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DEMÔNIOS E MARAVILHAS- UM BREVE PANORAMA INFERNAL NO CINEMA

Imagem

Haxan- A Feitiçaria Através dos Tempos (1922)

          I

Lúcifer, o Anjo Caído, o grande adversário do Criador e de sua criação, o

homem, é uma das figuras mais emblemáticas da cultura judaico-cristã. O anjo

que desafiou Deus, e foi banido do paraíso celeste por sua ousadia, travando

desde então uma batalha pela alma humana, tem sido uma metáfora milenar

para ilustrar e expiar os males que assombram a humanidade.

Com a ascensão do cristianismo, sincretismos religiosos e outras formas

de assimilação cultural acabaram gerando inúmeros nomes e formas para

designar as múltiplas facetas desta criatura mítica que representa o contra

peso da balança na eterna dualidade entre o bem e o mal. Lúcifer, Satanás,

Belzebu, Mefistófeles, Pazuzu, seja qual for a nomenclatura utilizada, é o termo

grego “daemon” (δαίμων), que origina a sua designação genérica mais comum,

Demônio. Da serpente que seduz Eva no Genesis, passando pelo dragão do

Apocalipse e das lendas medievais até a figura popular do homem com chifres

e cascos no lugar dos pés, esta entidade maléfica ultrapassa os limites do

contexto bíblico e dos delirantes sermões admoestatórios sobre os tormentos

do inferno, para fazer parte de uma mitologia universal, gerando uma fonte de

inspiração inesgotável para reflexões artísticas sobre a natureza humana.

O cinema em seus primórdios, assim como ocorreu com a pintura, a fotografia

e outras formas de arte, também foi considerado por muitos uma ferramenta

diabólica. Religiosos alertavam os fiéis sobre a ilusão demoníaca e a

permissividade moral da nova invenção, como lembra Jean-Claude Carrière

em seu ensaio “A Linguagem Secreta do Cinema”, espectadores muçulmanos

fechavam seus olhos diante da tela, pois “uma antiga e severa tradição proibia-

os de representar a forma e a face humanas, criações de Deus”. A imitação do

mundo era, portanto, obra do Demônio.

Pois o cinema parecia realmente uma ferramenta ideal para a ação do mítico

mestre da mentira e da ilusão, e não tardou para que ele desse as caras

na nova invenção, que assombrava e seduzia o público no final do século

XIX. O pioneiro cineasta francês Georges Méliès (1861-1938), foi um dos

Le Diable au Convent

Le Diable au Convent

precursores ao utilizar a figura do Demônio em suas produções. Diabos de

traços picarescos, herança das sátiras medievais, infestavam suas produções,

como Le Diable au Convent (1899), Le Cake Walk Infernal (1903) e Le

Chaudron Infernal (1903). Amparado por trucagens visuais nunca antes

vistas pelo público, Méliès, segundo Jean Tulard, “rompeu com o aborrecido

cinema-verdade de Lumière, criando o cinema-espetáculo”. Ao fornecer ao

público, demônios e maravilhas, além de uma fascinante viagem à lua, o

experimentalismo de Méliès auxiliou a conceber a linguagem cinematográfica

que hoje conhecemos.

