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DELÍRIOS DE UMA COLETIVA

Aproveitando o fato de Encarnação do Demônio estar novamente em evidência (para apreciação, revisão e crítica) após sua estréia no Canal Brasil, resgato esta entrevista que realizei com Mojica em 2008 quando do lançamento  do filme em Porto Alegre durante o 4° Fantaspoa. Uma coletiva com Mojica pode se tornar uma aventura inusitada, um caleidoscópio frenético refletindo um turbilhão de idéias que habitualmente se transformam em longos monólogos onde o mítico diretor desenvolve questões que pouco ou nada tem a ver com a pergunta proposta, ou como bem ilustrou Felipe Guerra, também presente nesta coletiva: “Entrevistar Mojica é algo tão surreal quanto assistir Delírios de Um Anormal sem estar chapado”. Porém, por mais delirante que pareça, ouvir um realizador lendário dissertar sobre sua trajetória sempre é algo instigante.

ESTRANHO ENCONTRO COM O MESTRE MOJICA

Eu e Mojica durante o 4° Fantaspoa

CV– O personagem Zé do Caixão nasceu de um pesadelo. Os pesadelos continuam sendo uma fonte de inspiração?

Mojica– Pra mim é! Em 1963, em outubro exatamente, os padres me desiludiram, disseram que eu não servia para fazer cinema. Eu estava fazendo uma fita em 1961 (Meu Destino em Tuas Mãos), pra crianças, um filme feliz, legal, os padres e as freiras aplaudiram de pé, mas quando eu fui lançar ninguém quis a fita. Eu vinha de “A Sina do Aventureiro”, um bang bang meio nosso, bem brasileiro, e eu faço de repente um filme bem água com açúcar. E aí eu fui falar com o padre, falei: “Vocês aplaudiram de pé, pediram que eu fizesse, e o cinema não quer exibir a fita porque é muito água com açúcar”. Aí o padre virou pra mim e disse: “Olha meu filho, eu sinto ter de falar, você não nasceu pra fazer cinema.” E eu: “Eu só sei fazer isso, minha religião é o cinema!” E o padre: ”Você não nasceu pra isso, as pessoas tem de nascer, você podia vender uva passa, engraxar sapatos que é mais fácil, pega uma outra profissão, mas esqueça o cinema”. Pô, aí eu fiquei meio revoltado, então tinha James Dean com “Juventude Transviada”, “Vidas Amargas”, então eu pensei, o negócio é tentar fazer uma fita sobre a mudança dos jovens no Brasil, já que tavam mudando no mundo todo. E aí eu tava com “Geração Maldita” pra fazer. Consegui juntar uns associados pra fazer o “Geração Maldita”. Eu tava com barba porque tive um problema intestinal e invés de fazerem promessa pros meus cunhados deixar a barba, fizeram pra mim, eu por respeito deixei a barba, né. E aí, saio um dia cansado, chego em casa, tô jantando, e o cansaço era muito, e eu já tinha tomado comprimidos pra dormir, eu sou dependente de comprimidos, sofro muito de insônia. E aí acabei adormecendo na mesa, e devo ter me retorcido, me agitado. E ao adormecer veio esse pesadelo com a figura de preto, que eu retratei no “Esta Noite levarei Sua Alma”, que me levava pra uma gruta onde tinha uma lápide com data do meu nascimento e da morte! Era uma espécie de um prenúncio pra mim entrar naquilo que eu gostava, o horror, o terror, que eu já tinha feito umas fitas experimentais, aos 10, 12 anos. Trouxeram um pai de santo, acharam que eu estava com algum espírito maligno dentro. O pai de santo falou: “Pronto, tirei o diabo do corpo dele”! Eu disse que não tava com diabo nenhum, pô! Eu tive uma premonição, eu vou fazer outro negócio. Não quis saber mais de dormir, então fui buscar minha secretária, bati na casa e ela ficou toda apavorada: “Aconteceu alguma coisa?” Eu disse: “Não! Preciso de você pra fazer um resumo, eu não vou mais fazer “Geração Maldita”, eu vou fazer “A Meia Noite Levarei Sua Alma”! (…) Ficou um negócio bem cabalístico, 13 latas e 13 dias, era o material e o tempo que eu tinha pra filmar e pra pagar a equipe, porque a produção já tinha sido levantada. E aí começou a minha procura do Zé do Caixão. (…) Eu tinha achado uma capa de Exu, que o zelador do prédio do meu estúdio praticava macumba, e esqueceu a capa, e tinha um maço de cigarros com uma cartolinha, pô, já era a roupa do personagem.

CV “Encarnação do Demônio” levou 40 anos para ser realizado. O roteiro foi reescrito pelo cineasta gaúcho Dennison Ramalho. O quanto foi mantido da trama original?

