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A VINGANÇA TEM GROOVE- COFFY!

“She had a body men would die for – and a lot of them did!”

Após sua irmã ficar gravemente incapacitada  devido ao vício em heroína, Coffy (Pam Grier), cansada de lidar com o descaso da justiça, decide buscar vingança infiltrando-se no submundo do crime. Coffy mergulha no universo sórdido do tráfico e da prostituição, abandonando a pacata vida de enfermeira para transformar-se numa vigilante implacável, eliminando sumariamente quem ela julga responsável pela destruição da única pessoa a quem amava. A situação se complica quando o seu plano de retaliação começa a afetar os negócios da máfia local, além de ameaçar expor o envolvimento de políticos e policiais com o tráfico de drogas.

A parceria entre o diretor Jack Hill e Pam Grier, que gerou quatro filmes entre 1971 e 1974, revelou-se uma combinação perfeita como fósforo e gasolina. Durante os anos 1970 poucos diretores souberam explorar com tanta perspicacia a versatilidade de Grier, uma atriz com mais talentos a oferecer do que apenas sua beleza e sensualidade petulante. Jack Hill tornou-se um mestre em conceber filmes baratos com rapidez e eficiência, qualidades aperfeiçoadas durante o período em que trabalhou diretamente com Roger Corman na AIP. A violenta trama de vingança de Coffy, uma produção modesta financiada pela American International Pictures no auge da onda dos filmes blaxploitation, tornou-se de imediato um sucesso popular. Numa época em que conflitos raciais ainda ecoavam pelos EUA, e os movimentos feministas clamavam por direitos, uma mulher negra e determinada fazendo justiça com as próprias mãos onde  o sistema falhara, assumia automaticamente tons políticos, por menos ideológica que fosse a verdadeira proposta do filme.

A única motivação real para Jack Hill era conseguir realizar bons filmes de ação com o dinheiro escasso que tinha em mãos, sendo hábil em burlar suas deficiências orçamentárias orquestrando cenas empolgantes com uma inventividade cruel. A seqüência de abertura, onde Pam Grier seduz um cafetão para em seguida explodir sua cabeça com um disparo de espingarda ainda causa impacto, e revela que estamos diante de uma personagem que ultrapassou todos os seus limites morais, e que levará seus atos até as últimas conseqüências. Num dos momentos mais memoráveis do filme, após ser provocada em uma festa por uma garota de programa, que lhe derruba uma bandeja de drinks sobre a cabeça, Coffy vai ao banheiro, se recompõe, recheia o seu cabelo black power com gilletes e retorna para iniciar uma briga homérica, onde esbofeteia, esmurra, chuta e nocauteia diversas adversárias, que no ato de tentarem lhe agarrar pelos cabelos acabam se ferindo severamente. Sid Haig, outro ator costumaz na obra de Hill, é o capanga estuprador Omar, mais um personagem sádico na sua extensa galeria de vilões. Através de Rob Zombie, Sid Haig voltaria a ficar em evidência para uma nova geração através do carismático psicopata Captain Spaulding de A Casa dos Mil Corpos (2003) e Rejeitados Pelo Diabo (2005).

Após o sucesso de Coffy,  Samuel Z. Arkoff, o famigerado produtor da American International Pictures, um especialista em filmes B, percebendo o potencial comercial da dupla investiu em outro projeto de Hill, e menos de um ano depois estreava nas telas Foxy Brown (1974), filme que consolidou a carreira de Grier e a transformou num ícone do cinema blaxploitation.  Em 1997  Quentin Tarantino prestou reverência ao trabalho de Jack Hill e ao cinema blaxploitation ao realizar Jackie Brown com Pam Grier no papel título.

Sobre este período Jack Hill desabafou,  “a indústria não tinha nada além de desprezo pelos filmes em que trabalhávamos. Havia muito racismo na industria, uma pequena porção estava apenas na superfície, mas havia. E os executivos dos estúdios realmente tinha desprezo pelo público para o qual estavam fazendo filmes. Foi uma grande batalha tentar fazer algo realmente bom“.

