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HORROR E ESTÉTICA TRASH: UMA AULA SOBRE TRANSGRESSÕES CINEMATOGRÁFICAS

“Horror e Estética Trash no Cinema Independente: Um Panorama de Transgressões”. Divine numa das cenas mais emblemáticas e polêmicas de Pink Flamingos (1972), de John Waters

No último dia 20, aceitando o generoso convite da sensacional Gabriela Almeida, tive o prazer de novamente ministrar uma aula para os alunos do curso de audiovisual da ULBRA. A minha aula,”Horror e Estética Trash no Cinema Independente: Um Panorama de Transgressões”, (intitulei com esse nome acadêmico bonito para parecer que sou uma pessoa séria), também poderia se chamar “O Cinema Como Arma Para Deturpar a Mente de Seus Alunos”. Foi uma manhã divertida onde pude trocar idéias sobre cinema independente, esclarecer algumas diferenças entre gênero e estética no horror, e exercitar um pouco a provocação cinematográfica exibindo trechos de filmes como “Pink Flamingos”, “Multiple Maniacs”, “Robot Monster”, “Blood Freak”, “Plan 9 From Outer Space”, “I Drink Your Blood”, entre outras pérolas do bom cinema ruim. A reação dos alunos diante de alguns dos filmes foram do riso ao total desconforto (principalmente por parte das pessoas que desconheciam o trabalho de John Waters), mas esse estranhamento de uma parte da classe era justamente a motivação de minha aula, pois creio que o cinema que importa se produz fora da zona de conforto. Agradeço mais uma vez a professora Gabriela pelo convite, apenas espero não ter estragado definitivamente a cabeça de seus alunos, acho que veremos a curto prazo os efeitos colaterais desta aula. E como diriam os The Cramps…stay sick!

Ministrando a aula “Horror e Estética Trash no Cinema Independente: Um Panorama de Transgressões”, para os alunos do Curso de Audiovisual da ULBRA

Com a professora de cinema da ULBRA Gabriela Almeida

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DESCONECTE-SE E ABRA UM LIVRO- DICA N°1: FRANZ KAFKA

FRANZ KAFKA (1883-1924)

KAFKA E O MARAVILHOSO

Nascido em Praga em 1883, o escritor tcheco Franz Kafka foi um dos responsáveis pela ruptura estética que influenciaria toda uma geração de escritores e estabeleceria novos conceitos em relação ao “fantástico” e ao “maravilhoso”. Obras seminais como “O Processo”, “A América”, “O Castelo” e “A Metamorfose” foram de suma importância para a elaboração de uma nova estética, que fomentaria novos questionamentos em relação à teoria literária contemporânea.

Em “A Metamorfose”, Kafka narra a patética trajetória de Gregor Samsa, um homem comum que certa manhã acorda metamorfoseado em um inseto. A situação inusitada, inicialmente causa pavor, mas em seguida recai em um estado de total normalidade. É exatamente nesse ponto que a obra difere do conceito idealizado do “fantástico” para entrar no reino do “maravilhoso”. Kafka não causa estranheza ao meio em que insere suas tramas.

O fato de uma pessoa transformar-se repentinamente em um inseto monstruoso, a principio causa espanto, mas não gera o horror e a perplexidade que são comuns as obras fantásticas. A experiência

é rapidamente assimilada após o choque inicial, para em seguida inserir-se num contexto de normalidade. O bizarro e o absurdo tomam proporções apenas banais e integram-se perfeitamente ao cotidiano dos personagens. Assim Gregor Samsa aceita gradualmente a sua condição de inseto, como sua família habitua-se a sua estranha presença e ao fato inusitado, resignando-se a levar uma vida normal. O leitor por sua vez, também é obrigado a aceitar tal situação sem questionar a racionalidade dos fatos, pois o universo do “maravilhoso” não aceita tais questionamentos, a não ser os da lógica interna do próprio texto.

O filósofo grego Aristóteles, com seus rígidos conceitos sobre a produção de uma “arte verossímil”, já dissertava sobre a coerência interna de uma obra: “Ainda que o personagem a apresentar não seja coerente nas suas ações, é necessário, todavia, que (no drama) ele seja incoerente, coerentemente”.

