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DESCONECTE-SE E ABRA UM LIVRO- DICA N°1: FRANZ KAFKA

FRANZ KAFKA (1883-1924)

KAFKA E O MARAVILHOSO

Nascido em Praga em 1883, o escritor tcheco Franz Kafka foi um dos responsáveis pela ruptura estética que influenciaria toda uma geração de escritores e estabeleceria novos conceitos em relação ao “fantástico” e ao “maravilhoso”. Obras seminais como “O Processo”, “A América”, “O Castelo” e “A Metamorfose” foram de suma importância para a elaboração de uma nova estética, que fomentaria novos questionamentos em relação à teoria literária contemporânea.

Em “A Metamorfose”, Kafka narra a patética trajetória de Gregor Samsa, um homem comum que certa manhã acorda metamorfoseado em um inseto. A situação inusitada, inicialmente causa pavor, mas em seguida recai em um estado de total normalidade. É exatamente nesse ponto que a obra difere do conceito idealizado do “fantástico” para entrar no reino do “maravilhoso”. Kafka não causa estranheza ao meio em que insere suas tramas.

O fato de uma pessoa transformar-se repentinamente em um inseto monstruoso, a principio causa espanto, mas não gera o horror e a perplexidade que são comuns as obras fantásticas. A experiência

é rapidamente assimilada após o choque inicial, para em seguida inserir-se num contexto de normalidade. O bizarro e o absurdo tomam proporções apenas banais e integram-se perfeitamente ao cotidiano dos personagens. Assim Gregor Samsa aceita gradualmente a sua condição de inseto, como sua família habitua-se a sua estranha presença e ao fato inusitado, resignando-se a levar uma vida normal. O leitor por sua vez, também é obrigado a aceitar tal situação sem questionar a racionalidade dos fatos, pois o universo do “maravilhoso” não aceita tais questionamentos, a não ser os da lógica interna do próprio texto.

O filósofo grego Aristóteles, com seus rígidos conceitos sobre a produção de uma “arte verossímil”, já dissertava sobre a coerência interna de uma obra: “Ainda que o personagem a apresentar não seja coerente nas suas ações, é necessário, todavia, que (no drama) ele seja incoerente, coerentemente”.

A obra “fantástica” segundo Irene Bessiere se desenvolve através da “desconstrução de um verossímil de origem religiosa pelo jogo de uma racionalidade suposta comum ao sujeito e ao mundo”, ou seja, o homem deparado com uma situação tão incomum a sua realidade que pode desencadear uma reação de horror e conflito, coloca-se então no âmbito do “fantástico”.

O “maravilhoso” refere-se justamente ao texto em que a irracionalidade não causa “choque” e “torpor”, como o fato de a família de Samsa encarar com naturalidade a sua metamorfose. Em seu ensaio “Unheimlich”,  Sigmund Freud faz uma clara distinção entre ambos, em certo trecho comenta: “A situação altera-se tão logo o escritor pretenda mover-se no mundo da realidade comum. Nesse caso, ele aceita também todas as condições que operam para produzir sentimentos estranhos na vida real, e tudo o que teria um efeito estranho na realidade, o tem na sua história”.

Essa citação de Freud nos faz compreender que no “maravilhoso” tudo é possível, pois estamos adentrando em um universo com uma lógica interna que obedece apenas as suas próprias regras.

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