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CINEFANTASY EXPERIENCE

ENCONTRO COM RUGGERO DEODATO NO 6° CINEFANTASY

A sexta edição do Cinefantasy, ocorrida em São Paulo entre 22 de novembro e 04 de dezembro, mais do que uma celebração do cinema fantástico, onde fãs e realizadores puderam trocar impressões sobre o gênero, entrando em contato com obras vindas de diversas partes do mundo, num interessante mosaico das recentes produções fantásticas ao redor do globo, foi para mim uma experiência pessoal intensa, onde pude rever velhos amigos, iniciar novas amizades, trocar idéias exaltadas sobre concepções de cinema, assim como presenciar a reação do público diante do meu trabalho como ator em A Noite do Chupacabras. Mas o grande mérito do festival foi ter me propiciado a oportunidade de, na companhia de Felipe Guerra e Joel Caetano, entrevistar Ruggero Deodato, um diretor que influenciou diretamente o meu gosto cinematográfico quando em meados dos anos 80 saí atônito de um cinema após uma sessão de Holocausto Canibal (a entrevista será publicada por aqui em breve, aguardem). E ao compor parte do júri oficial da competitiva de curtas-metragens, junto com Silvio Alexandre e Osvaldo Neto, pude conferir uma leva de jovens realizadores com talento para delirar, assustar, provocar risos nervosos, gargalhadas espontâneas, e fazer jorrar sangue novo no cinema brasileiro.

O encontro com Ruggero Deodato aconteceu na Cinemateca Brasileira, durante a pequena mostra em sua homenagem organizada pelo cineasta Fernando Rick (Black Vomit Filmes), que reuniu O Último Mundo Dos Canibais (Ultimo Mondo Canibale), House On The Edge Of The Park (La Casa SperdutaNel Parco) e o controverso Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust). Enquanto a maioria se dirigia para as sessões, Felipe Guerra, Joel Caetano e eu, estávamos mais interessados em tentar desvendar um pouco do homem por trás daquelas produções emblemáticas.  Aos 72 anos, Deodato ainda demonstrava a energia de um garoto encrenqueiro, e de forma acessível e simpática falou com entusiasmo sobre seus filmes. Possuidor de um senso de humor ferino, e muito paciente com os malucos que lhe despejavam uma enxurrada de perguntas sobre sua obra, o velho diretor italiano revelou peculiaridades sobre suas produções numa entrevista babilônica, onde narrou casos engraçados de bastidores, e refletiu sobre vários temas, como a ascensão e derrocada do cinema de gênero italiano e seus problemas pessoais com a censura, e ainda demonstrou surpresa em encontrar no Brasil fãs de um dos seus filmes mais menosprezados, o clássico do SBT, Os Caçadores de Atlântida (I Predatori Di Atlantide). Foi uma situação emocionante e inusitada estar frente a frente com o diretor responsável por me causar diversos pesadelos com índios canibais em minha infância. Após a sessão de Holocausto Canibal, Deodato encontrou o público num excelente debate mediado pelo crítico do Estadão, Luiz Carlos Merten. A presença de Merten como mediador gerou críticas de muitos fãs de horror, devido a sua notória implicância com o gênero, mas a escolha se revelou acertada pela frutífera condução do debate, que ainda contou com a participação do jornalista italiano Paolo Zelati, especialista em cinema fantástico, autor do livro Itália Rosso Sangue.