A obra “fantástica” segundo Irene Bessiere se desenvolve através da “desconstrução de um verossímil de origem religiosa pelo jogo de uma racionalidade suposta comum ao sujeito e ao mundo”, ou seja, o homem deparado com uma situação tão incomum a sua realidade que pode desencadear uma reação de horror e conflito, coloca-se então no âmbito do “fantástico”.

O “maravilhoso” refere-se justamente ao texto em que a irracionalidade não causa “choque” e “torpor”, como o fato de a família de Samsa encarar com naturalidade a sua metamorfose. Em seu ensaio “Unheimlich”,  Sigmund Freud faz uma clara distinção entre ambos, em certo trecho comenta: “A situação altera-se tão logo o escritor pretenda mover-se no mundo da realidade comum. Nesse caso, ele aceita também todas as condições que operam para produzir sentimentos estranhos na vida real, e tudo o que teria um efeito estranho na realidade, o tem na sua história”.

Essa citação de Freud nos faz compreender que no “maravilhoso” tudo é possível, pois estamos adentrando em um universo com uma lógica interna que obedece apenas as suas próprias regras.

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1984- GEORGE ORWELL E A SUBVERSÃO DA UTOPIA

Perpetuada através de pensadores tão dispares quanto Campanella, Saint-Simon e Fourier, a corrente utópica de pensamento, surgida em 1516 com a seminal obra “A Utopia”, de Thomas Morus, encontraria em meados do século XX um curioso contraponto em obras como “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, e principalmente em “1984”, do escritor inglês George Orwell.

Enquanto a idéia utopista clássica idealiza, em sua essência, uma sociedade regida por valores que enaltecem a liberdade, a igualdade e a justiça, em seu romance “1984”, Orwell, ainda atormentado pelas sombras do nazi fascismo,

George Orwell

e pela força do Stalinismo, orquestra uma visão aterradora do futuro, onde um governo totalitário controla o povo, oprimindo com brutalidade, manipulando a verdade e suprimindo qualquer espécie de pensamento libertário. Sobre o futuro, Orwell revela seu parecer através da fala de uma de suas personagens: “Se quer uma visão do futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano para sempre”. O romance foi levado para as telas pela primeira vez em 1956, dirigido por Michael Anderson, mas a versão mais fiel foi realizada simbolicamente em 1984 por Michael Radford, com as presenças marcantes de John Hurt, no papel de Winston Smith, o homem massacrado sistematicamente pelo poder do estado, e Richard Burton, como O’Brien, o homem frio e metódico que se propõe a ser uma ferramenta a serviço da opressão.

Este olhar amargo e pessimista com relação ao futuro, gera o que convencionamos chamar de “contra-utopia”, ou seja, uma subversão dos valores propostos por Thomas Morus. A sociedade arquitetada por Orwell sofre de um processo de diluição do indivíduo em prol de uma coletividade acéfala, controlada por uma entidade (o estado) quase onipresente conhecida como “Big Brother”. Os conflitos ideológicos iniciados no século XIX com o advento do marxismo, resultaram numa proliferação de utopias e ideologias, conservadoras, liberais e anárquicas, que tiveram como efeito colateral a ascensão de sistemas ditatoriais no século XX. O filósofo Paul Ricoeur, em seu ensaio “Ideologia e Utopia”, cita a “utopia humanitária liberal”, assim classificada por Mannhein, e aponta: “Esta forma é utópica na medida em que nega, e por vezes muito ingenuamente, as fontes reais do poder, na propriedade, no dinheiro, na violência e em todos os tipos de forças não intelectuais. Dá exagerada ênfase ao poder da inteligência para formar e moldar”. Orwell não subestima o poder da violência, da eficácia das baionetas em calar vozes e apagar idéias, e sustenta de forma imperativa em seu romance: “Poder significa estraçalhar a mente humana e reconstituí-la dentro do seu molde”.