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BASTARDOS INGLÓRIOS

No capítulo IX de “A Arte Poética” existe um preceito aristotélico básico afirmando que o historiador e o ficcionista diferem entre si apenas porque um escreveu o que aconteceu, e o outro, o que poderia ter acontecido. Ao introduzir “Bastardos Inglórios” com a frase “Era uma vez numa França ocupada pelos nazistas…”, Quentin Tarantino deixa claro que seu compromisso não é com a realidade histórica, mas sim com a ficção, neste caso, com a tradição de um gênero cinematográfico específico, o dos “filmes de guerra”. Portanto, a 2° Guerra Mundial vista pelos olhos de Tarantino, não é aquela dos livros de história, mas sim outra guerra, retratada antes pelas lentes de Robert Aldrich, Samuel Fuller, Sam Peckinpah, Enzo G. Castellari, Brian G. Hutton, e tantos outros diretores que abordaram, cada um a sua maneira, as insanidades de um conflito mundial.

Nesta incursão por um gênero tão saturado (onde tudo já foi historicamente visto e revisto), o cinema antropofágico praticado por Tarantino se alimenta da própria ficção para narrar uma intrínseca trama de guerra onde ações paralelas, motivadas pelo desejo de vingança, se movem de formas distintas e se cruzam num inevitável e sangrento embate. Assim como toda a obra do diretor, o filme é construído minuciosamente sob a ótica de um cinéfilo obsessivo que se aproveita de sua cultura cinematográfica para compor uma espécie de patchwork fílmico, que entre citações e homenagens gera um elemento novo, em que a originalidade está na recomposição imagética dos fatos, onde gêneros distintos como o western, a comédia e o drama se mesclam e se complementam. A trama une, feito uma comédia de erros, dois planos para assassinar Hitler. De um lado o grupo de violentos soldados judeus conhecidos como “Os Bastardos”, que liderados pelo Tenente Aldo Rane (Brad Pitt) se infiltram na França ocupada pelos nazistas com a intenção de explodir uma sessão de cinema em que Hitler estará presente, enquanto Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent), a proprietária do cinema, arquiteta sua própria vingança contra os oficiais que massacraram sua família.

A seqüência inicial revela o tom que permeará os 153 minutos do filme, seja na elaboração da mise-en-scène, ou nos longos diálogos, é notável a emulação do estilo de Sérgio Leone, algo que Tarantino já havia esboçado em “Kill Bill”, e este fetiche pelo diretor italiano se faz presente também na escolha da trilha sonora, composta por vários temas de Ennio Morricone, o compositor predileto de Leone. É inquestionável a influência de outros diretores na construção da trama, seja Robert Aldrich e seu “Os 12 Condenados”, uma obra seminal para qualquer filme de guerra, seja na violência estilizada de Sam Peckinpah e seu “A Cruz de Ferro” ou Enzo G. Castellari, de quem Tarantino se apropriou, além do título, do humor abusado, porém, a sombra de Leone paira feito a de um gigante, principalmente sobre os duelos verbais em que os conflitos são estendidos ao máximo, num crescente de tensão em que a violência rompe de forma catártica e por vezes inesperada. Os diálogos sempre foram considerados o ponto forte na obra do diretor, no entanto Tarantino atingiu a excelência no domínio da técnica. Invés de divagar aleatoriamente sobre cultura pop, aqui os diálogos funcionam objetivamente em prol da trama. Os interrogatórios promovidos pelo oficial nazista Hans Landa, interpretado com timing perfeito pelo alemão Christoph Waltz, são um exemplo deste domínio, em que uma conversa banal sobre um copo de leite desvia-se por labirintos que ao final revelam a vilania dos seus objetivos. Ainda que o clímax seja regido pela inevitabilidade da violência, que surge sem sutilezas, com direito a cabeças destroçadas e escalpos arrancados, os grandes impasses ocorrem no plano verbal.

“Bastardos Inglórios” vai além de uma simples trama de vingança, sendo acima de tudo uma declaração de amor ao cinema, e uma afirmação do poder da ficção. E se não reinventa a roda, inegavelmente a faz girar fora do eixo de forma surpreendente. Ao reescrever a história com seu desfecho inusitado e violento, Tarantino nos lembra de outra premissa básica, esta pronunciada por Fassbinder, “cinema é mentira a 24 quadros por segundo”.

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