A mostra competitiva de curtas-metragens foi repleta de gratas surpresas, principalmente entre as produções nacionais, onde foi possível reparar que muitos estudantes de cinema enfim estão se libertando de certos dogmas institucionalizados, e parecem mais interessados em incorporar o cinema de gênero do que reproduzir pastiches de nouvelle vague. O curta Eu & A Loira, de Lucas Calmon, transforma o que parecia ser mais uma produção sobre o mito da Loira do Banheiro em uma inesperada, original e hilária comédia romântica. Duas Vidas Para Antônio Espinosa, de Caio D’Andrea e Rodrigo Fonseca, narra uma trama de vingança com toques sobrenaturais emulando um western spaghetti em pleno Brasil rural, e ainda tem como mérito o resgate da figura de Índio Lopez, um dos mais folclóricos atores da Boca do Lixo. O sangrento e delirante Estranha, confirma o talento de Joel Caetano, um dos grandes batalhadores da atual cena brasileira de horror independente. Morte e Morte de Johnny Zombie, revela através de planos criativos o potencial de cineasta do crítico de cinema Gabriel Carneiro. O impactante Lavagem, primeiro trabalho para o cinema do artista plástico Shiko, nos brinda com uma perturbadora visão do quão maléfica pode ser a religião. Ela Só, de Pâmela Hauber e Stefania Curti, realizado no curso de cinema da PUCRS, revela jovens realizadoras buscando consistência autoral na tensão e no medo. No entanto, devido a uma tradição mais enraizada, a desenvoltura com o gênero é mais evidente nos curtas internacionais, principalmente europeus. O alemão Wilt, de Daniel Vogelman, foi o grande vencedor do festival, levando os prêmios de melhor curta, direção e roteiro, com uma intrigante trama de fantasia, solidão, desejo e morte. Protoparticles, de Chema Garcia Ibarra, é uma instigante ficção científica onde a ambigüidade da situação nos deixa em dúvida quanto a veracidade dos fatos narrados pela patética e trágica figura, que por circunstâncias bizarras não pode nunca despir sua roupa de astronauta. Decapoda Shock, de Javier Chillon, é com louvor uma das mais divertidas e criativas produções exibidas no Cinefantasy, onde acompanhamos a engraçadíssima vingança de um astronauta contra a organização que o submeteu a uma experiência que o transformou num terrível Homem-Lagosta. Bobby Yeah é o mais recente delírio do cineasta inglês Robert Morgan, um dos mais instigantes artistas de stop motion da atualidade. Employee of  The Month, de Olivier Beguin, além dos excelentes efeitos especiais e do roteiro criativo, onde monstros lendários, como vampiros, múmias e bruxas, tentam se adaptar a sociedade procurando uma agência de empregos, conta com a participação Catriona MacColl, atriz cultuada pelos fãs de horror por sua parceria com Lucio Fulci em filmes como Pavor na Cidade dos Zumbis (Paura Nella Città Dei Morti Viventi), Terror nas Trevas (..E tu vivrai nel terrore! L’aldilà) e A Casa dos Mortos Vivos (Quella villa accanto al cimitero).

Entre os longas exibidos, o mais impactante foi Alucardos- Retrato de Um Vampiro, de Ulises Guzmán, que disseca a carreira do genial, e completamente maluco, diretor mexicano Juan López Moctezuma (Alucarda, La Mansionde La Locura), e a vida de Lalo e Manolo, dois fãs obcecados por sua obra. A paixão da dupla pelo trabalho de Moctezuma os levou a seqüestrarem o diretor do hospício onde este estava internado. Uma história tão surreal e absurda que só poderia acabar numa tela de cinema. Malditos Sean!, de Fabián Forte e Demián Rugna, investe na estrutura do cinema de horror em episódios, e exemplifica com pouco dinheiro e muita criatividade como os argentinos estão produzindo excelentes obras de terror e ficção, enquanto no Brasil ainda sofremos com um absurdo preconceito contra o gênero. A sala de cinema lotada, e o público aplaudindo e gargalhando insanamente, foi a melhor resposta que o amigo Felipe Guerra poderia dar aos que não acreditavam no potencial do seu hilariante Entrei em Pânico ao Saber o Que Vocês Fizeram Na Última Sexta-Feira 13 do Verão Passado Parte 2. Devido ao meu envolvimento com a produção, a sessão de A Noite do Chupacabras, de Rodrigo Aragão, onde interpreto uma entidade canibal maléfica, foi uma experiência emocionalmente indissociável do apego pessoal. Presenciar a excelente recepção do público, que riu, vibrou e se horrorizou com o nosso humilde e sangrento filme, fez valer a pena todos os anos de batalha para concretizar o sonho de conceber filmes de horror genuinamente nacionais. É um grande orgulho estar contribuindo para a sedimentação de um caminho viável para o gênero fantástico no Brasil. E só tenho que agradecer ao Rodrigo Aragão por ter sido maluco o suficiente para depositar sua confiança num ator tão inexperiente. Assistir ao filme pronto na impressionante tela do Cine SESC foi a confirmação de que valeram a pena todas as noites sem dormir, todos os hematomas e as horas de maquiagem. Que venha a próxima insanidade!

