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CRIANÇAS SÃO MONSTROS, OU MONSTROS SÃO CRIANÇAS?

“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.”

(Augusto dos Anjos)

A infância certamente é uma fascinante época de descobertas e deslumbramentos, mas ao contrário do que as campanhas de marketing insistem em nos vender sempre que o mês de outubro se aproxima, nem tudo são flores e maravilhas neste período da vida. Se o cinema foi pródigo em propagar a infância como uma fase onde impera o lúdico, também foi hábil em retratá-la como uma época sombria, onde traumas são gerados, pesadelos tomam formas concretas, horrores se consolidam além da imaginação e pequenos monstros são engendrados. E é este tétrico universo infantil, de maldade inata e inocência corrompida que mais desperta meu interesse.  Porém, como sentenciou Henry James, “ninguém nunca saberá se crianças são monstros, ou monstros são crianças”.

A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned, 1960), de Wolf Rilla

¿Quién puede matar a un niño (1976), de Narciso Ibáñez Serrador

A Inocente Face do Terror (The Other,1972), de Robert Mulligan

Cría Cuervos (1976), de Carlos Saura

Os Inocentes (The Innocents, 1961), de Jack Clayton

The Child, de Robert Voskanian (1977)

Filhos do Medo (The Brood,1979), de David Cronenberg

Kill, Baby, Kill, de Mario Bava (Operazione Paura,1966)

O Reflexo do Mal (The Reflecting Skin, 1990), de Philip Ridley

A Tara Maldita (The Bad Seed, 1956), de Mervyn Leroy

A Profecia (The Omen,1976), de Richard Donner

O Exorcista (The Exorcist, 1973), de Willian Friedkin

Terror nas Trevas (L'Aldilà, 1981), de Lucio Fulci

Colheita Maldita (Children of the Corn, 1984), de Fritz Kiersch

Cemitério Maldito (Pet Cemetery, 1989), de Mary Lambert

Joshua- O Filho do Mal (Joshua, 2007), de George Ratliff

kick Ass- Quebrando Tudo, (Kick Ass,2010)de Matthew Vaughn

The Children (2008), de Tom Shankland

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008), de Tomas Alfredson

A Fita Branca (Das weisse Band, 2009), de Michael Haneke

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Arquivado em Ação, Drama, exploitation, gore, Horror, humor negro, Sci-fi, Suspense

OLIVER TWIST: DICKENS SOB O OLHAR DE POLANSKI

A infância pobre do diretor Roman Polanski, e as suas desventuras nos guetos de Varsóvia durante a segunda guerra mundial, amenizam a estranheza inicial de ver seu nome relacionado a uma obra como “Oliver Twist”. A evocação de sua própria infância talvez tenha sido um fator decisivo em sua opção por embarcar em um projeto tão dissonante de seu universo cinematográfico, e já vertido para as telas inúmeras vezes, sendo a lacrimosa versão de 1948, dirigida por David Lean e com Alec Guinnes no elenco, a mais aclamada.

Mas ao contrário do que se poderia esperar, a sua visão da clássica obra de Charles Dickens não sofre arroubos de criatividade ou tendências ostensivamente sombrias, mantendo-se fiel ao romance escrito em 1837. O jovem órfão Oliver Twist (Barney Clark) sofre com a fome, a indiferença e a rígida educação da Inglaterra Vitoriana. Submetido a um trabalho de semi-escravidão em uma fábrica de estopas, ele é expulso por ousar pedir um prato de comida além de sua cota. Entregue a um coveiro, ele é submetido a diversas humilhações, até que decide fugir para Londres, onde é acolhido por Fagin (Ben Kingsley) e sua turma de pequenos ladrões. O inocente Oliver é incitado a cometer pequenos furtos, mas antes de envolver-se definitivamente com o crime, cai nas graças de Mr. Brownlow (Edward Hardwicke), um benfeitor que o ampara, dedicando-lhe confiança e educação. Porém, o crime insiste em estar presente na vida de Oliver, pois temendo ser denunciado, Fagin resolve silenciar definitivamente o garoto, recorrendo aos serviços do temido marginal Bill Sykes (Jamie Foreman). Assim, novamente Oliver terá de enfrentar grandes provações que ameaçarão seus planos de uma vida instável.

