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HOBO WITH A SHOTGUN- Cuidado, o vagabundo está armado!

“Hobo With a Shotgun” surgiu inicialmente como um apêndice na brincadeira cinéfila proposta por Quentin Tarantino e Robert Rodriguez em “Grindhouse”, de criar trailers de falsos filmes exploitation. Assim como “Machete”, o trailer concebido pelo jovem, e então desconhecido diretor canadense Jason Eisener, revelou potencial para se tornar um longa-metragem. Afinal, quem não gostaria de ver um mendigo armado com uma escopeta se revoltando contra uma sociedade corrupta, fazendo justiça com as próprias mãos?

Em contrapartida a “Machete”, que no fim das contas se revelou um tímido pastiche dos filmes de ação dos anos 70 e 80, preocupando-se mais com a estética do que com a essência, “Hobo With a Shotgun” não tem vergonha de assumir aquilo que é realmente, um filme deliciosamente vagabundo, repleto de pérolas e imperfeições, e talvez, pelo seu baixo orçamento, pelo seu elenco irregular e pela empolgação desenfreada de um diretor estreante, mais sintonizado com o espírito das produções que tenta emular do que as peripécias fílmicas de Rodriguez e Tarantino.

Enquanto corria atrás de produtores dispostos a investir nas insanidades contidas em seu filme sobre um mendigo justiceiro, em 2008 Jason Eisener realizou um curta chamado “Treevenge”, uma trama de vingança em que pinheirinhos de Natal se revoltam contra os humanos promovendo um festival de atrocidades, onde nem mesmo crianças e animais de estimação escapam da fúria sanguinária das árvores. Um manifesto ecológico mais pungente do que as ingênuas mensagens de James Cameron. “Treevenge” indicava o caminho bizarro que levaria até “Hobo With a Shotgun” ao revelar o gosto do diretor pelo excesso gráfico, promovendo situações grotescas dignas de um Lucio Fulci ou de um Ruggero Deodato, e não por acaso a seqüência de abertura, onde pinheiros são cortados por brutais lenhadores, é embalada pelo tema de “Cannibal Holocausto”.

Ao assumir o papel do vagabundo com a escopeta, Rutger Hauer, o único rosto conhecido do elenco, deu ao filme o ar de integridade necessário para que o projeto fosse concretizado. Porém, qualquer presunção de estarmos diante de uma obra sisuda se perde nos minutos iniciais, quando um corpo com a cabeça decepada se transforma em um chafariz de sangue onde uma garota se banha em estado de êxtase. Uma cena que bem poderia estar em uma produção da Troma. Forasteiro numa cidade onde impera um estado de anarquia e niilismo, em que gangues assassinam pessoas por esporte no meio das ruas, enquanto a polícia corrupta se omite, o solitário mendigo resolve reagir, e munido da famigerada arma começa a eliminar a escória, de assaltantes a pedófilos, enquanto ao melhor estilo “Taxi Driver”, tenta mudar a vida de uma jovem prostituta, interpretada pela novata Molly Dunsworth. Não demora para que “The Drake”, o chefão do crime, e seus filhos psicopatas coloquem sua cabeça à prêmio.

“Hobo With a Shotgun” vai gradualmente assumindo sua identidade absurda, grotesca e hilária, investindo no gore exagerado, em cenas de ação impossíveis e situações tão bizarras, que quando nos deparamos com matadores de aluguel em armaduras medievais e até um polvo monstruoso que parece saído de um filme de Ed Wood, não nos causa estranheza, afinal esse universo foi concebido pela mente de alguém que certamente passou a adolescência assistindo muitos filmes de Lloyd Kaufman e dezenas de produções B de horror e ação dos anos 80. Em certos momentos não me causaria espanto se o Toxic Avenger surgisse em cena.

Jason Eisener conseguiu regurgitar de forma divertida, mesmo que às vezes equivocada, sua cultura cinemática composta por toda espécie de filmes insanos que viu na vida. As irregularidades são típicas de um diretor principiante, como a direção de atores, alguns excessivamente caricatos, ou a inserção desmedida de idéias malucas que nem sempre cumprem sua função, e até mesmo a fotografia (a cargo do cultuado Karin Hussain), não funciona plenamente ao abusar do contraste e da saturação; tropeços perdoáveis diante do evidente entusiasmo, e da forte presença de Rutger Hauer.

Enquanto alguns se contentam em ser mero pastiche, uma cópia raquítica de um determinado gênero de cinema, Eisener pode ser orgulhar de ter realizado um “filme vagabundo” por excelência, com todos seus defeitos e qualidades inerentes. Portanto cuidado, o vagabundo está armado!

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Arquivado em Ação, exploitation, Horror, Humor