Este humanitarismo “ingênuo”, esta fé utópica num futuro repleto de oportunidades, onde os valores intelectuais teriam suma importância na construção de uma sociedade mais justa, podem ser constatados em um Brasil pré-ditatorial, em que o progresso e a democracia semeavam a esperança de uma nação rica e igualitária, então, em março de 1962, o golpe de estado imposto pelo regime militar transformou o país em uma capítulo sombrio, que poderia constar de algum livro de Orwell. Um processo de reforma instaurou-se no país, não tão radical, mas tão danoso quanto os que ocorreram em países como a China, Russia ou a Alemanha. O sistema de reeducação apresentado por Orwell em seu romance, em que o passado histórico é gradualmente destruído ou modificado é completamente devastador. Apagar o passado de um povo afeta diretamente sua identidade cultural, e um povo sem identidade torna-se um barro sem vida, pronto para ser modelado. Porém, sabidamente militares brasileiros usaram de artimanhas dignas de Maquiavel para controlar a sociedade, da força bruta passando pelo cerceamento da liberdade de expressão, até a manipulação da propaganda, inculcando na sociedade um espírito ufanista que pode explicar, em parte, o apoio civil à intervenção militar. Os mesmos métodos foram utilizados com sucesso durante o regime nazista alemão, e foram uma inspiração na composição da figura controladora de “Big Brother”.

Segundo Saint-Simon: “A ideologia é sempre uma tentativa de legitimar o poder, ao passo que a utopia é sempre uma tentativa de substituir o poder por outra coisa qualquer”. Ambas, no entanto, almejam de uma forma ou outra o poder, e esta é palavra chave sob a qual tudo gira no romance de Orwell, catalisando ações e gerando conseqüências irreversíveis no espírito humano.

Escrito em 1949, curiosamente o pesadelo de um escritor antecipou o advento da televisão como veículo de manipulação, e previu aberrações ideológicas como a caça as bruxas do Macartismo, e as barbaridades cometidas nas ditaduras sul americanas. Ao subverter as propostas utópicas Orwell nos legou um exercício de reflexão sobre a liberdade e a natureza humana, e a importância do indivíduo, ele só não previu que uma de suas criações, um estandarte da intolerância chamado “Big Brother”, seria despido de sua simbologia original para tornar-se um símbolo da mediocridade televisiva; porém, indiretamente acertou com relação ao poder de alienação da mesma.

 

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VASTAS EMOÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS: Fragmentos de Cinema e Intertextualidade No Romance de Rubem Fonseca.

I. ABYSSUS ABYSSUM INVOCAT

O parágrafo inicial do romance, “Vastas Emoções E Pensamentos Imperfeitos”, define em poucas palavras, não apenas a instabilidade física e emocional da personagem principal, como resume perfeitamente toda a obra de Rubem Fonseca. Ao narrar com sua peculiar crueza, (Fonseca.1988, p.7)  “Acordei tentando me segurar desesperadamente, tudo girava em torno de mim enquanto eu caía sem controle num abismo sem fundo” , o autor nos faz lembrar que toda a sua obra consiste em deparar o homem com os seus abismos.

Mineiro de Juiz de fora, José Rubem Fonseca especializou-se em confrontar os abismos da natureza humana. Formado em direito, ainda nos anos cinqüenta ele iniciou carreira policial, onde atuou como comissário por oito anos. No serviço policial ele especializou-se em psicologia criminal, e

Rubem Fonseca

deparou-se com situações degradantes, onde a pior faceta do ser humano revelava-se despida de qualquer pudor. Essa experiência marcou profundamente a sua carreira literária, e espelha-se em dezenas de seus personagens. Fonseca criou uma verdadeira galeria de anti-heróis, repleta de homens brutos, mulheres etéreas, seres anônimos. Homens e mulheres são substantivos comuns que passeiam por contos, romances e roteiros cinematográficos, sem qualquer julgamento moral, atraídos por atividades ilícitas, envoltos em crises existências e prisioneiros de um latente niilismo. Seus personagens são retratados através de uma narrativa crua, de tom brutal e aspectos policialescos. Eles agem conforme sua natureza, numa linguagem sintética, onde o autor extrapola e inova sintática e estilisticamente, criando signos e se organizando através de uma semiologia própria. Em seu primeiro livro, “Os Prisioneiros”, já era visível uma inconformidade em relação ao estilo, com contos que passavam rapidamente do aspecto formal ao puro experimentalismo, fato que progrediria nos trabalhos seguintes, “A Coleira do Cão” e “Lucia MacCartney”, mas que ficaria mais contido em seus romances, como por exemplo, “O Caso Morel” e “Bufo & Spallanzani”.

