Arquivo do mês: agosto 2010

ARRASTE-ME PARA O INFERNO

Após dezessete anos afastado do gênero que o revelou, o diretor Sam Raimi retorna as suas origens horríficas sem perder o frescor diabólico de suas primeiras produções. Seu envolvimento com produções milionárias como a série do Homem-Aranha, e anos lidando com a pressão mercadológica da indústria hollywoodiana, não foram o suficiente para domar inteiramente o infant terrible que gerou o clássico A Morte do Demônio, um filme de baixo orçamento que se tornou um dos símbolos do cinema de horror dos anos 80. O estilo de Raimi continua inconfundível, e apesar das inevitáveis adaptações à grande indústria, ele continua dirigindo feito uma criança entusiasmada que embarca pela primeira vez num trem fantasma.

Escrito em conjunto com seu irmão Ivan no começo dos anos 90, o roteiro de Arraste-me para o inferno foi ressuscitado da gaveta graças à independência financeira que adquiriu dirigindo a franquia do aracnídeo, o que possibilitou a criação de sua produtora, batizada sugestivamente de Ghost House. Para conceber sua mais recente investida no horror Raimi cercou-se de antigos colaboradores, como o diretor de fotografia Peter Deming (Uma Noite Alucinante), o editor Bob Murawski, e o maquiador Greg Nicotero. O resultado desta reunião soa como uma reconciliação com os antigos fãs, e uma oportunidade para que uma nova geração descubra seu estilo alucinado, que mescla com maestria humor com momentos de puro terror.

Apesar da roupagem moderna, para compor a trama de Arraste-me para o inferno, Raimi vai buscar referências em sua memória de cinéfilo fascinado pelos clássicos do horror. A maldição que envolve Christine Brown (personagem de Alison Lohman) remete ao filme A Noite do Demônio (1957), de Jacques Tourneur, a maquiavélica cigana Sylvia Ganush, interpretada pela excelente Lorna Raver, é um tipo de figura recorrente dos filmes de terror da Universal dos anos 30 e 40, os dilemas morais das personagens são típicos das histórias macabras encontradas nas HQs de Contos da Cripta e The Vault of Horror, enquanto no quesito humor, Raimi continua exercitando sua obsessão pelas gags dos 3 Patetas. Elementos referências a sua própria obra, principalmente na caracterização dos demônios, numa citação direta a série Evil Dead, reforçam a impressão de uma obra destinada aos antigos fãs.

O elemento central da trama, a maldição que recaí sobre uma jovem após ela negar um empréstimo bancário a uma velha cigana, é um veículo para o susto e a escatologia (a seqüência em que a cigana vomita vermes no rosto e na boca de Lohman é especialmente repugnante), porém suscita algo mais relevante que o simples asco. Ao negar o empréstimo para uma senhora em dificuldades por estar de olho em uma promoção no emprego, Christine Brown assume a responsabilidade pelos seus atos. Raimi, como já havia feito em Um Plano Simples (1998), volta a criticar a ambição desmedida, tratando-a como a raiz de todo mal. Portanto, o inferno que se abate sobre Christine é de sua inteira responsabilidade, e cabe a ela saber lidar e aprender com está situação inusitada. Apesar de economizar no sangue, um reflexo de seu envolvimento com a grande indústria, Raimi burla esta falta com excesso de outros fluídos corporais e nojeiras diversas, enquanto resta ao público apertar o cinto e embarcar neste infernal trem fantasma.

Arraste-me para o inferno / Drag me to hell / E.U.A/ 2009

Dir: Sam Raimi

Com: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, Adriana Barraza

6 Comentários

Arquivado em Horror, Humor

VASTAS EMOÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS: Fragmentos de Cinema e Intertextualidade No Romance de Rubem Fonseca.

I. ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT

O parágrafo inicial do romance, “Vastas Emoções E Pensamentos Imperfeitos”, define em poucas palavras, não apenas a instabilidade física e emocional da personagem principal, como resume perfeitamente toda a obra de Rubem Fonseca. Ao narrar com sua peculiar crueza, (Fonseca.1988, p.7)  “Acordei tentando me segurar desesperadamente, tudo girava em torno de mim enquanto eu caía sem controle num abismo sem fundo” , o autor nos faz lembrar que toda a sua obra consiste em deparar o homem com os seus abismos.