Mojica– No original o Zé tinha uma pequena passagem por São Paulo, agora tudo se passa na grande metrópole. Só aí já foi uma mudança muito grande. Com a violência, a vaidade de uma cidade grande, ficou um prato muito saboroso. A superstição continua a mesma, mas sentimos que tínhamos de partir pra mais violência porque estávamos numa cidade violenta. Queira ou não São Paulo já está chegando na altura do Rio. Em violência já estão se igualando. Então, acho que aí já foi uma modificação muito grande. Eu vejo uma outra modificação, aqui nós temos os espectros perseguindo o Zé em pleno centro da cidade. Espectros preto e branco junto com o colorido. A outra fita era preto e branco, só o inferno colorido, e agora se inverteu. Mas a grande vingança é a seguinte. Quando eu fiz o “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, nos 30 segundos finais a censura me obrigou a fazer o Zé do Caixão se converter. Ele teve de pedir a cruz quando ele tava morrendo. No original dizia “Não acredito!”, mas daí teve de dizer “Acredito!”, e de repente a cruz. Eu tinha um problema grave, eu não podia falar pra ninguém, só os amigos sabiam o que aconteceu, então o público não sabia, e era uma incoerência, o Zé afundando e dizendo: “Eu creio! A cruz padre! A Cruz!” E aqui nós demos o troco, filmamos como tinha de ser. No lugar de pedir a cruz o Zé afunda no lago, mas levanta e pega a cruz, renegando cristo, pra crucificá-lo outra vez. Então é a resposta ao passado, a essa censura violenta dessa ditadura, tivemos algo bem violento, bem forte. Ah, também temos baratas, ratos, aranhas no próprio Zé do Caixão. Antes ele punhas nas mulheres, agora as mulheres botam as aranhas nele. Temos tudo pra deixar o público contente. E sempre tem alguém que fala, reclama sobre o lance da sexualidade. A sexualidade caminha com o terror.

CV– Fome, miséria, violência, injustiça. A realidade brasileira tem fornecido uma vasta matéria prima pra gerar o horror. “Encarnação do Demônio” incorpora em sua trama elementos da violência urbana. O que é mais assustador, o medo do desconhecido, o sobrenatural ou a realidade brasileira?

Mojica– A realidade brasileira. A realidade brasileira na verdade assusta uma determinada camada social, da média para cima, agora, da baixa à baixíssima ainda existe uma superstição, um medo danado. Você roga uma praga, o cara tem medo, todo mundo usa patuá, medalhão, mascote, pra realmente tirar as maldição. Então, a classe baixa mesmo, tem medo do sobrenatural. De ter castigo, de ter uma perseguição de Satanás. Na minha concepção, Deus criou o homem, e o homem criou o Diabo. Para os elementos com mais escolaridade, mais vividos, o medo é o da violência, aquela em que você sai e não sabe se volta pra casa. Esse é o grande problema!

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Encarnação do Demônio

“Nesta segunda-feira Encarnação do Demônio estreou no Canal Brasil. Muitas teorias foram formuladas na tentativa de elucidar o porquê do fracasso do filme nas bilheterias brasileiras, eu mesmo quebrei a cabeça tentando encontrar alguma explicação plausível para a péssima recepção do público, e apenas consegui esboçar mais dúvidas que certezas. Porém, se a obra de Mojica nunca foi unanimidade, foi na adversidade que ela encontrou sua força. Talvez a televisão seja o veículo ideal para auxiliar  a obra em suas futuras revisões, encontrando ali uma nova geração de fãs. Encarnação do Demônio será reprisado no dia 24 de abril, às 22 horas. Aproveito para republicar uma breve resenha que escrevi no calor do momento após assistir o filme em seu lançamento durante o 4° Fantaspoa.”

Encarnação do Demônio

“Das trevas surge o oculto. O ventre perfeito gesta a maior criação: um ser que desconheça qualquer limite. Apenas força e fulgor; ímpeto e desejo. A perfeição suprema em meio ao caos. Excesso que surge do completo vazio. Para além de qualquer dor, ou loucura. Mais alto que Deus, mais baixo que Satã. Poderosa, indômita, impiedosa, lasciva, livre. É preciso gerar esta criança. Forjá-la na continuidade de meu sangue.” (Zé do Caixão)

Cineasta maldito, mítico e controverso, José Mojica Marins invadiu de tal forma o inconsciente coletivo do povo brasileiro que se tornou uma figura indissociável de sua maior criação, Zé do Caixão! Ícone absoluto do horror brasileiro, José Mojica Marins deixou sua marca no cinema nacional através de uma filmografia tão vasta e singular quanto incompreendida, composta por obras como “À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963)”, “Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967)” e “O Ritual dos Sádicos (1970)”. Admirado por cineastas canônicos como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, Mojica sobreviveu à margem da indústria cinematográfica brasileira, resistindo bravamente à falta de apoio estatal, ao descaso da crítica e ao preconceito com o gênero horror, e após uma inexplicável gestação de 40 anos consegue enfim produzir “Encarnação do Demônio”, o desfecho da trilogia iniciada em 1963 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”.

