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A VINGANÇA DOS FILMES B-PARTE 3

A VINGANÇA DOS FILMES B- PARTE 3

“A vingança nunca é plena…mas pode ser divertida”

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 De 13 a 15 de dezembro a Sala P.F.Gastal (3° andar da Usina do Gasômetro) sedia a terceira edição da mostra A Vingança dos Filmes B. Concebida em 2011 para servir de vitrine para produções que flertam com o cinema de gênero, a mostra chega ao seu terceiro ano consecutivo se consolidando como um território destinado a divulgação e ao resgate de filmes independentes, produções de baixo orçamento e outros delírios fílmicos, buscando incentivar o público a dialogar com obras que dificilmente encontram espaço nas telas dos cinemas comerciais. Filmes repletos de horror, ação, anarquia, humor e demência, ocupando um mesmo espaço sem restrições quanto ao seu orçamento ou suporte de realização.

O filme de abertura desta edição será o documentário Desagradável, produção que retrata a conturbada trajetória da mítica banda carioca Gangrena Gasosa e sua explosiva mistura de macumba, irreverência e heavy metal. A banda criou o conceito de saravá metal lançando  álbuns agressivos e iconoclastas como Welcome to Terreiro (1993) e Smells Like Tenda Spirita (2000). O diretor paulista Fernando Rick estará presente na mostra para realizar um debate após a sessão.

Fernando Rick tem se destacado entre os realizadores independentes paulistas, sendo também responsável pelo documentário “Guidable: A Verdadeira História do Ratos de Porão”, pelo premiado curta “Ivan”, e pelo violento e polêmico “Coleção de Humanos Mortos”.

Três longa-metragens presentes na mostra ajudam a fortalecer e ampliar as possibilidade de se realizar cinema de horror no Brasil, “Mar Negro”, de Rodrigo Aragão, “Nervo Craniano Zero”, de Paulo Biscaia e “Zombio 2- Chimarrão Zombies”, de Petter Baiestorf.

A Sessão Shot or Die apresenta três produções realizadas com pouco, ou nenhum dinheiro, tendo como incentivo apenas a paixão pelo cinema. Obras com orçamento limitado e criatividade de sobra.

A sessão Malditos Curtas reúne obras de diversos estados brasileiros, constituindo um mosaico representativo da atual produção de cinema de gênero no país. Jovens realizadores investindo em filmes de ação, horror, suspense e ficção científica, injetando sangue novo nas veias do cinema brasileiro.

E por fim, a Sessão Sala Especial é dedicada ao grupo de anárquicos comediantes capixabas da TV QUASE. Unidos por Gabriel Labanca (falecido prococemente aos 30 anos, em 2012) a trupe formada pelos dementes Daniel Furlan, Juliano Enrico, Raul Chequer e Klaus Berg, iniciou a mais de 10 anos o projeto de humor multimidia QUASE. O projeto que começou como uma revista em quadrinhos migrou para o youtube, e agora começa a semear seu humor nonsense e sua insolência também na tv aberta. A sessão exibirá além do curta Loja de Inconveniências: A Maldição do Caipora, diversos sketches e a homenagem Labanca Eterno.  E para melhor compreender o que é a QUASE, uma definição do próprio grupo: “Ilogia, delírios, blasfêmia, alucinações, inadequação afetiva, piru, negligência social, devaneio permanente, incoerência, travestismo, cocô, agressividade, mau humor e quadrinhos”.