Mineiro de Juiz de fora, José Rubem Fonseca especializou-se em confrontar os abismos da natureza humana. Formado em direito, ainda nos anos cinqüenta ele iniciou carreira policial, onde atuou como comissário por oito anos. No serviço policial ele especializou-se em psicologia criminal, e

Rubem Fonseca

deparou-se com situações degradantes, onde a pior faceta do ser humano revelava-se despida de qualquer pudor. Essa experiência marcou profundamente a sua carreira literária, e espelha-se em dezenas de seus personagens. Fonseca criou uma verdadeira galeria de anti-heróis, repleta de homens brutos, mulheres etéreas, seres anônimos. Homens e mulheres são substantivos comuns que passeiam por contos, romances e roteiros cinematográficos, sem qualquer julgamento moral, atraídos por atividades ilícitas, envoltos em crises existências e prisioneiros de um latente niilismo. Seus personagens são retratados através de uma narrativa crua, de tom brutal e aspectos policialescos. Eles agem conforme sua natureza, numa linguagem sintética, onde o autor extrapola e inova sintática e estilisticamente, criando signos e se organizando através de uma semiologia própria. Em seu primeiro livro, “Os Prisioneiros”, já era visível uma inconformidade em relação ao estilo, com contos que passavam rapidamente do aspecto formal ao puro experimentalismo, fato que progrediria nos trabalhos seguintes, “A Coleira do Cão” e “Lucia MacCartney”, mas que ficaria mais contido em seus romances, como por exemplo, “O Caso Morel” e “Bufo & Spallanzani”.

Em seus romances, a verve experimental é contida em relação ao estilo, mas ainda incômoda quanto aos temas abordados, onde a crueldade humana continua sendo o mote principal. Durante os anos setenta, no auge da ditadura militar, alguns de seus livros sofreram duramente com a censura. Livros como “O Cobrador” e “Feliz Ano Novo” abordavam temas tabus em tempos de “silêncio”, pois a violência retratada, tanto física como psicológica, podia ser interpretada como reflexo de uma sociedade doente em suas raízes políticas, sociais e religiosas. Fato inadmissível para um governo ditatorial que jogava uma cortina de fumaça sobre  uma sociedade corrompida e amoral.

Rubem Fonseca parece não se importar com máxima latina, “abyssus abyssum invocat.” (o abismo chama o abismo), e a cada nova obra ele continua a exercitar suas obsessões literárias, sem medo de ser tragado pelo abismo de sua própria arte.

II. VASTAS EMOÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS: Fragmentos de Cinema e Intertextualidade

Autor contemporâneo às teorias literárias formuladas na efervescência dos anos 1960, época em que Jauss expôs sua “Estética da Recepção”, e Derrida e os pós-estruturalistas divulgavam suas teorias desconstrutivistas, Fonseca faz parte de uma geração de autores brasileiros que se distanciaram das propostas “realistas engajadas”, que proliferaram em nossa literatura desde 1930, optando por uma visão niilista e cínica da representação do que chamamos de realidade. “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”, é uma declaração apaixonada de um autor dividido entre dois grandes amores, o cinema e a literatura. Seu texto, repleto de referências literárias e cinematográficas, do acadêmico ao pop, vêm influenciado por uma gama de teorias pós-estruturalistas que floresceram nas últimas décadas do século XX.

Um diretor de cinema inesperadamente se vê envolvido em uma trama complexa e intrigante, recheada de mortes, roubos de diamantes, auto conhecimento, e obsessões literárias e cinematográficas. A trama narra a busca desenfreada de um homem por um sentido pleno de existência, uma odisséia insana em que o passado precisa ser esquecido, feridas curadas e o mundo compreendido, mesmo que para isso ele precise descer ao inferno para obter respostas, que talvez nunca satisfaçam suas dúvidas . Nesta viagem turbulenta ele precisa lidar com a ambigüidade de seu caráter e as conseqüências de seus atos.

