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ARRASTE-ME PARA O INFERNO

Após dezessete anos afastado do gênero que o revelou, o diretor Sam Raimi retorna as suas origens horríficas sem perder o frescor diabólico de suas primeiras produções. Seu envolvimento com produções milionárias como a série do Homem-Aranha, e anos lidando com a pressão mercadológica da indústria hollywoodiana, não foram o suficiente para domar inteiramente o infant terrible que gerou o clássico A Morte do Demônio, um filme de baixo orçamento que se tornou um dos símbolos do cinema de horror dos anos 80. O estilo de Raimi continua inconfundível, e apesar das inevitáveis adaptações à grande indústria, ele continua dirigindo feito uma criança entusiasmada que embarca pela primeira vez num trem fantasma.

Escrito em conjunto com seu irmão Ivan no começo dos anos 90, o roteiro de Arraste-me para o inferno foi ressuscitado da gaveta graças à independência financeira que adquiriu dirigindo a franquia do aracnídeo, o que possibilitou a criação de sua produtora, batizada sugestivamente de Ghost House. Para conceber sua mais recente investida no horror Raimi cercou-se de antigos colaboradores, como o diretor de fotografia Peter Deming (Uma Noite Alucinante), o editor Bob Murawski, e o maquiador Greg Nicotero. O resultado desta reunião soa como uma reconciliação com os antigos fãs, e uma oportunidade para que uma nova geração descubra seu estilo alucinado, que mescla com maestria humor com momentos de puro terror.

Apesar da roupagem moderna, para compor a trama de Arraste-me para o inferno, Raimi vai buscar referências em sua memória de cinéfilo fascinado pelos clássicos do horror. A maldição que envolve Christine Brown (personagem de Alison Lohman) remete ao filme A Noite do Demônio (1957), de Jacques Tourneur, a maquiavélica cigana Sylvia Ganush, interpretada pela excelente Lorna Raver, é um tipo de figura recorrente dos filmes de terror da Universal dos anos 30 e 40, os dilemas morais das personagens são típicos das histórias macabras encontradas nas HQs de Contos da Cripta e The Vault of Horror, enquanto no quesito humor, Raimi continua exercitando sua obsessão pelas gags dos 3 Patetas. Elementos referências a sua própria obra, principalmente na caracterização dos demônios, numa citação direta a série Evil Dead, reforçam a impressão de uma obra destinada aos antigos fãs.

O elemento central da trama, a maldição que recaí sobre uma jovem após ela negar um empréstimo bancário a uma velha cigana, é um veículo para o susto e a escatologia (a seqüência em que a cigana vomita vermes no rosto e na boca de Lohman é especialmente repugnante), porém suscita algo mais relevante que o simples asco. Ao negar o empréstimo para uma senhora em dificuldades por estar de olho em uma promoção no emprego, Christine Brown assume a responsabilidade pelos seus atos. Raimi, como já havia feito em Um Plano Simples (1998), volta a criticar a ambição desmedida, tratando-a como a raiz de todo mal. Portanto, o inferno que se abate sobre Christine é de sua inteira responsabilidade, e cabe a ela saber lidar e aprender com está situação inusitada. Apesar de economizar no sangue, um reflexo de seu envolvimento com a grande indústria, Raimi burla esta falta com excesso de outros fluídos corporais e nojeiras diversas, enquanto resta ao público apertar o cinto e embarcar neste infernal trem fantasma.

Arraste-me para o inferno / Drag me to hell / E.U.A/ 2009

Dir: Sam Raimi

Com: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, Adriana Barraza

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Arquivado em Horror, Humor