Agradeço imensamente ao casal Cinefantasy, Eduardo Santana e Vivi Amaral, ao Fernando Rick e ao Danilo Baia, aos colegas de júri Silvio Alexandre e Osvaldo Neto, e a todos os amigos que me recepcionaram tão bem em minha estadia em São Paulo, especialmente Joel Caetano, Mariana Zani, Felipe Guerra, Rodrigo Aragão, Mayra Alarcon, Valderrama,  Fonzo “Tony” Squizzo, Danielle e Giselle Bezerra, Patty Fang, Laura Cánepa e Leandro Caraça. Certamente onde houver escuridão, sangue e uma tela de cinema, nos encontraremos novamente.

Felipe Guerra, Ruggero Deodato, eu, Joel Caetano

A Noite do Chupacabras na tela do CiNESESC

Abocanhando Patty Fang

Vivi Amaral, Paolo Zelati, Fernando Rick e Eduardo Santana

Paolo Zelati, Deodato, Luiz Carlos Merten

Cinefantasy Experience

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COM A PALAVRA… RUGGERO DEODATO!

Ruggero Deodato

 “Eu faço o meu trabalho, e se acontecer de eu filmar uma cena que eu quero que seja cruel e violenta, desejo que seja o mais realista possível. Em todo caso, eu já disse que eu não faço crueldade gratuita, e que não era eu quem queria o abate de animais em Canibal Holocausto. Os índios comiam tartarugas e porcos. Então …”

 

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RUMO AO 6° CINEFANTASY!

 

O CineFantasy chega à sua sexta edição confirmando sua maturidade, e consolidando sua importância na concretização de um cenário brasileiro de festivais dedicados ao cinema fantástico.  O festival, que em sua infância  deu seus primeiros e tímidos passos no litoral paulista, aterrorizando Ilha Comprida, hoje tornou-se um enorme monstro lovecraftiano, e invade diversas salas de cinemas e centros culturais de São Paulo.  O diretor homenageado desta edição sanciona o porte monstruoso adquirido pelo CineFantasy. O mítico e controverso diretor italiano Ruggero Deodato (Canibal Holocausto, House on The Edge of the Park, O Último Mundo Canibal) estará presente para uma breve retrospectiva de sua obra. Um verdadeiro presente para os fãs do cinema de horror italiano.  E outra boa notícia envolve o escriba deste humilde blog. Além de estar nas telas do festival como ator dos filmes “A Noite do Chupacabras” e “David Blyth’s Damn Laser Vampires”, fui convidado pelos organizadores Eduardo Santana e Vivi Amaral para compor o corpo de jurados da mostra competitiva de curtas-metragens.  Por duas semanas São Paulo estará sob o domínio do estranho mundo do CineFantasy. Quem sobreviver verá! Acessem o site e programem-se: http://www.cinefantasy.com.br/principal.html

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ARTE SOMBRIA PARA HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK 2

O ator Giovanni Lombardo Radice (aka John Morghen) divulgou em seu perfil oficial do Facebook uma bela e sombria arte, concebida pela Silver Ferox Design (http://silverferox.blogspot.com/), para a anunciada sequência de ” House on the Edge of the Park”,  de Ruggero Deodato. Espero que esse projeto vingue, e não se perca no limbo dos filmes não realizados,  como ocorreu com o anunciado “Cannibal Metropolitana”.

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RUGGERO DEODATO RETORNA PARA MAIS ATROCIDADES NA CASA DO PARQUE!