O personagem principal soma-se a vasta galeria de anônimos criados pelo autor. Sua identidade nunca é citada explicitamente, é apresentada para o leitor de forma difusa, como se fosse uma personalidade tão tarimbada que apresentá-la seria algo redundante. Ele é identificado apenas como um conhecido cineasta, elogiado pelo seu primeiro longa metragem, chamado “Guerra Santa”, supostamente baseado em “Os Sertões” de Euclides da Cunha.  O personagem parece emular Glauber Rocha e outros “cinemanovistas”, em uma busca estéril por um cinema genuinamente nacional.

A trama segue dois pontos centrais, que correm paralelamente e corrompem a suposta normalidade cotidiana do personagem. Um dos pontos é apresentado logo nas primeiras páginas, quando a personagem , ao mudar-se de apartamento para tentar esquecer uma tragédia recente, dá abrigo a uma desconhecida, chamada Angélica Maldonado. Angélica passa a noite, e vai embora pela manhã deixando um pacote suspeito, e um bilhete de que voltaria para buscá-lo. Alguns dias depois o cineasta lê nos jornais sobre a morte de Angélica e resolve abrir o pacote, que descobre portar pedras preciosas. Repentinamente ele se encontra com uma fortuna nas mãos e envolvido com contrabandistas de pedras preciosas, que passam a persegui-lo.

O segundo ponto crítico ocorre quando um produtor alemão chamado Plessner o convida para filmar na Alemanha uma adaptação do livro “A Cavalaria Vermelha” do escritor russo Isaak Bábel. O cineasta aproveita a oportunidade para sair do país e fugir dos contrabandistas, mas acaba envolvido em outra trama perigosa.

Ele se torna obcecado pela obra do escritor russo, e envolve-se em uma obscura missão. Aceita a proposta do produtor Plessner, de resgatar da Alemanha Oriental um suposto manuscrito inédito de Bábel. A sua obsessão o leva a trapacear Plessner e retornar ao Brasil com o valioso manuscrito. Sua atitude refletirá em conseqüências desastrosas que revelarão verdades sobre si mesmo.

A trama é um grande quebra cabeças em que Fonseca declara seu amor ao cinema e a literatura, num intrínseco exercício de intertextualidade. A obra assemelha-se aos filmes “noir” dos anos quarenta, especialmente a “Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon / 1941) de John Huston, em que o detetive representado por Humphrey Bogart se envolve com

Fetiche Noir

contrabandistas de jóias. Essa alusão também esta presente na caracterização de um dos vilões da trama, que insiste em usar um sobretudo (acessório típico do universo dos filmes noir), mesmo no calor escaldante do Rio de Janeiro. Fonseca também faz uma ponte direta com os livros “pulp” de Raymond Chandler, repletos de “femmes fatales” e personagem ambíguos.        São também inúmeras as referências a obra do diretor inglês Alfred Hitchcock. Em determinado momento da trama, Fonseca faz uma homenagem explicita ao filme “Intriga Internacional” (North by North West / 1959). O cineasta e uma de suas namoradas armam uma confusão em um restaurante para chamar a atenção da policia e confundir os vilões, o mesmo método utilizado no filme pelo ator Cary Grant, só que invés de um restaurante, o cenário é um leilão.

A veia cinéfila de Fonseca, que foi critico de cinema nos anos 1960, pulsa a cada momento com citações e referências a grandes cineastas como Orson Welles, Max Ophuls, Stanley Kubrick, Ingmar Berman, Win Wenders, Rainer Fassbinder, entre outros. Em determinado momento numa espécie de confissão e exercício de metalinguagem, Fonseca fala através do personagem Plessner. (Fonseca.1988. pág.131). “Pouco dinheiro em cinema é sempre muito dinheiro….você não tem inveja dos escritores? Para criar um livro eles gastam apenas papel e tempo, os personagens todos trabalham de graça, fazem coisas que os atores de cinema não saberiam fazer, ou se recusariam a fazer. Produzem as cenas mais custosas gastando apenas palavras”. Fonseca tem vários roteiros cinematográficos desenvolvidos, e alguns projetos engavetados, justamente pelo aspecto financeiro