Outros pioneiros do cinema se aventuraram na exploração de figuras

diabólicas, como o americano D.W. Griffith, com The Devil (EUA, 1908), e os

italianos Francesco Bertolini e Adolfo Padovan, que em 1911, inspirando-se

esteticamente nas ilustrações de Gustav Doré, realizaram L’Inferno (Itália,

1911), uma impressionante adaptação da primeira parte da obra A Divina

 L’Inferno

L’Inferno

Comédia, de Dante Alighieri. Imortalizado na obra Goethe, o mito de Fausto,

homem que em busca de juventude e conhecimento vende sua alma para o

demônio Mefistófeles, foi levado às telas pela primeira vez em 1904, num curta-

metragem do francês Georges Fagot, mas sua representação mais marcante

encontra-se em uma obra crepuscular do expressionismo alemão, Fausto

(Faust – Eine deutsche Volkssage, 1926), de F.W. Murnau. Porém, entre

as obras seminais no tratamento do tema, talvez seja Häxan, A Feitiçaria

Através dos Tempos (Häxan, 1922), de Benjamin Christensen, a que

melhor sobreviveu à evolução da narrativa cinematográfica, apresentando um

pesadelo de beleza lúgubre, que emula visualmente a obra do pintor holandês

Hieronymus Bosch, num universo repleto de demônios, bruxas medievais e

freiras possuídas, numa trama que mescla a ficção e o documental, explorando

teorias tanto místicas como racionais para relatar a influência de entidades

maléficas em nosso mundo. Em Häxan, religiosidade, medos e superstições

medievais se confrontam com as teorias psicanalíticas em voga na época.

Em seus primeiros anos, a abordagem do Diabo no cinema bebeu diretamente

da fonte literária (Goethe, Dante), nas lendas medievais e nos conceitos

bíblicos. Seres demoníacos, munidos de rabo e chifres, pululavam nas telas

fazendo caretas, seduzindo mulheres incautas ou barganhando a alma de

homens gananciosos, e mesmo que sua essência fosse claramente maléfica

para a audiência da época, vistas hoje, essas criaturas burlescas soam

ingênuas, gerando mais risos do que temor. Curiosamente, a figura mais

representativa daquilo que seria a “encarnação do mais puro mal”, pouco foi

explorada nos primórdios de um gênero que tem por natureza o objetivo de

assustar as pessoas, o cinema de horror.

II

Night of the demon poster

Durante os anos 1930 e 1940, os estúdios da Universal

auxiliaram a popularizar o gênero, apavorando o público com títulos

marcantes como Drácula (1931), de Todd Browning, Frankenstein (1931), de

James Whale, e A Múmia (1932), de Karl Freund, mas durante este período

foram raras, ou nulas, as incursões do Demônio como protagonista, salvo

eventuais presenças em produções bíblicas.

Em 1957, Jacques Tourneur, veterano diretor dedicado ao cinema fantástico,

que nos anos 1940 havia realizado as obras primas A Morta-Viva (I Walked

With a Zombie) e Sangue de Pantera (Cat People), realizou o tétrico

A Noite do Demônio (Night of The Demon), onde um homem buscava

desesperadamente livrar-se de uma maldição que o levaria, literalmente, para

o fogo do inferno. Tourneur sempre prezou pela sutileza, preferindo a sugestão

ao susto fácil, e brigou inutilmente com os produtores para que a figura do

Demônio fosse apenas sugestionada, mas sua única e flamejante aparição

foi suficiente para aterrorizar o público. Fã confesso da obra de Tourneur, em

2009 o diretor Sam Raimi inspirou-se em A Noite do Demônio para conceber

a trama de seu Arraste-me Para o Inferno (Drag Me To Hell).

Os anos 1960 despontaram com novas possibilidades para a exploração de

um mito tão controverso. Movimentos de contracultura, influenciados pelo

esoterismo da Era de Aquário, abriram as portas para diversas espécies de

seitas, e o satanismo, revisitado através da obra do ocultista inglês Aleister

Crowley, ficou em voga entre os jovens, influenciando a música, a literatura, e o

cinema.