Sejam bem vindos à Vingança dos Filmes B- Parte 3

(Cristian Verardi- organizador)

APOIO: The Raven / Dirty Old Man / Secretária Municipal de Cultura de Porto Alegre / SalaP.F.Gastal
GRADE DE PROGRAMAÇÃO

 Longas:

Desagradável (2013 / 120 minutos), de Fernando Rick / A banda Gangrena Gasosa tornou-se um mito do underground carioca com a sua inusitada mistura de heavy metal com elementos de umbanda. O documentário aborda a anarquica trajetória da banda em seus 20 anos de existência. Uma história repleta de confusões, estranhas maldições e muito “saravá metal”. (Após a sessão debate com o diretor Fernando Rick)

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Mar Negro (2013 / 100 minutos), de Rodrigo Aragão. Com: Walderrama dos Santos, Mayra Alarcon, Cristian Verardi  / Após se depararem com uma estranha criatura marítima, dois incautos pescadores levam sem saber a morte e a destruição para uma pequena vila à beira mar. Zumbis, demônios, e criaturas mutantes orquestram um dantesco banho de sangue e vísceras. Alucinante desfecho da trilogia iniciada por Rodrigo Aragão em 2008 com “Mangue Negro” (2008), e seguida por “A Noite do Chupacabras” (2011).  Selecionado para festivais como: SITGES Film Festival (Esp) / Morbido (Mex) / Montevideo Fantastico (Ury) / Festival do Rio 2013 (Bra) / Rojo Sangre (Arg)

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Zombio 2- Chimarrão Zombies (2013 / 83 minutos), de Petter Baiestorf. Com: Airton Bratz, Coffin Souza, Gisele Ferran, Gircius Gewdner / Uma pequena comunidade interiorana sofre uma estranha epidemia após consumirem a erva-mate Cronenberg. Um grupo tenta sobreviver em meio ao caos provocado pela invasão de mortos-vivos e outros seres raivosos. Irreverente mistura de horror, humor e sexploitation nesta sequência direta de Zombio (1999), do cultuado diretor independente Petter Baiestorf. (Censura 18 anos). Selecionado para festivais como: SITGES Film Festival (ESp) /  Montevideo Fantastico (Ury)

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Nervo Craniano Zero (2012 / 88 minutos), de Paulo Biscaia. Com: Guenia Lemos, Uyara Torrente, Leandro Daniel Colombo / Uma escritora ambiciosa e um neurocirurgião obcecado utilizam uma ingênua garota como cobaia em um experimento perigoso. Um chip é instalado em seu cérebro afetando o “nervo craniano zero”, o resultado da experiência foge ao controle, gerando consequências nefastas. Prêmio de melhor direção no New Orleans Horror Film Festival 2012 (EUA) / Melhores efeitos de FX no Thriller Chiller Festival 2012 (EUA)

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Curtas:

Distúrbios, Palavrões e Batidas de Carro (2013 / 38 minutos), de Cláudio Guidugli / Jovem apaixonado por prostituta planeja uma ação para assassinar o próprio pai, mas assaltantes desastrados, um psicopata estuprador e um homem com um acesso de fúria após um acidente de carro, transformam o crime perfeito num desastre sanguinolento. Ação, humor negro e drama familiar numa produção independente filmada na pequena cidade de Roca Sales (RS) com orçamento zero, utilizando apenas uma câmera cybershot e muita criatividade.
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You Bitch Die
(2009 / 3 minutos), de Lucas Sá / Traição, vingança e morte. Ela traiu o homem errado, e agora vai pagar com o próprio sangue!

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Filmes São Seus Amigos (2 minutos), de Gurcius Gewdner: Com Raissa Vitral: O diretor independente Gurcius Gewdner faz um procunciamento importante: Filmes são seus amigos!
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A História de Lia (2010 / 13 minutos), de Rubens Mello / Lia é uma adolescente que vive num lar doentio e violento. Para fugir de sua cruel realidade ela se envolve com um grupo de jovens marginais. Porém, uma tragédia é desencadeada quando ela é possuída por sua amiga invisível.

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Rise Weirdo Army (2012 / 4 minutos), de Francis K / Monstros gigantes, kung fu e rock’n’roll, no melhor estilo Damn Laser Vampires.