A primorosa reconstituição da Londres vitoriana vista através das lentes de Pawel Edelman, realçam o perfeccionismo técnico que envolve toda a produção. Se ao escrever o romance no século XIX, Charles Dickens queria denunciar a pobreza, varrida para debaixo do tapete pelos nobres ingleses, esse fato foi captado com sensibilidade por Polanski, que nos faz passear por ruas e becos imundos, repletos de pessoas famintas e desesperadas. Ben Kingsley, no papel do patético larápio Fagin, é um dos alicerces fortes do filme, com uma interpretação carismática, no limite do caricatural, que consegue nos provocar sentimentos ambíguos, que vão da raiva à comiseração. A trama, por mais que inspire lágrimas, consegue fugir da pieguice habitual do gênero, mas tem como ponto fraco justamente o seu personagem central. O garoto Barney Clark nos apresenta um Oliver Twist irritantemente passivo, e sem o carisma necessário para sustentar um personagem de tamanha carga emocional, sendo apagado pelas interpretações mais do que corretas dos coadjuvantes, com destaque para a jovem ladra Nancy (Leanne Rowe), que ao entrar em cena exibindo seios fartos e ares vulgares de prostituta mirim, nos faz lembrar que ainda estamos diante de um filme de Polanski.

Em alguns momentos “Oliver Twist” sofre com o desempenho irregular de seu personagem título, mas é uma falha menor que não consegue embaçar as qualidades desta obra de apelo universal, repleta de dor, sofrimento e redenção, em que o próprio diretor teve direito a exorcizar alguns de seus demônios.

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GRAN TORINO

Aos 81 anos Clint Eastwood é um dos últimos remanescentes de uma geração que honrou a tradição de cineastas como Don Siegel e Samuel Fuller, praticando um cinema sóbrio, sem afetações estéticas, em que o papel da técnica é o de funcionar em prol da narrativa. Em Gran Torino, Eastwood continua fiel aos aspectos fílmicos que constituíram sua obra, e ciente de sua condição crepuscular, desenvolve um personagem que reflete elementos de sua própria trajetória como ator e diretor; a redenção de um homem rude, no limiar de sua existência, apegado a valores ultrapassados, que começa a questionar o seu olhar perante o mundo que o cerca.

Eastwood interpreta Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia que não se envergonha de ostentar opiniões racistas, valores arcaicos e um mau humor crônico que o torna uma figura quase caricatural em sua amargura. Suas ações o fazem beirar a comicidade, e todos que o cercam são vítimas constantes do seu sarcasmo e de suas grosserias; os filhos ausentes, o padre do bairro, e principalmente os vizinhos asiáticos. Walt Kowalski é um cara durão, forjado nos campos de batalha e em 50 anos de trabalho na linha de montagem de uma fábrica de automóveis. Em uma vida de lutas, não lhe sobrou tempo para amenidades ou delicadezas, e lhe faltou sensibilidade para perceber que o mundo ao seu redor estava mudando. Seu bairro, antes um típico condomínio de trabalhadores da indústria automotiva que perseguiam o american dream, agora é um decadente reduto de imigrantes asiáticos da etnia Hmong, que tentam sobreviver em meio à violência das gangues e a falta de perspectiva de um futuro melhor. Desnorteado com a recente morte da esposa, e vendo ruir tudo aquilo em que um dia acreditou, Walt passa seus derradeiros dias bebendo cerveja, lavando, encerando e exibindo em frente a sua casa um automóvel Gran Torino 1972.

