Arquivo da tag: documentário

HORROR.DOC

Em novembro estreia o documentário “Horror.Doc”, produzido pela Cumbuca Filmes e dirigido pela talentosa Renata Heinz.  O longa faz um panorama da produção dedicada ao cinema fantástico no país, com depoimentos de realizadores e pesquisadores do gênero.  Fui um dos entrevistados para o projeto, fazendo companhia a Rodrigo Aragão, Marcelo Severo, Laura Cánepa, Carlos Primati, Felipe Guerra e outras pessoas bacanas, que assim como eu são apaixonadas pelo cinema de horror.  O documentário fará parte da minha mostra “A Vingança dos Filmes B- Parte 2”, que ocorrerá na Sala P.F. Gastal da Usina do Gasômetro no final de novembro. Aguardem maiores informações.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Cinema brasileiro, Cinema Nacional Porra!, Divulgação, exploitation, Fantasia, Fantástico, humor negro, Mostras, splatter, Suspense

SERRAS DA DESORDEM

Serras da Desordem representou o retorno de Andrea Tonacci à tela grande após um hiato de 30 anos, período no qual ocasionalmente se dedicou a televisão, e que em nada apaziguou a verve anárquica do diretor dos cultuados Bang Bang e Blablablá. O título Serras da Desordem não apenas indica a região onde a trama se desenvolve, como também serve de analogia as opções estéticas e narrativas tomadas por Tonacci para recriar a história de Carapiru, índio que após o massacre de sua família se tornou um andarilho solitário, empreendendo uma fuga que o manteve isolado de seu povo e da civilização por 10 anos, até ser encontrado em 1987, distante mais de 2 mil quilômetros do local da chacina.

Andrea Tonacci não faz concessões comerciais na recriação deste épico intimista, e desordem é uma palavra chave para acompanhar a trajetória de um homem em estado de completa alienação, isolado de sua cultura, confrontado com uma civilização que não compreende. A montagem, por vezes caótica, da veterana Cristina Amaral é uma artimanha essencial para instigar o espectador, se negando a fornecer respostas fáceis, pois para acompanhar Carapiru também é preciso perder-se.

Para recontar a história Tonacci utiliza um curioso processo, misto de documentário e reconstrução ficcional, utilizando como atores as pessoas que vivenciaram os fatos, inclusive o próprio Carapiru. O velho índio retorna ao local do massacre, visita o vilarejo que o acolheu antes de ser entregue aos cuidados da Funai, e refaz sua trajetória de dor e redenção, que culminou com um deus ex machina tão improvável que só poderia acabar na tela do cinema. Carapiru é encontrado pelo filho que julgava morto, e é reconduzido ao seu povo.

A câmera ubíqua de Tonacci acompanha Carapiru, realçando seu olhar repleto de tristeza, estranheza e ingenuidade diante de uma realidade tão diferente da sua. Serras da Desordem, mais do que uma análise do destrutivo processo de aculturação a que foram submetidos

Tonacci e eu Sala PF Gastal junho de 2007

os povos indígenas, é a história de uma vida devastada, a trajetória de um indivíduo sobrevivendo em meio ao caos silencioso da solidão e da exclusão cultural. O diretor Andrea Tonacci, oriundo do provocativo cinema marginal dos anos 60, não facilita para o espectador, e a história de Carapiru é narrada de forma fragmentada, desordenada, mas não tão caótica quanto o processo de civilização imposto à cultura indígena.

É compreensível o interesse de Tonacci pela figura peculiar de Carapiru, afinal ambos de certa forma estiveram isolados, mesmo que em limbos distintos, por um longo período, involuntariamente impedidos de exercitar uma vital necessidade de expressão. Carapiru retornou para seu povo e Tonacci às telas de cinema, e seu retorno, após uma inexplicável ausência de 30 anos que não lhe domou o gênio anárquico, foi laureado com o Kikito de Ouro no Festival de Gramado em 2006.