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Catalogárgula (2013 / 5 minutos), de Lucas Neris / Hélio é um homem peculiar que tira fotos de tudo à sua volta, dando uma conotação própria e estranha aos objetos que o cercam.

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Belphegor (2013 / 6 minutos), de Ricardo Ghiorzi / Nem mesmo a santidade está a salvo diante da presença do mal.

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Tate Parade (2012 / 10 minutos), de Marja Calafange / Sharon Tate volta do além para vingar sua morte e salvar o seu bebê. Uma vingança com sabor de melância.

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O Membro Decaído (2012 / 18 minutos), de Lucas Sá / Um homem vaga a esmo. O destino lhe reserva um caminho de sangue.

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Encosto (2013 / 7 minutos), de Joel Caetano / Um ritual de magia negra não ocorre com o esperado. Qual o preço a pagar pelos seus desejos?

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O Matador de Bagé (2013 / 15 minutos), de Felipe Iesbick / Assis. Matador Profissional. Quinze anos consecutivos o número um de Porto Alegre. Até a chegada de Assunção. (Prêmio de melhor curta da Mostra Gaúcha do Festival de Gramado)

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Estrela Radiante (2013 / 25 minutos), de Fabiana Servilha / Após encontrar um estranho objeto caído dos céus, um homem tem a sua vida modificada quando começa a sofrer estranhas mutações.

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 Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre (1998 / 15 minutos ), de Rogério Brasil Ferrari / Um casal portoalegrense com um gosto peculiar pelos prazeres da carne.  Sexo, gastronomia e assassinato num clássico do cinema gore gaúcho.

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Sessão Sala Especial: TV Quase: Loja de Inconveniências: A Maldição do Caipora (2013), de Juliano Enrico /   Jairo só queria entrar em qualquer loja para comprar cigarros. Mas esta não é qualquer loja. E Seu Argemiro é qualquer coisa, menos qualquer vendedor. Aqui ele tenta convencer Jairo a fumar menos, além de alertá-lo para a perigosa criatura que espreita nas profundezas da floresta. (curta seguido de sketches da trupe de comediantes da TV Quase e homenagem póstuma ao humorista Gabriel Labanca). Total: 60 minutos.

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 GRADE DE HORÁRIOS

 13 de Dezembro

20h- Encosto (7’) + Desagradável (120’). Total: 127 minutos (Após a sessão debate com o diretor Fernando Rick)

 14 de Dezembro

15h- Sessão Maldita Matinê I- Filmes São Seus Amigos (2’) + Zombio 2- Chimarrão Zombies (88’). Total: 90 minutos

 17h- Sessão Shot or Die: You Bitch Die (3’ + História de Lia (13’) + Distúrbios, Palavrões e Batidas de Carro (38’). Total: 54 minutos

 20h- Sessão Malditos Curtas: Rise, Weirdo Army (4’) + Catalogárgula (5’) + Belphegor (6’) + Tate Parade (10’) + O Membro Decaído (18’) + O Matador de Bagé (15’) + Estrela Radiante (25’) + Paulo e Ana Luiza em Porto Alegre (15’). Total: 98 minutos. (Após a sessão debate com os realizadores)

 15 de Dezembro

15h- Sessão Sala Especial: TV Quase: Loja de Inconveniências: A Maldição do Caipora + sketches + Homenagem a Gabriel Labanca) (60’)

17h- Sessão Maldita Matinê II – Nervo Craniano Zero (88’)

 19h- Mar Negro (100’)

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PROJETO RAROS APRESENTA O MONSTRO NORTE- COREANO!

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Nesta sexta-feira (23 de agosto), às 20h, o Projeto Raros da Sala P.F. Gastal (3º andar da Usina do Gasômetro) exibe o filme norte-coreano Pulgasari (1985), de Shin Sang-ok, cineasta sul-coreano sequestrado por agentes do país vizinho a mando de Kim Jong-il, filho do então presidente Kim Il-sung. O filme será exibido em DVD com legendas em espanhol.