A curiosa obsessão do personagem principal pela obra de Isaac Bábel, um autor russo praticamente desconhecido dos leitores brasileiros, é o contra ponto do seu lado cinéfilo, é o apelo da paixão literária, da palavra, do desafio da escrita em oposição à imagem em movimento. Bábel buscava como escritor a concisão, o termo exato, sem rebuscamentos ou palavras desnecessárias. Não era um formalista radical, mas prezava a economia das palavras na busca de um equilíbrio entre o lírico e o irônico, assim com o personagem de Fonseca, que também busca acima de tudo, o equilíbrio para a sua vertiginosa vida.

As personagens coadjuvantes da trama vão do sublime ao grotesco, fornecendo até mesmo aspectos surrealistas a obra, como o vilão Alcobaça, que sofre de uma estranha doença que tem como único antídoto consumir pó de diamantes. Áureo de Negromonte, um carnavalesco decadente, que tem como único prazer na vida desfilar em frustrantes bailes de carnaval. Liliana, uma das inúmeras namoradas do protagonista. Ela é jovem, mas demonstra um eruditismo complexo para sua pouca idade. Boris Gurian, um personagem fantástico; judeu, sobrevivente do holocausto, alcoólatra, e uma vida dedicada aos livros. José, irmão do protagonista, um pastor televisivo, repleto de ganância e veneno. Mauricio, um amigo nada confiável. E por fim, Ruth, a esposa falecida. Ruth vai sendo revelada aos poucos, em flashbacks e rápidas inserções. O seu suicídio causa uma mudança drástica na vida do protagonista, desencadeando uma crise existencial de conseqüências catastróficas.

O grande trunfo da obra é explorar e transcender as possibilidades de um romance policial, num exercício repleto de intertextualidade, que nos joga em um mundo, em que nos deparamos, sem julgamentos, com as clássicas distorções do caráter humano (cobiça, individualismo, sadismo). Enfim, um mundo repleto de “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”.

7 Comentários

Arquivado em Literatura, Noir, Teoria de botequim, Thriller

C’ERA UNA VOLTA NEGLI ANNI SESSANTA

No caos sensorial e imagético de minhas lembranças de infância, alguns elementos despertam com força a minha memória afetiva. Por exemplo, a música tema de “O Dólar Furado” (Un Dollaro Bucato), composta por Gianni Ferrio, sempre é capaz de despertar em mim uma saudável melancolia, remetendo ao período em que eu era apenas um menino deslumbrado descobrindo o velho oeste… através do cinema é claro. E como qualquer criança, nesta fase de encantamento com o gênero pouco importava discernir os westerns entre tradicionais e spaguettis, entre John Ford e Sergio Leone, ou diferenciar o Death Valley de algum canto da Almeria, tudo era simplesmente bang bang, e o importante era se divertir na frente da televisão trocando tiros de espoleta com índios e vilões imaginários. O ator Giuliano Gemma é uma destas figuras indissociáveis da minha infância, junto com John Wayne, Terence Hill e tantos outros cowboys que ainda cavalgam e duelam em minha memória. O youtube tem sido uma mina de ouro para os saudosistas, e o vídeo abaixo é particularmente emocionante para qualquer fã de western spaguetti. Giuliano Gemma em 1967, lançando o filme E Por Teto Um Céu de Estrelas, de Giulio Petroni num programa da TV italiana apresentado pela cantora Rita Pavone. Gemma exibe todo o seu talento e carisma, comprovando o porquê de seu status de ídolo popular na Itália dos anos 1960.

Aqui um belo texto do Felipe Guerra sobre o filme de Giulio Petroni:

http://filmesparadoidos.blogspot.com/2009/11/e-per-tetto-un-cielo-di-stelle-1968.html

5 Comentários

Arquivado em Entrevista, western spaghetti