“Encarnação do Demônio” é o retorno às telas do famigerado personagem Josefel Zanatas, o sádico e obstinado coveiro mais conhecido como Zé do Caixão. Mojica estava distante da direção desde 1987, e sem personificar o sinistro personagem em um filme próprio desde “Delírios de um anormal” (1978). Neste período de ausência nos cinemas o personagem sobreviveu no imaginário popular devido ao uso que o diretor fez de sua criação. Durante os anos 80 e 90, por uma questão de necessidade econômica, Mojica se viu obrigado a incorporar Zé do Caixão nos mais diversos campos midiáticos (de apresentador de TV à atração do Playcenter), fortalecendo o amálgama entre criador e criatura. Porém, diante dos olhos das platéias mais jovens a superexposição do personagem o transformou em uma mera caricatura, distante do ser que gerava o pavor no público e nos censores federais das décadas de 60 e 70. “Encarnação do Demônio” recupera a essência maléfica do personagem. O homem da capa preta, da cartola e das unhas compridas, está de volta, ainda mais sacrílego, iconoclasta e cruel.

A trama de “Encarnação do Demônio” dá seguimento aos fatos ocorridos em “Está Noite Encarnarei em Teu Cadáver”. Após 40 anos preso por seus crimes, Zé do Caixão é posto em liberdade, porém, o cárcere não sobrepujou a sua filosofia de vida, composta por uma teoria quase nietzscheana a respeito do “homem superior”. Zé do Caixão tem como principal meta a imortalidade do seu sangue, e isto somente será possível através do nascimento do filho perfeito, que só poderá ser concebido do ventre de uma “mulher superior”. Com o auxilio de Bruno (Rui Resende), seu fiel discípulo, o coveiro irá raptar belas mulheres que terão que passar por macabras e dolorosas provas até serem consideradas dignas de gerar o homem perfeito.

Ao sair da prisão, Zé é obrigado a morar em uma favela, e encontra um universo muito diferente daquele que deixou ao ser trancafiado no fim dos anos 1960, e assim, precisa se adaptar aos novos tempos. E nesta nova realidade onde a violência urbana, a pobreza e a truculência policial assustam mais do que qualquer entidade sobrenatural, o velho coveiro precisa ser tão cruel quanto o ambiente hostil que o acolheu, e é neste aspecto que os desavisados irão encontrar um Zé do Caixão bem diferente daquele que estavam acostumados a ver na televisão. Assombrado por fantasmas do passado e obcecado por gerar seu filho, ele irá desencadear um banho de sangue sem precedentes no cinema brasileiro, com cenas grotescas, capazes de corar Jigsaw, ou qualquer outro psicopata genérico do cinema americano. São especialmente incomodas as cenas em que uma garota é sufocada, tendo sua cabeça enfiada num barril cheio de baratas (reais), ou quando outra é costurada dentro de um porco, numa das seqüências mais chocantes e surreais do filme.

A jornada dantesca de Zé do Caixão, uma figura anacrônica perdida em meio à modernidade, é o resgate não apenas de um cineasta de talento indômito, submetido ao limbo pela incompreensão da indústria cultural, mas é também o resgate de um gênero cinematográfico que ainda enfrenta forte resistência por parte, não apenas da crítica brasileira, mas do grande público, que prefere engolir a seco os similares estrangeiros e não percebe as qualidades das produções nacionais, tanto que a obra de Mojica tornou-se objeto de culto ao redor do mundo, enquanto no Brasil ainda é vista com incompreensível descaso.

Em “Encarnação do Demônio”, Mojica trabalha pela primeira vez com um orçamento digno, e saltam aos olhos as qualidades técnicas do filme, seja pela excelente fotografia do veterano José Roberto Eliezer, pela impactante trilha de André Abujamra e Marcio Nigro ou pelo elenco afiado que reúne talentos de várias gerações, como Jece Valadão (falecido durante as filmagens), Adriano Stuart e Milhem Cortaz. Um dos desafios do filme é conquistar um publico que, apesar de conhecer a figura de Zé do Caixão, na verdade desconhece a obra de José Mojica Marins. O Zé do Caixão do cinema é uma figura intrínseca e malévola, que destoa da figura caricata e patética que se limitava a rogar pragas em programas de televisão. Os programas televisivos apagavam a verdadeira essência do personagem, sendo um freio para a imaginação mórbida de Mojica. Livre das amarras ele voltou a soltar sobre os espectadores os demônios aprisionados em sua imaginação, e grande parte do mérito é do talentoso roteirista gaúcho Dennison Ramalho (diretor do sombrio e premiado curta “Amor Só de Mãe”) que captou com maestria a aura maldita que envolve o personagem, e num trabalho de fã ardoroso deu um seguimento digno à mitologia iniciada no longínquo ano de 1963.

José Mojica Marins, após travar uma longa e árdua batalha contra a mediocridade e a incompreensão do stablishment da indústria cultural brasileira, encerra enfim sua trilogia de obsessão e horror, e no auge dos seus 72 anos ainda tem forças para renegar o canto do cisne, e promete lançar ainda mais sangue e vísceras nas telas dos cinemas brasileiros.

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