Fanáticos pelo bom e velho horror italiano, regozijai-vos! O polêmico diretor Ruggero Deodato realizará uma sequência de seu violento thriller ” House on the Edge of the Park” (La Casa Sperduta nel Parco /1980). A notícia foi divulgada pelo ator Giovanni Lombardo Radice (aka John Morghen) em sua página oficial do Facebook:

“Friends andfans, I got the official permission to announce that Ruggero Deodato and myself are working on the sequel of HOUSE ON THE EDGE OF THE PARK with North Bank Entertainment company in UK. We are very excited, but very sorry that, due to too many bullets through his body, David Hess can’t be in it. But we hope he will approve of the project which will be somehow dedicated to him.”

Ruggero Deodato e Giovanni L Radice aka John Morghen

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Canibal Holocausto

I. A Antropofagia Imagética de Ruggero Deodato.

A década de 1970 foi especialmente frutífera em termos de transgressão cinematográfica, repleta de diretores iconoclastas e obras polêmicas, como Saló, ou os 120 Dias de Sodoma de Pier Paolo Pasolini, Império dos Sentidos de Nagisa Oshima, e as estripulias escatológicas de John Waters, porém, poucos filmes geraram tanta controvérsia e reações tão extremadas quanto às suscitadas por uma pequena pérola de baixo orçamento chamada Canibal Holocausto. Produzido em 1979 e lançado comercialmente no começo dos anos 1980, o filme ainda reverberava o cinema anárquico da década anterior; um suspiro de transgressão antes da ascenção do politicamente correto e da onda de conscientização ecológica que se espalhou pelo planeta.  Idealizado e dirigido pelo italiano Ruggero Deodato, o filme ainda é acusado com freqüência por seus detratores de ser uma obra essencialmente sensacionalista, que se apropria de um tema tabu, a antropofagia, para exibir um indigesto cardápio de sadismo, escatologia e violência gratuita (real e encenada), numa verdadeira ode ao mau gosto. O filme, no entanto, encontrou fervorosos defensores entre os fãs do cinema extremo, mas não sem criar polêmica mesmo entre os admiradores do gênero. O fato de ter sido censurado ou banido em mais de 40 países auxiliou na construção de sua fama de maldito, assim como as lendas em torno de sua produção se encarregaram de elevá-lo gradualmente a condição de filme mítico.

Em 1979, quando se embrenhou na Amazônia colombiana com uma pequena equipe e um modesto orçamento, Deodato não suspeitava da comoção que causaria no meio cinematográfico. Ele intencionava realizar uma experiência única, repetindo em tom mais grave o mesmo teor de aventura exótica com elementos antropofágicos que ele havia utilizado em seu filme anterior, O Último Mundo Canibal (Ultimo Mondo Canibale / 1977). Lançado na Itália em fevereiro de 1980, o filme revelou-se mais radical que o esperado, deixando a crítica perplexa, e o público em estado de choque. Canibal Holocausto extrapolou os limites entre realidade e ficção, num misto de aventura, horror e shockumentary, amparado em um paradigma original, copiado duas décadas depois, tanto no formato de linguagem quanto em sua estratégia de marketing, pelo superestimado A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project / 1999), de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, e mais recentemente por Atividade paranormal (Paranormal Activity / 2007), de Oren Peli.

Uma aventura exótica envolvendo tribos canibais e turistas incautos não era novidade para o habitualmente desconcertante cinema exploitation italiano dos anos 1970. O tema fora utilizado pela primeira vez numa produção italiana em 1972, pelo diretor Umberto Lenzi em Man From Deep River (Il Paese Del Sesso Selvaggio), e o sucesso popular desta produção deixou as portas escancaradas para que outros diretores se aventurassem num gênero tão pouco explorado.

