoáveis diante do evidente entusiasmo, e da forte presença de Rutger Hauer.

Enquanto alguns se contentam em ser mero pastiche, uma cópia raquítica de um determinado gênero de cinema, Eisener pode ser orgulhar de ter realizado um “filme vagabundo” por excelência, com todos seus defeitos e qualidades inerentes. Portanto cuidado, o vagabundo está armado!

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