Neste período conturbado, repleto de experimentações, enquanto os Rolling

Stones cantavam Sympathy for the Devil, a própria indústria do cinema

passava por um processo radical de transformação, e o Demônio começava

a figurar em diversas produções cinematográficas, e assim surgem obras

ousadas e pouco convencionais como Invocation of My Demon Brother

(1969), de Kenneth Anger (seguida de Lucifer Rising, 1972) uma produção

avant-garde, onde o polêmico fundador da Igreja de Satã, Anton LaVey

representava o próprio Senhor das Trevas, e

Stevens, um filme peculiar, de soturna fotografia expressionista, onde numa

Incubus

Incubus

terra indefinida um humano (William Shatner) e uma Sucubus (espécie de

demônio feminino), se apaixonavam. Um amor que colocava a alma imortal

do homem em jogo, disputada por outro demônio, o Incubus do título, que

nascia das entranhas da terra e assumia a forma de um grande bode negro,

uma das representações clássicas do Baphomet medieval. Para aumentar sua

estranheza, a produção é totalmente falada em esperanto, e fatos sinistros

contribuíram para aumentar sua fama de filme maldito. Não bastasse o fato

de o interprete de Incubus, o ator Milos Milos, assassinar a amante e cometer

suicídio logo após as filmagens, na noite de estréia o cinema onde o filme

seria exibido pegou fogo, e algum tempo depois os copiões desapareceram,

tornando o filme inacessível durante mais de trinta anos, até que uma cópia em

bom estado fosse encontrada na Cinemateca Francesa.

Ainda no começo da década o diretor polonês Jerzy Kawalerowicz abordou o

histerismo religioso em Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od aniolów ,

1961), resgatando a história a respeito de freiras alegadamente possuídas,

abordada anteriormente no clássico Häxan. O tema seria revisitado pelo inglês

Ken Russell em 1971 com o polêmico Os Demônios (The Devils), tornando-se

a base para um subgênero conhecido como nunsesploitation. Estas obras se

baseavam num fato em comum, o notório caso das Freiras de Loudun, ocorrido

na França em 1632, quando religiosas de um convento cometeram sacrilégios

declarando estarem sob a influência de demônios. Até mesmo a tradicional

produtora inglesa Hammer, notória por seu ciclo de filmes sobre o Conde

Drácula, deixou o vampirismo um pouco de lado para produzir As Bodas de

Satã (The Devils’ Ride Out , 1968), e alguns anos depois retornou ao tema do

satanismo com Uma Filha Para o Demônio (To The Devil a Daughter, 1976),

onde uma jovem Nastassja Kinski era oferecida em tributo ao Diabo.

Em meio a dezenas de produções baratas de horror que se sucederam neste

período, é o diretor Roman Polanki e seu notório O Bebê de Rosemary

(Rosemary’s Baby, 1968), quem explora de forma mais contundente a essência

do mal. Os demônios deixavam de ser meras metáforas e carnavalizações,

para se tornarem seres tangíveis, assim como os seus simpáticos vizinhos

de apartamento. O impacto do filme só não foi maior do que o horror que se

estabeleceu fora das telas, quando em 1969 a esposa de Polanski, Sharon

Tate, grávida de oito meses, foi brutalmente assassinada junto com três

amigos, pelos membros da famigerada Família Manson, num dos crimes que

mais chocaram a sociedade norte-americana nos anos 1960. Em 1980, quando

John Lennon foi assassinado diante do edifício Dakota, local onde ocorreram

as filmagens de O Bebê de Rosemary, a aura negra da produção voltou a ficar

em evidência.

Porém, se o filme de Polanski abriu portas para o interesse dos grandes

estúdios sobre o tema, foi William Friedkin, em 1973, quem cimentou de

forma permanente a imagem do Demônio no cinema com O Exorcista

(The Exorcist). A história da possessão demoníaca de uma garotinha, que

blasfema contra Deus, comete automutilação, e se masturba com um crucifixo,

O Exorcista

O Exorcista

causou além de choque e pesadelos em platéias ao redor do mundo, uma

impressionante bilheteria e 10 indicações ao Oscar. Um feito memorável

para uma obra inserida numa linguagem tradicionalmente vista pela crítica

como um subgênero. Não demorou para que outros filmes inspirados em seu

sucesso comercial explorassem a mesma fonte, e até mesmo o plagiassem

descaradamente, como os italianos O Anticristo (L’anticristo, 1974) de

Alberto De Martino e Espírito Maligno (Chi Sei?, 1974), de Ovídeo G.

