Arquivo do mês: janeiro 2012

ARRIVEDERCI AMICI!

Os leitores deste humilde blog sabem de minha paixão patológica pelo cinema italiano, mais especificamente pelos seus subgêneros, portanto meus interesses estão mais focados em nomes como Leone, Sergio Martino, Fernando Di Leo, Lucio Fulci, Dario Argento e Ruggero Deodato, do que em Fellini, Tornatore, Bertolluci ou De Sica. Claro que também adoro o cinema de arte italiano, mas em mim estes realizadores  funcionam em outra freqüência, não causando o mesmo frenesi dos diretores exploitation. Quando penso sobre  o cinema italiano, os termos que surgem automaticamente em minha mente são giallo, spaghetti westerns, filmes de canibais e pepluns, gêneros mortos na claudicante cinematografia contemporânea italiana. O fato é que essa paixão por um cinema que já foi tão rico, complexo e diversificado, aguçou ainda mais a minha curiosidade em conhecer o país de meus bisavós. Estou de partida para uma temporada na velha Itália, um retorno as raízes de minha família e um mergulho em busca de minhas obsessões cinematográficas. Sempre que possível contarei aqui sobre demônios e maravilhas que por lá encontrar. Arrivederci, amici!

 

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KILL LIST

Existe algo de estranho na composição de Kill List, uma nota dissonante que fica ecoando morbidamente em nossa cabeça após seu desfecho. Essa nota encontra-se em sua estranheza narrativa, em suas elipses, e em sua crueza visual, que culminam num hermetismo engenhosamente arquitetado onde a monotonia inicial transforma-se num crescente de horror e brutalidade.

O diretor inglês Ben Wheatley não tem pressa na construção da trama, investindo de forma pouco convencional na apresentação do mote central. Apesar de a atmosfera tensa indicar a todo instante que algo de muito ruim irá ocorrer, interferindo e esfacelando a vida aparentemente medíocre das personagens, é difícil antecipar os passos da história. O roteiro dá margem para o improviso dos atores enquanto investe no drama cotidiano de um lar prestes a ruir. A improvisação é nítida em algumas situações, provocando uma química tensa e funcional entre os atores, algo que o aproxima estranhamente do cinema de Mike Leigh.

Desempregado e com as finanças no vermelho, Jay (Neil Maskell) vive em conflito com a esposa Shel (MyAnna Buring), sob os olhos apreensivos do pequeno filho do casal. Quando o amigo Sam (Harry Simpson) aparece para jantar, trazendo consigo uma garota estranha e a proposta de um novo trabalho, a normalidade começa a dar lugar ao estranhamento. Jay não é apenas um simples pai de família com dificuldades financeiras, mas também um matador de aluguel repleto de demônios interiores. Ao aceitar o novo serviço, recebe de um contratante misterioso uma lista contendo três nomes para serem eliminados. A tarefa, planejada para ser simples e limpa, acaba tomando um rumo bizarro e brutal quando Jay e Sam se vêem enredados com uma seita pagã repleta de intenções enigmáticas. Uma seqüência específica envolvendo um martelo e uma cabeça esmigalhada demonstra como a situação foge completamente de controle.

Quando o paganismo surge em cena, justificando uma simbologia que a princípio nos é apresentada de forma vaga e aleatória nas entrelinhas da narrativa, Kill List se aproxima de um tema tradicional no horror clássico inglês, que já nos concedeu pérolas como O Homem de Palha (1973), de Robin Hardy e The Witches (1966), de Cyril Frankel. Enquanto O Homem de Palha é a referência cinematográfica mais pulsante, também é notável as semelhanças, em essência, não em estrutura, com o conto O Monarca do Vale, de Neil Gaiman, contido no primeiro volume de Coisas Frágeis. O diretor Ben Wheatley negou-se a mastigar para o público suas intenções, exigindo um certo nível de conhecimento intertextual para a apreciação de seu desfecho. O cinema inglês foi pródigo em utilizar seitas pagãs como representação de um mal secular que permanece enraizado de forma silenciosa no coração da sociedade, afrontando com seus rituais a racionalidade do mundo moderno, e principalmente os valores impostos pela cristandade. Alguns poderão acusar a seqüência final de ser um confuso artifício com a simples intenção de chocar, e muitos irão fazer associações diretas com o controverso A Serbian Film , porém seu desfecho, amparado na simbologia e na crueldade dos  mitos pagãos, está longe da gratuidade, e pode mais incomodar do que instigar os adeptos do horror fácil, e talvez seja esse hermetismo que o torne tão perturbador e fascinante.

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Arquivado em gore, Horror, splatter, Suspense, Thriller