3 Comentários

Arquivado em Documentário

UM HOMEM DOMINADO POR SUAS OBSESSÕES

O cineasta alemão Werner Herzog, seja na ficção ou no documentário, sempre utilizou sua câmera como uma arma para dissecar os conflitos internos de suas personagens. A ganância e o progressivo enlouquecimento de Klaus Kinski em Aguirre, A Cólera dos Deuses, ou o processo que vai da total alienação do mundo ao

Werner Herzog

desabrochar da consciência pelo qual passa Bruno S, em O Enigma de Kaspar Hauser, são exemplos de seu cinema intimista e anárquico, que reflete tanto a construção  como a diluição do indivíduo.

Em O Homem Urso, Herzog volta suas lentes de documentarista para a trágica história do ambientalista amador Timothy Treadwell, que passou treze verões consecutivos em companhia de ursos pardos no Alasca, até ser, junto com sua companheira Amie Huguenard, pateticamente devorado por um deles. É compreensível o interesse de Herzog pela desastrada empreitada de Treadwell, que sintetizou em vida os paradoxos ficcionais do cineasta alemão.

Quando decidiu dedicar sua vida à proteção dos ursos pardos, Timothy Treadwell acabou abdicando de uma parcela de sua humanidade. Vitima de sua misantropia, ele idealizou em seu refugio no Alasca um mundo perfeito, ao qual considerava menos selvagem e cruel do que o dos humanos. Porém, ao envolver-se de forma tão passional com sua causa, Treadwell traçou o caminho de sua destruição quando ultrapassou os limites de sua própria natureza, e passou a também considerar-se…um urso!

Para tentar desvendar as motivações que levam um homem a renegar a civilização, para embarcar de corpo e alma em uma insana causa ecológica, além de entrevistas com amigos íntimos e especialistas ambientais, onde não faltam comentários que vão da paixão ao puro sarcasmo, Herzog utilizou trechos das mais de cem horas de gravações realizadas pelo próprio Treadwell.

As gravações, que eram utilizadas para educar principalmente as crianças sobre o perigo de extinção dos ursos pardos, revelam, não um destemido protetor da natureza, mas um homem com a mente fragmentada, incapaz de discernir entre a realidade e o mundo selvagem inocentemente idealizado por ele. As imagens retratam o amadorismo de suas ações, prevendo a inevitável tragédia, pois Treadwell lidava com ursos ferozes de quase três metros de altura como

Timothy Treadwell

se fossem ursinhos de pelúcia; e como conseqüência, em outubro de 2003, ele e sua namorada foram vorazmente devorados por um dos ursos que protegiam. Durante sua morte a câmera, apesar da lente estar encoberta, permaneceu ligada, e o áudio captou toda a sua agonia. Um dos momentos de maior impacto de O Homem Urso ocorre quando Herzog ouve o registro. O áudio real não chega aos ouvidos do público, e escutamos apenas a narração hesitante de Herzog, que em determinado momento silencia, e sua reação ao conteúdo da fita é o suficiente para traduzir todo o horror ali contido.

Por ter em mãos um material perigosamente ambíguo, que poderia render um festival de escatologia e sensacionalismo, o diretor optou por não expor graficamente o funesto resultado da empreitada, e centrou-se nos depoimentos, que rendem desde momentos de pura perplexidade até acessos involuntários de humor negro, gerados principalmente pela presença do insólito legista que cuidou do caso.

Timothy Treadwell e Amie Huguenard

A controversa figura de Timothy Treadwell, independente do julgamento de seus atos, rendeu para Herzog mais do que um documentário sobre homens e ursos, ou sobre uma tragédia anunciada; o diretor concebeu uma dramática análise sobre a natureza, humana e animal, e organizou uma excursão por uma região mais selvagem e desconhecida que o gélido Alasca…a mente de um homem que se deixou dominar por suas obsessões.

5 Comentários

Arquivado em Documentário