Assonitis. O cinema brasileiro também realizou algumas incursões no rastro

de O Exorcista, como Exorcismo Negro (1974), de José Mojica Marins, e

Seduzidas Pelo Demônio (1978), de Raffaele Rossi. Até mesmo o folclórico

cômico Mazzaropi satirizou a obra de Friedkin em O Jeca Contra o Capeta

(1976).

Com a figura do Demônio rendendo nas bilheterias, os grandes estúdios

continuavam investindo no tema, possibilitando que em 1976 Richard Donner,

amparado no Apocalipse de São João, concebesse A Profecia (The Omen),

outra obra emblemática para o gênero, que abordava o nascimento do

Anticristo; a materialização do mal na forma de uma criança, que ao crescer

tomaria o poder e iniciaria o declínio da humanidade.

Se nos primórdios do cinema o Diabo era apenas uma figura caricata, uma

metáfora ingênua e por vezes burlesca do conflito entre o bem e mal, as

obras de Polanski, Friedkin e Donner expandiram a presença das entidades

malignas para o universo físico, onde o campo de batalha deixava de ser

metaforicamente a alma humana, para afligir corporalmente crianças inocentes,

ou gerar um ser com intenções de exterminar com um golpe toda humanidade.

O horror passou a se originar na perversão da pureza infantil. Assim, as

crianças que antes representavam a esperança, passavam a idealizar um

futuro sombrio. O temor metafísico transforma-se no horror da destruição

em massa, refletindo temores racionais, como a paranóia de uma guerra

nuclear que atormentaria o mundo nos anos 1980. Um demônio possuindo um

presidente com o poder de iniciar a terceira guerra mundial, certamente era

mais aterrorizante que um diabo da Idade do Bronze atormentando freiras num

convento isolado do século XVII.

O Anjo expulso do Paraíso parece ser uma figura de potencial inesgotável para

espelhar os nossos temores, mesmo após figurar em centenas de produções

nestes mais de cem anos de cinema. Apesar de explorado desde o princípio

em todos os gêneros, passando pelas farsas de Méliès, e das comédias como

O Pequeno Diabo (Il piccolo diavolo, 1988), de Roberto Benigni,

existencialista de obras como Sob o Sol de Satan (Sous le soleil de Satan,

1987), de Maurice Pialat, a sua natureza grotesca e complexa o tornou figura

indissociável do cinema de horror, além de render desafios aos atores que o

interpretam. Nos anos 1980, Robert De Niro realizou uma marcante atuação

ao compor um refinado Louis Cyphre, em Coração Satânico (Angel Heart,

1987), de Alan Parker. Em 1997, em O Advogado do Diabo (The Devil’s

Advocate), de Taylor Hackford, o ator Al Pacino imprimiu em seu maléfico

personagem todo o sarcasmo e o cinismo dignos de um embusteiro infernal.

Porém, curiosamente coube a uma mulher, a andrógina atriz italiana Rosalinda

Celentano, a interpretação do Demônio mais enigmático e paradoxal dos

últimos anos, na polêmica produção de Mel Gibson, A Paixão de Cristo (The

Passion of The Christ). Ao ceder o papel para uma mulher, Gibson nos lembra

que o feminino também ostenta sua porção satânica, herança das lendas de

Eva, Lilith, e da força das deusas pagãs.

Em seu livro “Linguagem e Mito”, Ernst Cassirer afirmou que “cada impressão

que o homem recebe, cada desejo que nele se agita, cada esperança que o

atrai e cada perigo que o ameaça, pode vir a afetá-lo religiosamente”. Ainda

vivemos num mundo onde a sombra dos mitos pode desencadear medos

ancestrais, temores irracionais que tomam formas diversas e podem ser

compreendidos em suas manifestações artísticas. Parafraseando Cassirer

(embasado no significado original do termo grego daemon), se for para encarar

esses “demônios momentâneos que vem e vão, aparecendo e desaparecendo

como as próprias emoções subjetivas que os originam”, que seja através da

ficção de uma tela de cinema.