O desejo de construir uma indústria cinematográfica na Coréia do Norte, somado a uma notável cinefilia, levou Kim Jong-il a orquestrar no final dos anos 1970 o rapto do cineasta, apelidado de “príncipe do cinema sul-coreano”. Shin Sang-ok é considerado um dos nomes mais importantes da chamada era de ouro do cinema de seu país, realizando e produzindo centenas de filmes durante os anos 1950 e 1960.

Baseado em uma lenda do século XIV, Pulgasari é o filme mais famoso dos sete que o cineasta realizou na Coréia do Norte com a produção executiva de Kim Jong-il. Na Coréia feudal, durante a dinastia Goryeo, um rei controla a terra com mãos de ferro, sujeitando os camponeses à miséria. Quando uma pequena criatura de arroz, criada por um velho ferreiro, ganha vida ao entrar em contato com o sangue de uma jovem, um monstro aparece para enfrentar as tropas do rei e defender os ideais do povo. Não apenas uma peça de propaganda política, Pulgasari também remonta aos filmes kaiju, gênero japonês de filmes de monstro, cujo título mais célebre é Godzilla (1954), de Ishiro Honda.

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Kim Jong-il coordenando as filmagens de Pulgasari

Projeto Raros. Dia 23 de agosto às 20:00

Pulgasari (Pulgasari), de Shin Sang-ok (Coréia do Norte, 1985, 95 minutos)

Com Chang Son Hui, Ham Gi Sop, Jong-uk Ri e Gwon Ri

O filme será exibido em DVD com legendas em espanhol

Entrada franca

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Sessão Aurora apresenta “Eles Vivem”!

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“A Sessão Aurora apresenta neste sábado, 3 de agosto, às 18h, na Sala P. F. Gastal (3º andar da Usina do Gasômetro), Eles Vivem, uma das principais obras-primas de John Carpenter. Após a sessão, haverá um debate com os editores da revista Aurora e do Zinematógrafo.
O filme parte da chegada de John Nada (Roddy Piper) a uma Los Angeles de conflitos estéticos, onde miséria e riqueza contrastam nas esquinas, nas lojas e nos supermercados. A concentração do poder, através da mídia, do capital econômico e cultural, se faz presente no cotidiano de todos os habitantes, mesmo que de forma invisível. John, trabalhador autônomo, andarilho das cidades em busca de empregos para seguir se alimentando, é o retrato da mão de obra braçal das metrópoles em meio ao desenvolvimento vertical. Enquanto trabalha na construção civil, o protagonista logo percebe a movimentação de um pequeno grupo que age no submundo da cidade para tentar revelar a grande farsa pela qual a classe dominante exerce seu poder. Utilizando óculos especiais, ele consegue ver o que realmente está por trás de cada imagem que compõe o cenário da cidade.
Fruto de uma década consagradora para o cinema de Carpenter, momento em que o cineasta lança filmes como A Bruma Assassina, Christine, o Carro Assassino, Enigma do Outro Mundo, Fuga de Nova York, Eles Vivem é um de seus trabalhos mais abertamente políticos, dono de uma ironia crítica fulminante que transcende as questões mais pontuais de sua época. Do ponto de vista estético, para além de seu conteúdo ideológico, o filme também é sintomático na obra do americano, com destaque para a célebre e longa sequência na qual dois personagens trocam socos e pontapés em um beco de Los Angeles.
Eles Vivem (They Live), EUA, 1988, cor, 93 minutos. Direção: John Carpenter. Com Roddy Piper, Keith David, Meg Foster, George ‘Buck’ Flower, Peter Jason, Raymond St. Jacques. O filme será exibido em DVD com legendas em português.”