Apesar da trama improvável, o diretor Deodato utilizou um golpe promocional bizarro, vendendo a idéia de que se tratava de um documentário real utilizado como fio condutor de uma trama ficcional paralela; e o público em geral acreditou. A ação divide-se em duas partes distintas, centralizando-se primeiro no misterioso desaparecimento de quatro documentaristas americanos ao tentarem retratar o feroz povo yanomamo (sic), uma das tribos antropófagas que viveriam isoladas da civilização numa parte remota da floresta amazônica. O fato leva o Prof. Harold Monroe (Robert Kerman) a penetrar no inferno verde em busca de uma resposta para os desaparecimentos. Durante o percurso ele enfrenta, além da natureza hostil, a fúria de outras tribos canibais, até entrar em contato com os yanomamos, e encontrar entre eles o material filmado pela equipe americana. De volta à civilização, o material encontrado revela uma verdade chocante, mudando o foco narrativo para o documentário em si, onde está contido o trágico destino da equipe, composta por Alan (Carl G. York), Faye (Francesca Ciardi), Jack (Perry Pirkanen) e Mark (Luca Barbareschi).

Neste ponto passamos a acompanhar a trama em primeira pessoa, e a linha segura e confortável que separa ficção e realidade, protegendo o espectador de conflitos éticos e morais, é rompida. A capa que reveste de ficção a trama é retirada. Serão reais os corpos empalados, os animais trucidados, os corpos destroçados e devorados? Deodato, num golpe de mestre do ofício, instaura a dúvida através do choque.

Após a morte de seu guia, a equipe, perdida em meio à selva, vai gradativamente perdendo a noção de humanidade, sendo consumida pelo horror, e pela obsessão em documentar todos os fatos. O contato com os selvagens desencadeia um repertório inominável de atrocidades, gerando cenas que se tornaram ícones do cinema exploitation, como a da índia empalada, o esquartejamento de uma tartaruga gigante, e a aldeia indígena em chamas.

As cenas explícitas de canibalismo, apesar de distorcerem ritos antropofágicos reais para seguirem a lógica própria do universo criado por Deodato e pelo roteirista Gianfranco Clerici, ainda são de grande impacto e incomodam os estômagos mais sensíveis. A perna do guia Felipe sendo amputada a golpes de facão, após ser picada por uma cobra ainda causa aflição, o banquete com cérebros de macaco e a famigerada cena da tartaruga geram a fúria dos ecologistas de plantão, e o estupro de uma índia pela equipe americana é tão repugnante quanto o Prof. Monroe sendo obrigado a devorar um fígado humano. O sangrento clímax embalado pela desconcertante trilha do veterano compositor italiano Riz Ortolani, eleva a tensão a níveis dantescos, sendo difícil esquecer o desespero dos atores diante de uma situação em que tudo parece ter saído do controle, e até mesmo a ficção parece estar sendo devorada pela realidade.

Na época de seu lançamento, a violência cometida no filme, principalmente as cenas reais com animais, gerou tanta controvérsia que Deodato precisou comparecer aos tribunais italianos para responder a processos por “obscenidade”, além de ter de provar que não havia assassinado realmente os atores em frente às câmeras. Uma das clausulas do contrato assinado pelos atores exigia que eles desaparecessem da mídia durante um ano, e esse foi um dos fatores que fortaleceu o mito de que teriam sido realmente devorados. Após a estréia, em carta endereçada a Deodato, o veterano diretor italiano Sergio Leone já havia alertado: “Caro Ruggero, que filme! A segunda parte é uma obra-prima de realismo cinematográfico, mas tudo parece tão real que acho que você vai ter problemas no mundo inteiro.”

Em 2007 o diretor americano Eli Roth, um fã assumido do filme, homenageou Deodato convidando-o para uma rápida aparição em O Albergue 2, no papel é claro, de um canibal.

II. Deodato e a reinvenção do canibal.

Para compreender o incômodo causado pelo filme, mesmo após trinta anos de seu lançamento, e a influência que um tema tabu como a antropofagia exerce sobre o imaginário popular, é necessário recuar através dos séculos até a origem etimológica da palavra canibal, para assim embarcar na complexidade de seu horror.

A palavra, ironicamente, foi inventada por outro italiano, Cristóvão Colombo. Ao desembarcar na América, Colombo ainda acreditava ter navegado através do mar tenebroso, onde habitariam criaturas fantásticas das mais variadas espécies, das sereias aos dragões, e foi com a mente povoada de seres lendários que ele ouviu e assimilou pela primeira vez, através de intérpretes arawak, a palavra cariba, que designava os ferozes índios caribes que devoravam seus inimigos, e que significa corajoso, ousado.