(artigo originalmente publicado no livro “Fim do Mundo:Guerras, Destruição e Apocalipse na História e no Cinema / Ed. Argonautas)

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O MÊS EM QUE PORTO ALEGRE RESPIROU CINEMA!

Mostra Kenneth Anger no mezanino da Usina do Gasômetro

Durante o mês de julho Porto Alegre vivenciou um raro momento de verdadeiro êxtase entre os cinéfilos locais. Os menos atentos aos eventos culturais relativos a cinema, ou simplesmente insensíveis as artes em geral, não perceberam ou deram importância a feliz conjunção de agendas que possibilitou o fato de nomes como Kenneth Anger, Claire Denis e Lamberto Bava estarem perambulando simultaneamente pelas ruas da cidade. Estes cineastas tão

Anger e Denis em encontro inusitado

díspares quanto importantes em seus respectivos nichos podiam ser vistos passeando tranquilamente pela Rua da Praia, bebendo um cafezinho no Mercado Público ou assistindo ao pôr do sol na beira do Guaíba. Presenças inusitadas que tornaram a cidade um cenário quase surreal, de ares fílmicos, pois para os amantes do cinema, estas figuras aparentemente comuns bebendo o cafezinho na mesa ao lado não passavam despercebidas, estavam envoltas na mítica de suas obras.

Enquanto Lamberto Bava era o homenageado do VII FANTASPOA, tanto Claire Denis como Kenneth Anger tinham suas obras dissecadas em retrospectivas na Usina do Gasômetro. Por trabalhar na Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da prefeitura junto com Bernardo de Souza e Marcus Mello, que com esforços hercúleos foram os responsáveis pela vinda de Anger e Denis, tive a oportunidade de participar ativamente destas mostras e dialogar com estas figuras icônicas.

Mostra Kenneth Anger no mezanino da Usina do Gasômetro

Receoso com a aura maldita envolvendo o cineasta místico que concebeu “Invocation My Demon Brother”, “Lucifer Rising” e o livro “Hollywood Babylon”, encontrei Kenneth Anger ainda no aeroporto, e tive minhas ressalvas dissipadas ao me deparar com um senhor sorridente e acessível, que em nada lembrava o artista obscuro, famoso seguidor dos preceitos de Aleister Crowley, sempre relacionado a temas polêmicos envolvendo arte, homossexualismo e missas negras. Não foi à toa que os Rolling Stones compuseram “Simpathy for the Devil” em sua homenagem. Aos 84 anos Anger parecia sereno, sempre esboçando um sorriso resplandecente, ao contrário de seu acompanhante, o sisudo artista multimídia e ocultista Brian Butler.

Na coletiva de imprensa a idade pareceu lhe pesar nos ombros, e no geral Anger foi lacônico, respondendo sem muito entusiasmo algumas questões sobre sua obra ou se esquivando de forma bem humorada de perguntas sobre sua relação com rituais ocultistas. Quando indaguei se Hollywood ainda era uma Babilônia sobre a qual valeria escrever algo a respeito, respondeu que tem um terceiro volume de “Hollywood Babylon” quase finalizado, mas tem receio de lançá-lo, pois certamente seria processado pelos adeptos da Cientologia. Sobre o satanismo, não apenas em seus filmes como em sua trajetória pessoal, contrapôs que as pessoas as vezes não compreendem o seu estranho senso de humor, e o levam mais a sério do que deveriam. Porém, se Anger apenas quis se desvencilhar do assunto, talvez por estar cansado de responder sobre o tema, ou se realmente a magia era apenas mais uma ferramenta lírica em seu trabalho, seu amigo Brian Butler parece realmente levar as forças ocultas com seriedade. Ao final da coletiva Butler foi conversar com meu amigo Antônio Augusto