Em seus romances, a verve experimental é contida em relação ao estilo, mas ainda incômoda quanto aos temas abordados, onde a crueldade humana continua sendo o mote principal. Durante os anos setenta, no auge da ditadura militar, alguns de seus livros sofreram duramente com a censura. Livros como “O Cobrador” e “Feliz Ano Novo” abordavam temas tabus em tempos de “silêncio”, pois a violência retratada, tanto física como psicológica, podia ser interpretada como reflexo de uma sociedade doente em suas raízes políticas, sociais e religiosas. Fato inadmissível para um governo ditatorial que jogava uma cortina de fumaça sobre  uma sociedade corrompida e amoral.

Rubem Fonseca parece não se importar com máxima latina, “abyssus abyssum invocat.” (o abismo chama o abismo), e a cada nova obra ele continua a exercitar suas obsessões literárias, sem medo de ser tragado pelo abismo de sua própria arte.

II. VASTAS EMOÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS: Fragmentos de Cinema e Intertextualidade

Autor contemporâneo às teorias literárias formuladas na efervescência dos anos 1960, época em que Jauss expôs sua “Estética da Recepção”, e Derrida e os pós-estruturalistas divulgavam suas teorias desconstrutivistas, Fonseca faz parte de uma geração de autores brasileiros que se distanciaram das propostas “realistas engajadas”, que proliferaram em nossa literatura desde 1930, optando por uma visão niilista e cínica da representação do que chamamos de realidade. “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”, é uma declaração apaixonada de um autor dividido entre dois grandes amores, o cinema e a literatura. Seu texto, repleto de referências literárias e cinematográficas, do acadêmico ao pop, vêm influenciado por uma gama de teorias pós-estruturalistas que floresceram nas últimas décadas do século XX.

Um diretor de cinema inesperadamente se vê envolvido em uma trama complexa e intrigante, recheada de mortes, roubos de diamantes, auto conhecimento, e obsessões literárias e cinematográficas. A trama narra a busca desenfreada de um homem por um sentido pleno de existência, uma odisséia insana em que o passado precisa ser esquecido, feridas curadas e o mundo compreendido, mesmo que para isso ele precise descer ao inferno para obter respostas, que talvez nunca satisfaçam suas dúvidas . Nesta viagem turbulenta ele precisa lidar com a ambigüidade de seu caráter e as conseqüências de seus atos.

O personagem principal soma-se a vasta galeria de anônimos criados pelo autor. Sua identidade nunca é citada explicitamente, é apresentada para o leitor de forma difusa, como se fosse uma personalidade tão tarimbada que apresentá-la seria algo redundante. Ele é identificado apenas como um conhecido cineasta, elogiado pelo seu primeiro longa metragem, chamado “Guerra Santa”, supostamente baseado em “Os Sertões” de Euclides da Cunha.  O personagem parece emular Glauber Rocha e outros “cinemanovistas”, em uma busca estéril por um cinema genuinamente nacional.

A trama segue dois pontos centrais, que correm paralelamente e corrompem a suposta normalidade cotidiana do personagem. Um dos pontos é apresentado logo nas primeiras páginas, quando a personagem , ao mudar-se de apartamento para tentar esquecer uma tragédia recente, dá abrigo a uma desconhecida, chamada Angélica Maldonado. Angélica passa a noite, e vai embora pela manhã deixando um pacote suspeito, e um bilhete de que voltaria para buscá-lo. Alguns dias depois o cineasta lê nos jornais sobre a morte de Angélica e resolve abrir o pacote, que descobre portar pedras preciosas. Repentinamente ele se encontra com uma fortuna nas mãos e envolvido com contrabandistas de pedras preciosas, que passam a persegui-lo.

O segundo ponto crítico ocorre quando um produtor alemão chamado Plessner o convida para filmar na Alemanha uma adaptação do livro “A Cavalaria Vermelha” do escritor russo Isaak Bábel. O cineasta aproveita a oportunidade para sair do país e fugir dos contrabandistas, mas acaba envolvido em outra trama perigosa.

Ele se torna obcecado pela obra do escritor russo, e envolve-se em uma obscura missão. Aceita a proposta do produtor Plessner, de resgatar da Alemanha Oriental um suposto manuscrito inédito de Bábel. A sua obsessão o leva a trapacear Plessner e retornar ao Brasil com o valioso manuscrito. Sua atitude refletirá em conseqüências desastrosas que revelarão verdades sobre si mesmo.