(Pedro Henrique Gomes)

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SERGIO LEONE… SOBRE REVOLUÇÕES

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Quando Explode A Vingança (1971)

“Revolução? Como assim, revolução? Não tente me falar de revolução. Sei tudo sobre revoluções e como elas começam! Gente que lê livros vai atrás de quem não lê, gente pobre, e diz que chegou a hora de haver mudanças! Sei o que estou dizendo quando falo da revolução. Gente que lê livros procura os que não sabem ler, gente pobre, e diz: “Tem que haver mudanças.” E a gente pobre faz as mudanças, hein? Aí, os que lêem livros se sentam em grandes mesas lustrosas e falam, falam, comem e comem, hein? Mas o que acontece com os pobres? Eles estão mortos! Essa é a sua revolução! Por isso, por favor, não me fale de revoluções.”

O bandoleiro Juan Miranda (Rod Steiger) explicando ao mercenário John Mallory (James Coburn) seu conceito de revolução em “Quando Explode a Vingança” (Giù La Testa / Duck You Sucker / A Fistful of Dynamite) de Sergio Leone.

 

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PREPAREM-SE PARA O MAR NEGRO

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“Mar Negro”, de Rodrigo Aragão, abrirá o FANTASPOA 2013 nesta sexta-feira (03 de maio)  às 19 e às 21h15, no CIneBancários (Rua General Câmara, 424 – Centro). “Mar Negro” não é apenas a consolidação de Aragão como um dos mais notórios realizadores independentes do país, mas também a concretização de uma meta para os fãs de horror que sonham com a proliferação do gênero fantástico no cinema brasileiro. Está é segunda parceria minha com Aragão, que me presenteou com um grande desafio, interpretar uma personagem tão complexa e bizarra quanto a que me foi destinada em “A Noite do Chupacabras”. Espero todos vocês para se divertirem e se aterrorizarem com o mar de sangue e demência que preparamos com tanto carinho!