Fagundes Filho (mestre em tarô e outras atividades mágicas), que foi quem

Brian, Antônio e eu, na caça das entidades.

durante a coletiva mais manifestou curiosidade nas atividades demoníacas de Anger. E o interesse de Butler era claro, “brazilian black magic”, a boa e velha macumba. Após a coletiva acompanhamos Antônio numa tour pelas “floras’ do Mercado Público, e ficamos o resto da manhã envoltos com exus, pombas giras, pretos velhos e outras entidades. Engraçado foi explicar para Brian a denominação de algumas entidades da umbanda. Como traduzir “Exu Tranca Rua”? Com meu inglês macarrônico arrisquei um “Exu Lock Street”. Durante todo mês de julho a obra de Anger pôde ser devidamente apreciada numa exposição delirante que ocupou um grande espaço no 2° andar da Usina do Gasômetro. O velho cineasta deu seu aval, e retornou para sua babilônica Hollywood, nos deixando em dúvida sobre o quanto de realmente demoníaco havia na ostentação de seu simpático sorriso.

A retrospectiva da obra de Claire Denis na Sala P.F Gastal, foi essencial para uma reavaliação (e destruição) de conceitos que eu havia sedimentado durante anos sobre o trabalho desta peculiar realizadora francesa. Nunca fui um grande entusiasta de sua visão de cinema, mas sempre admirei a força com que ela defende suas opções narrativas e estéticas, e nesta revisão, filmes como “Desejo e Obsessão” e “35 Doses de Rum” (exibidos em belas cópias em 35mm)

Aula de cinema com Claire Denis

cresceram imensamente, apagando um certo ar de formalismo presunçoso que eu achava existir em seus trabalhos. E uma das surpresas mais agradáveis foi assistir “US Go Home”, uma rara produção realizada para a TV (para a série Tours lês Graçons ET lês Filles de leur Age) sobre a juventude francesa dos anos 60, que se tornou instantaneamente o meu filme preferido da diretora. Porém, o grande mérito desta retrospectiva foi a presença da própria Denis. Após a exibição de “Beau Traveil”, filme de abertura da mostra, realizou-se um debate, mediado pelo excelente montador Milton do Prado, que se transformou em uma extasiante explanação sobre a arte de fazer filmes.  O diálogo franco com o público, onde a realizadora conversou sobre seu processo criativo, suas influências, escolhas e experiências, foi uma absurda aula de cinema como raramente tive a oportunidade de presenciar. Conversei brevemente sobre o começo de sua carreira, iniciada como assistente de direção de um dos meus cineastas prediletos, Dusan Makavejev, em “Sweet Movie”. Ela revelou que a lição mais importante apreendida como assistente foi “não ter medo”. E falou isso não em termos artísticos, mas se referindo à experiência de vida. Aprender a nadar, andar de motocicleta, e realizar outras atividade perigosas que lhe eram exigidas em um filme, foram coisas fundamentais para auxiliá-la (uma jovem considerada frágil) a encarar a vida de frente; não temer. Além de Makavejev, Claire foi assistente de nomes como Win Wenders, Jim Jarmush, Costa-Gavras e Robert Enrico. Um currículo mais do que invejável.

Simpático e bonachão, Lamberto Bava estampou sorrisos nos rostos dos mais fervorosos fãs de horror durante o VII FANTASPOA. Apesar de não constar no hall dos meus diretores prediletos (seu lugar está ocupado pela lendária figura de seu pai, Mario Bava), Lamberto tem o mérito de ser o realizador de um dos filmes que mais marcaram a minha adolescência, auxiliando a sedimentar o meu gosto pelo gênero fantástico, “Demons- Filhos das Trevas”. O gore descarado, e a sequência onde demônios são massacrados dentro de um cinema (ao som de “Fast is a Shark”, do Accept) por um jovem munido de uma katana e uma motocicleta, é o suficiente para perdoá-lo pela gama de filmes medíocres que ele viria a dirigir. Atencioso com o público, o veterano diretor italiano participou de sessões comentadas sobre a sua obra e a de seu pai, e sanou a curiosidade dos cinéfilos revelando fatos interessantes, não apenas sobre os filmes da família Bava, mas também peculiaridades sobre como funcionava a indústria do horror italiano. Na retrospectiva de Mario não faltaram títulos