Colombo, através de um estranho silogismo, ligou a palavra cariba ao mito dos cinocéfalos, homens com cabeça de cão e apenas um olho, que segundo a lenda devoravam seres humanos, e habitavam um mítico continente paradisíaco. Colombo pensava ter descoberto o paraíso perdido, então uniu a lenda aos fatos e gerou o neologismo canibal (cariba +  canis + caniba).

A imagem do canibal chegou ao Velho Mundo, principalmente através das cartas náuticas, como o Novus Mundus de Américo Vespúcio, e de relatos de aventureiros como Hans Staden. A maioria das informações, porém, era envolta de exageros, que atestavam além da predileção dos selvagens por carne humana, a sua ilimitada crueldade. Alguns relatos ultrapassavam o limite da fantasia e faziam menção a homens-cães, crianças em regime de engorda para o abate, e até o engravidamento de prisioneiras para alimentar a gula dos guerreiros. Assim, a figura do canibal fixou-se rapidamente no imaginário europeu, com a antropofagia sendo interpretada erroneamente como um ato de subsistência, crueldade, e ato extremo de vingança contra o inimigo. “Tudo indica que apenas a vingança pode temperar um alimento que a humanidade recusa”, escreveria o Abade G. em sua “História das índias”.

E assim, apesar de pensadores mais esclarecidos, como Thevet e Montaigne terem renegado a fantasia, voltando o olhar para os aspectos ritualísticos, a imagem que definitivamente traduziu os habitantes da América para o Velho Mundo, foi a do horror puro e simples, como afirma Frank Lestringant: “O canibal- seu cortejo de crimes e seu arsenal de espetos, machadinhas e carnes humanas salgadas- instalava-se recém desembarcado, de forma duradoura, no imaginário popular”. E assim, a ficção tornou-se mais interessante do que a realidade, gerando entre os séculos XVI e XVII um tipo de literatura de grande aceitação popular, narrando aventuras fantasiosas em que o canibalismo era a atração principal, fazendo florescer ainda mais os mitos sobre o Novo Mundo e seus estranhos habitantes. O tema canibalismo já nasceu, portanto, sob o signo do sensacionalismo.

Em pleno século XX, Ruggero Deodato acidentalmente reinventa o canibal, e retoma inconscientemente a mesma vertente que gerou os folhetins sanguinolentos do século XVI, que inspiraram Rabelais e seu Gargantua e Pantagruel, o teatro grand guinol, e Salammbô de Flaubert, substituindo a literatura pela película, numa obra paradoxal que discute e condena o sensacionalismo ao mesmo tempo em que ironicamente aproveita-se dele. Canibal Holocausto é cinema primitivo por excelência, não renega sua veia popular, e guiado pelo instinto, oferece ao público sangue e circo. Os obstinados documentaristas de Deodato filmam com a mesma voracidade com que os canibais devoram a carne alheia, porém, acabam consumidos pela sua própria obsessão. “Quem são os verdadeiros selvagens?”, indaga um perplexo Prof. Monroe ao final do filme. A pergunta que pode soar pseudo-moralista, após um festival de atrocidades, reflete apenas uma cruel ironia.

Apesar de ter percorrido os cinema brasileiros durante os anos 80, sendo uma presença marcante nos cinemas-poeira daquele período, Canibal Holocausto jamais havia sido distribuído comercialmente

Ruggero Deodato

no mercado de vídeo brasileiro, seu lançamento em DVD pela Platina Filmes  vem sanar esta inexplicável lacuna, já que a maioria dos filmes do famigerado ciclo de canibais italianos foi lançado em VHS no país. As reações extremas do público em exibições recentes, ocorridas em mostras e festivais como o Fantaspoa, comprovam a força imagética da obra, que consegue impactar mesmo após a saturação da violência nas telas nos últimos 30 anos.

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