A trama é um grande quebra cabeças em que Fonseca declara seu amor ao cinema e a literatura, num intrínseco exercício de intertextualidade. A obra assemelha-se aos filmes “noir” dos anos quarenta, especialmente a “Relíquia Macabra” (The Maltese Falcon / 1941) de John Huston, em que o detetive representado por Humphrey Bogart se envolve com

Fetiche Noir

contrabandistas de jóias. Essa alusão também esta presente na caracterização de um dos vilões da trama, que insiste em usar um sobretudo (acessório típico do universo dos filmes noir), mesmo no calor escaldante do Rio de Janeiro. Fonseca também faz uma ponte direta com os livros “pulp” de Raymond Chandler, repletos de “femmes fatales” e personagem ambíguos.        São também inúmeras as referências a obra do diretor inglês Alfred Hitchcock. Em determinado momento da trama, Fonseca faz uma homenagem explicita ao filme “Intriga Internacional” (North by North West / 1959). O cineasta e uma de suas namoradas armam uma confusão em um restaurante para chamar a atenção da policia e confundir os vilões, o mesmo método utilizado no filme pelo ator Cary Grant, só que invés de um restaurante, o cenário é um leilão.

A veia cinéfila de Fonseca, que foi critico de cinema nos anos 1960, pulsa a cada momento com citações e referências a grandes cineastas como Orson Welles, Max Ophuls, Stanley Kubrick, Ingmar Berman, Win Wenders, Rainer Fassbinder, entre outros. Em determinado momento numa espécie de confissão e exercício de metalinguagem, Fonseca fala através do personagem Plessner. (Fonseca.1988. pág.131). “Pouco dinheiro em cinema é sempre muito dinheiro….você não tem inveja dos escritores? Para criar um livro eles gastam apenas papel e tempo, os personagens todos trabalham de graça, fazem coisas que os atores de cinema não saberiam fazer, ou se recusariam a fazer. Produzem as cenas mais custosas gastando apenas palavras”. Fonseca tem vários roteiros cinematográficos desenvolvidos, e alguns projetos engavetados, justamente pelo aspecto financeiro

A curiosa obsessão do personagem principal pela obra de Isaac Bábel, um autor russo praticamente desconhecido dos leitores brasileiros, é o contra ponto do seu lado cinéfilo, é o apelo da paixão literária, da palavra, do desafio da escrita em oposição à imagem em movimento. Bábel buscava como escritor a concisão, o termo exato, sem rebuscamentos ou palavras desnecessárias. Não era um formalista radical, mas prezava a economia das palavras na busca de um equilíbrio entre o lírico e o irônico, assim com o personagem de Fonseca, que também busca acima de tudo, o equilíbrio para a sua vertiginosa vida.

As personagens coadjuvantes da trama vão do sublime ao grotesco, fornecendo até mesmo aspectos surrealistas a obra, como o vilão Alcobaça, que sofre de uma estranha doença que tem como único antídoto consumir pó de diamantes. Áureo de Negromonte, um carnavalesco decadente, que tem como único prazer na vida desfilar em frustrantes bailes de carnaval. Liliana, uma das inúmeras namoradas do protagonista. Ela é jovem, mas demonstra um eruditismo complexo para sua pouca idade. Boris Gurian, um personagem fantástico; judeu, sobrevivente do holocausto, alcoólatra, e uma vida dedicada aos livros. José, irmão do protagonista, um pastor televisivo, repleto de ganância e veneno. Mauricio, um amigo nada confiável. E por fim, Ruth, a esposa falecida. Ruth vai sendo revelada aos poucos, em flashbacks e rápidas inserções. O seu suicídio causa uma mudança drástica na vida do protagonista, desencadeando uma crise existencial de conseqüências catastróficas.

O grande trunfo da obra é explorar e transcender as possibilidades de um romance policial, num exercício repleto de intertextualidade, que nos joga em um mundo, em que nos deparamos, sem julgamentos, com as clássicas distorções do caráter humano (cobiça, individualismo, sadismo). Enfim, um mundo repleto de “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”.

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