Ouvindo atentamente Lamberto Bava

clássicos como “A Máscara do Demônio”, “Perigo:Diabolik” e “Whip and the Body”, porém lamentei a ausência de “Sei Donne Per L’assassino”, filme seminal do gênero giallo. Entre os muitos relatos de Lamberto, foi curioso saber que apesar de seu nome constar como assistente de direção na ficha técnica de “Canibal Holocausto”, de Ruggero Deodato, ele não teve nenhum envolvimento com o filme, tendo cedido seu nome apenas para fechar uma cota de produção. E seus comentários sobre a rivalidade entre os diretores de filmes de gênero daquele período, apesar de muitos trabalharem cooperativamente, acabaram com a ilusão de que havia uma relação afetiva entre eles; as relações pareciam ocorrer estritamente no plano comercial Segundo relatou, depois de ter produzido seu primeiro longa-metragem, Deodato teria lhe dito, “Parabéns Lamberto, mas agora que você também é diretor, não podemos ser mais amigos”. Alguns destes comentários proporcionaram uma compreensão maior sobre desavenças lendárias entre diretores como Dario Argento e Lucio Fulci. Foi uma experiência emocionante ouvir histórias pessoalmente de quem presenciou e participou ativamente de um dos períodos mais efervescentes e criativos do cinema fantástico italiano.

O mês de julho de 2011 ficará ainda um bom tempo em minha memória, feito uma velha película technicolor, que mesmo arranhada, as cores persistem em não esmaecer.

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INVOCATION OF MY DEMON BROTHER- KENNETH ANGER EM PORTO ALEGRE!

Um ícone do cinema do século XX, o norte-americano Kenneth Anger vem a Porto Alegre especialmente para a abertura de uma exposição sobre sua obra, a ser inaugurada no dia 1º de julho, às 19h30, no Mezanino da Usina do Gasômetro. Uma realização da Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria Municipal da

Kenneth Anger

Cultura, com o apoio cultural do Hotel Embaixador, a exposição Kenneth Anger tem curadoria da alemã Susanne Pfeffer, do KW Instituto de Arte Contemporânea de Berlim e do MoMA PS1 NY, e chega à capital gaúcha depois de passar por Nova York, em 2009, onde obteve grande sucesso de crítica e público. Trata-se de uma instalação, realizada a partir dos principais filmes de Anger, que são projetados simultaneamente em diversas telas distribuídas em duas salas revestidas de vinil vermelho e prata, respectivamente.

Frequente colaborador da banda Rolling Stones (sendo o inspirador do hit Sympathy for the Devil), Kenneth Anger é o mais cultuado dos cineastas norte-americanos de vanguarda. Famoso pelas delirantes imagens de seus clássicos filmes experimentais (Scorpio Rising, Fireworks, Lucifer Rising), Anger influenciou diretores como Gus Van Sant, David Lynch e Rainer Werner Fassbinder e, segundo Martin Scorsese, este “artista de extraordinária imaginação” é um dos nomes “mais assombrosos e secretos do cinema americano”.

Em 30 de junho, um dia antes da abertura da exposição, às 19h, Anger participa de uma conversa aberta ao público na Casa M, ao lado da curadora Susanne Pfeffer.

No período de 12 a 24 de julho, ainda, a Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro exibe uma programação especial paralela à exposição. Além de mostrar alguns dos filmes de Anger na tela grande, também serão programados diversos títulos que dialogam com sua obra.