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13 ASSASSINOS: ENTRE A ICONOCLASTIA E A TRADIÇÃO

Encurralados, guerreiros exercitam a arte de morrer com honra

Em 13 Assassinos, encurralados, guerreiros exercitam a arte de morrer com honra

I

ESSÊNCIA ICONOCLASTA

Existe no cinema proposto por Takashi Miike uma evidente nota dissonante, uma semente de anarquia que, mesmo quando imperceptível a um primeiro olhar, desestrutura a composição geral; um elemento de estranheza que se infiltra e subverte as regras até mesmo da mais convencional das narrativas. No entanto, se a palavra convencional nunca foi apropriada para definir a sua obra, por vezes Miike se dedica a projetos aparentemente formais se comparados ao seu universo habitualmente caótico. E foi o que fez entre 2010 e 2011 quando aceitou dirigir a releitura de dois clássicos do cinema japonês, 13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku, 1963), originalmente dirigido por Eiichi Kudo, e Harakiri (Seppuku, 1962), de Masaki Kobayashi. Miike declarou certa vez que não faz regras para si, pois nunca teve estudo o suficiente para aprender a fazê-las. Declaração compreensível em se tratando de alguém forjado num universo culturalmente estéril e distante da cinefilia que costuma engendrar futuros diretores. A origem de Miike se encontra num bairro operário de Yao, nos arredores de Osaka, onde cresceu em meio a um lar conturbado e cercado por amigos que tinham como maior motivação de vida ingressar na Yakuza, a temível máfia japonesa. Sua paixão não era o cinema, algo que só viria a se interessar após a adolescência, mas o motociclismo. A fascinação pela velocidade o levou a tentar seguir uma frustrada carreira como piloto de corridas. “Eu nunca pensei em me tornar um diretor. Eu considerava a ocupação de diretor de cinema como sendo uma atividade para intelectuais”, afirmaria em uma entrevista, ostentando sua origem proletária. Porém, ao ingressar, a princípio de forma desinteressada em uma escola de cinema em Yokohama dirigida pelo renomado Shohei Imamura, a Yakuza perdeu um possível membro, às pistas de corrida um velocista, e o cinema japonês ganhou um realizador original, com uma queda pelo grotesco e pela transgressão. Suas investidas iniciais na direção já evidenciavam seu desdém pelas convenções da gramática cinematográfica, transformando simples filmes de encomenda para o mercado de vídeo japonês em delirantes exercícios estéticos e narrativos, e em ousadas provocações à rígida moral da sociedade japonesa. De certa forma o baixo orçamento investido lhe dava liberdade criativa, pois os produtores apenas se importavam com os prazos, pouco se intrometendo no resultado final desde que tivessem um produto para comercializar. Miike filmava incessantemente com velocidade e fúria, investindo, sempre com seu toque peculiar, nos mais variados gêneros. Independentemente do suporte que dispunha em mãos, seja produzindo em vídeo, película, ou para a TV, Miike chegou a dirigir mais de seis filmes por ano, o que lhe rendeu a memorável marca de mais de 90 filmes em 20 anos de carreira. A produção intensa naturalmente gerou obras irregulares, mas que foram seminais para a lapidação de sua persona cinematográfica, que começou a chamar a atenção do público internacional através do niilismo brutal de Fudoh: The New Generation (Gokudô: Sengokushi: Fudô, 1996). A caótica edição vista nos minutos iniciais de Morrer ou Viver (Dead or Alive: Hanzaisha, 1999), onde o espectador é bombardeado freneticamente por imagens desconexas envolvendo sexo, drogas e violência, a naturalidade com que transforma abruptamente um romance açucarado em uma trama repleta de horrores em Audition (Ôdishon, 1999), ou como destrói sem pudores os valores da família japonesa em Visitor Q (Bijitâ Q, 2001), constituem bons exemplos de sua deliberada iconoclastia, seja moral ou estética. Sempre indiferente ao gênero e as suas regras, realizou desde populares filmes de Yakuza, como Shinjuku Triad Society (Shinjuku kuroshakai: Chaina mafia sensô 1995) e Full Metal Yakuza (Full Metal Gokudô, 1997), até dramas sensíveis como The Bird People in China (Chûgoku no chôjin, 1998), além de inusitadas obras infantis, como A Grande Guerra Yokai (Yôkai Daisensô, 2005), e o recente Ninja Kids!!! (2011). E nem mesmo a sua descoberta pelo público ocidental, potencializada com o sucesso internacional de Audition (1999), e a possibilidade de alcançar uma platéia mais diversificada parece ter aplacado a sua propensão instintiva à quebra de paradigmas. Contratado para dirigir um dos segmentos da série televisiva norte americana Mestres do Horror, Miike chocou os produtores com o resultado final. Seu episódio Marcas do Terror (Imprint, 2006), acabou censurado pelo canal Showtime, não indo ao ar nos E.U.A devido a sua trama grotesca e a uma seqüência de tortura de extrema violência e degradação. Porém, se a subversão parece ser uma tendência natural para o seu cinema, Miike não se importa em também quebrar a expectativa de seu público, entregando silêncio quando todos aguardam histeria, ou sensibilidade invés da truculência. Ao crítico holandês Tom Mês, autor do livro Agitator: The Cinema of Takashi Miike, declararia: “Tenho a sensação de que as pessoas nos festivais internacionais esperam algo violento ou radical dos meus filmes, um tipo de entretenimento extremo (…). Mas não era meu objetivo fazer esse tipo de filme, eles são apenas o resultado da escolha da melhor maneira de se retratar algo”.