OBRAS DA EXPOSIÇÃO:

Anais Nin em Inauguration of The Pleasure Dome (1954)

Fireworks (Estados Unidos, 1947, 20 minutos)

Fantasia onírica sobre o desejo masculino, inspirada nos conflitos entre marinheiros e mexicanos ocorridos em Los Angeles, em 1944. Anger tinha apenas 20 anos quando dirigiu o filme, inteiramente rodado na casa dos pais, com uma câmera 16mm, e é também seu ator principal. Fireworks ganhou a admiração de Tennessee Williams e de Jean Cocteau, que o selecionou para o Festival do Filme Maldito, em 1949, onde foi premiado.

Puce Moment (Estados Unidos, 1949, 6 minutos)

Neste curta de apenas 6 minutos, Anger usa como figurinos os vestidos herdados de sua avó, que trabalhara como costureira para as atrizes de Hollywood. As roupas foram a base para a criação dessa abstração colorida, que homenageia o cinema mudo.

Eaux D’Artifice (Estados Unidos, 1953, 13 minutos)

Filmado em locações na Itália, na época em que Anger realizou uma viagem pela Europa em companhia da cineasta experimental Marie Menken. A partir do elaborado complexo de fontes da Villa d’Este, construção do século XVI em Tivoli, o diretor faz um celebração musical do excesso barroco. Na trilha sonora, As Quatro Estações, de Vivaldi.

Inauguration of the Pleasure Dome (Estados Unidos, 1954-66, 38 minutos)

Uma constelação de deuses imaginados e coreografados por Anger, criada a partir de uma das legendárias festas a fantasia realizadas pelo decadente astro do cinema mudo Samson De Brier, em sua mansão em Hollywood. Entre as personalidades que participam do filme, estão a escritora Anaïs Nin, o cineasta Curtis Harrington e o próprio De Brier. Uma mistura delirante de imagens, reunindo desenhos de Aleister Crowley, e símbolos cabalísticos, ao som da Missa Eslavônica, do músico Leoš Janáček

Scorpio Rising (Estados Unidos, 1963, 29 minutos)

Depois de voltar da França, Anger começou a documentar a vida da comunidade masculina dos motociclistas do Hell’s Angels da área do Brooklyn. Uma reflexão sobre velocidade, morte, masculinidade, fascismo, religião, revelando as sombrias correntes presentes na cultura popular americana do pós-guerra.

Kustom Kar Kommandos (Estados Unidos, 1964-65, 3 minutos)

Um homem vestindo jeans apertados pole seu carro ao som de Dream Lover. Fragmento de um longa jamais realizado, centrado na cultura dos colecionadores de carros antigos do Sul da Califórnia.

Invocation of My Demon Brother (Estados Unidos, 1969, 12 minutos)

Curta experimental que combina cenas de Haight-Ashbury (centro difusor em São Francisco do movimento hippie e da contracultura na década de 1960), um ritual satânico protagonizado pelo próprio Anger, sequências de reportagens sobre o Vietnã, imagística homoerótica e cenas de apresentações da banda Rolling Stones. A trilha sonora foi composta em teclado eletrônico por Mick Jagger.

Lucifer Rising (Estados Unidos, 1970-1980, 29 minutos)

Uma das mais elaboradas produções de Anger começou a ser rodada por volta de 1966 e foi abandonada em 1967, com a denúncia de que as latas teriam sido furtadas pelo jovem Bobby BeauSoleil, contratado para atuar e compor a trilha musical. Anos mais tarde, as filmagens foram retomadas com a cantora inglesa Marianne Faithfull e o diretor escocês Donald Cammel no elenco. Participação especial do guitarrista Jimmy Page, do Led Zeppelin, numa cena em que ele admira um retrato do ocultista Aleister Crowley. Filmado em grande parte no Egito, o filme ficou pronto em 1972, mas só conseguiu distribuição em 1980.

Marianne Faithfull em Lucifer Rising (1972)

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