II

13 ASSASSINOS E O FLERTE COM A TRADIÇÃO

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  Sempre prolífico, em 2010 Miike produziu quase que simultaneamente novas adaptações para dois clássicos do cinema japonês dos anos 1960, 13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku), e  Hara-Kiri: A Morte de um Samurai (Ishimei), este último filmado em 3D e lançado em 2011. Embora tenha preferência por projetos originais, refilmagens não são nenhuma novidade em seu currículo, em 2002, por exemplo, realizou uma abordagem mais contemporânea do cultuado thriller Alugados Pelo Inferno (Jingi no hakaba, 1975), de Kinji Fukasaku. Curiosamente, apesar de filmado em 3D, Hara-Kiri: A Morte de um Samurai não utiliza as artimanhas fáceis do suporte, preocupando-se apenas em captar a profundidade de campo. Ou seja, o provocador Miike filma um drama em terceira dimensão sem usar os recursos mais óbvios desta técnica. Em comum, 13 Assassinos e Hara-Kiri: A Morte de um Samurai lidam com temas caros à cultura japonesa, honra, tradição e sacrifício. Ambos se passam no Japão feudal, dissertam sobre o rígido universo dos samurais, e suas tramas são deflagradas através do cometimento do seppuku (o suicídio ritual japonês). Miike optou por manter a estrutura narrativa clássica destas obras, e mergulhou com reverência no universo dos samurais, mantendo-se, ao menos na superfície, fiel ao material original. Porém, se narrativamente os filmes não se distanciam de seus antecessores, é no discurso referente às tradições que o texto revela ambigüidade. Na visão de Miike toda honra é questionável. A trama de 13 Assassinos ocorre durante a Era Koka (por volta dos anos 1840), quando o Japão, superado seus conflitos internos, passava por um período de paz, e muitos samurais encontravam-se desprovidos de utilidade, ganhando a vida como simples guarda-costas ou matadores de aluguel. No entanto o suicídio é o recurso extremo que um ancião do clã Akashi utiliza para alertar as autoridades sobre o vergonhoso comportamento do Lorde Naritsugu (Goro Inaki). Meio irmão do atual Xogum, Naritsugu protegido por sua estirpe real incorre impunemente em atos de crueldade, estuprando e matando com requintes de sadismo, tanto nobres como cidadãos comuns. Suas atitudes se tornam um escândalo, e sua ascensão política pode acabar com a paz no Império. A solução encontrada pelos clãs é planejar, sem o conhecimento do Xogum, a morte de Naritsugu. Um guerreiro aposentado chamado Shinzaemon (Kôji Yakusho) é escalado para executar o atentado, cabendo a ele a tarefa de arregimentar um pequeno grupo de samurais renegados dispostos a 13-assassins-2partir em uma missão suicida, motivados apenas pela honra de morrer pelo futuro do Império. O vilão concebido por Goro Inaki impressiona por sua composição niilista. Sua frieza e seu sadismo o colocam num lugar de honra na extensa galeria de personagens psicóticos que compõem a obra de Miike. O embate estratégico entre Shinzaemon e Hanbei (Masachika Ichimura), líder da guarda pessoal de Lorde Naritsugu, domina boa parte da trama. Desenvolve-se a partir do conflito entre estes dois velhos samurais fieis ao código de honra do Bushido, um verdadeiro jogo de enxadristas, onde um tenta antecipar o próximo passo do outro, culminando em uma batalha de proporções épicas que se estenderá de forma brutal durante os 40 minutos finais. É na crueldade do campo de batalha que Miike sente-se à vontade para exercitar a sua verve cruel; é onde as estratégias saem do papel para selar destinos, rasgando graficamente a carne do inimigo. O vilarejo-armadilha onde os 13 samurais emboscam o exército de Naritsugu transforma-se num inferno de sangue e fúria, onde no fim das contas revela-se a verdadeira natureza de cada homem em combate. A cultura secular japonesa do seppuku, mais conhecida popularmente por harakiri (palavra que significa cortar a barriga), é carregada de elementos tão complexos que motivações aparentemente insignificantes fogem a compreensão de nossos olhos ocidentais. Ao dissecar a cultura do suicídio, em seu estudo A Morte Voluntária no Japão, Maurice Pinguet escreveu: “Trata-se da honra de uma família, do sucesso de uma expedição, no máximo da tranqüilidade do Império- mas o movimento é o mesmo. O sacrifício enfim se interioriza e se depura em morte voluntária, toda a violência é reabsorvida na decisão de morrer, e a vitima, morrendo com seu pleno consentimento, não suscita tanto a piedade, mas a admiração e a gratidão”. Assim, neste período conturbado da história do Japão, onde a violência era uma ferramenta necessária, saber matar era uma obrigação, mas saber morrer com dignidade era uma arte para poucos, e Miike explora com sobriedade as motivações deste sacrifício voluntário, mas não sem inserir um elemento contestador. “Como o destino sorri para mim. Como samurai nessa era de paz, estive esperando por uma morte honrada”, diz Shinzaemon sentindo-se agraciado com a missão suicida, mas o contraponto deste pensamento surge na figura do último guerreiro a ser cooptado. Encontrado preso em uma armadilha nas montanhas, o caçador Koyata une-se ao grupo de assassinos, mas se revela um ser misterioso, ambíguo, seria ele um demônio da floresta? Um mítico Youkai? Pois é Koyata o elemento desestabilizador que zomba da honra dos samurais, da sua arrogância e seriedade, de seu compromisso com as tradições. Koyata é a voz subversiva de Miike infiltrando-se na narrativa, questionando valores, debochando das inúteis formalidades, que no fim das contas apodrecem com os cadáveres no campo de batalha. E é no destino surreal deste personagem que o diretor deixa emergir naturalmente a sua pré-disposição em romper com as convenções. É também na exploração gráfica da violência que Miike desequilibra as sutilezas da narrativa, não poupando o espectador dos detalhes mórbidos dos crimes cometidos por Naritsugu, como a exibição da garota nua, que com seus membros decepados e língua extirpada, torna-se prisioneira de seu próprio corpo, sufocando em sua agonia.s crimes de a narrativa clrmal e Em 13 Assassinos Miike vai de encontro a um universo consolidado no cinema por realizadores como Kobayashi, Okamoto e Kurosawa, que através de Os 7 Samurais (Shichinin No Samurai, 1954) tornou canônica a fórmula onde figuras marginais são recrutadas para empreender uma missão suicida, modelo que refletiu em obras além do oriente, como na refilmagem americana Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, 1960), de John Sturges, na composição de Os 12 Condenados (The Dirty Dozen, 1967), de Robert Aldrich, e tantos outros. Os samurais sobrevivem no imaginário popular graças principalmente a imagem que cinema construiu deles, e Miike flerta com essa tradição, reverenciando e questionando noções de sacrifício e honra, porém, seu espírito anárquico continua correndo velozmente sob a epiderme, indo ao encontro da amarga conclusão de Pinguet: “A morte voluntária foi o coração sombrio imutável e dilacerado da ética guerreira”.

(artigo publicado originalmente na revista Teorema- Crítica de Cinema, número 21, dezembro de 2012)

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A VINGANÇA DOS FILMES B ORGULHOSAMENTE APRESENTA: AMARGA HOSPEDAGEM!

Amarga Hospedagem, de Claúdio Guidugli (RS, 2011, 60 minutos). Com Roberto de Paula, Franciele Cacimiro  / Ao praticarem mountain bike numa região rural do interior do RS, grupo de ciclistas é capturado por um psicopata sádico. Os incautos ciclistas precisam lutar para não serem transformados em lingüiça, mas nem todos são inocentes como aparentam. Um sangrento e divertido thriller de ação e horror produzido na pequena cidade de Roca Sales, no Vale do Taquari. Amarga Hospedagem foi inteiramente gravado com uma cyber-shot, com elenco composto por atores amadores, orçamento zero e muita criatividade, transformando uma produção tecnicamente precária num divertido exercício de cinema de gênero.

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