O Gran Torino que dá nome ao filme é o orgulho de Walt, e o estandarte daquilo que restou de seus valores, um símbolo de sua enferrujada crença no american way of life. Quando Thao (Bee Vang), o vizinho vietnamita tenta roubar o automóvel, aos poucos eles acabam desenvolvendo um estranho vínculo de amizade, onde o velho rabugento aos poucos percebe sua triste condição de ser anacrônico; uma criatura estranha num mundo que há tempos deixou de compreender. Walt começa, mesmo sem perder a dureza de seu caráter, a aprender a conviver com as diferenças, mas as ameaças de uma gangue à família de Thao fazem com que ele recarregue seu velho fuzil, e tente, a sua maneira restabelecer a ordem na vizinhança.

Habituado a encarnar nas telas homens durões e justiceiros implacáveis, o Walt Kowalski de Eastwood é um acerto de contas com sua persona cinematográfica, equivalente ao que John Wayne fez ao realizar com Don Siegel em 1976 O Último Pistoleiro. O simples gesto de apontar o dedo indicador para alguém, e disparar como se fosse uma arma, através de Eastwood adquire um significado que ultrapassa o próprio mito. A força de “Gran Torino” está em sua simplicidade, na honestidade de sua trama, e na coragem de Eastwood em desmistificar a figura do herói durão que ajudou a criar em seus mais de 50 anos de cinema, provando que a valentia de um homem pode ser medida, não pela pilha de corpos que deixa pelo chão, mas em quantas vidas pode salvar com seu próprio sacrifício.

 

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INIMIGOS PÚBLICOS: DILLINGER SOB A MIRA DE MICHAEL MANN

A grande depressão econômica que atingiu os E.U.A no final dos anos 1920, persistindo durante boa parte da década seguinte, gerou uma alarmante taxa de desemprego que levou milhares de americanos a um estado de penúria e desesperança. Um dos efeitos colaterais desta recessão foi o alto índice de criminalidade que assolou o país. Este período foi propício para a proliferação de famigerados assaltantes de banco, como Baby Face Nelson, Pretty Boy Floyd, o casal Bonnie Parker e Clyde Barrow e o lendário John Dillinger.

Estes criminosos geravam sentimentos ambíguos na população, angariando repulsa e simpatia por seus feitos, afinal, as principais vítimas de seus atos eram as instituições bancárias, consideradas pela maioria dos americanos como as grandes responsáveis pela derrocada econômica do país. Muitos destes anti-heróis, apesar de romantizados através dos filmes de gangsteres e da literatura pulp, eram sociopatas violentos que não hesitavam em metralhar qualquer um que estivesse entre eles e um cofre. John Dillinger era um homem perigoso, porém, com charme e inteligência soube como poucos tirar proveito da opinião pública ao seu favor. A figura romântica do marginal que nunca assaltava cidadãos comuns, lesando apenas os bancos, gerava a simpatia necessária para que pudesse se esconder com tranqüilidade entre os populares sem que fosse denunciado. Uma série de crimes audaciosos e fugas espetaculares transformaram Dillinger numa lenda, e no “inimigo público número um” da América.

O diretor Michael Mann, mais do que reconstruir rigorosamente a biografia de John Dillinger, se dedicou em recriar a atmosfera mítica que cercava a sua figura, reproduzindo os principais fatos de sua carreira criminal, mas evitando a visão sórdida dos fatos, ao contrário do que fez John Milius no excelente “Dillinger” (1973). Johnny Depp fornece ao personagem charme e consistência, elementos necessários para se compreender o fascínio que este anti-herói exercia sobre as classes populares. O embate entre Dillinger e seu implacável perseguidor, o oficial federal Melvin Purvis (Christian Bale), revela o outro lado da moeda, as articulações do estado para deter um criminoso de alta periculosidade a qualquer custo.

A francesa Marion Cotillard desembarca de vez no cinema norte-americano numa competente interpretação de Billie Frechette, a incauta namorada de Dillinger. A relação do casal é apresentada por Mann como um caso de amor trágico, mas que na realidade nada tinha de monogâmica, pois Dillinger, um notório apreciador das mulheres, estava sempre rodeado de prostitutas, fato que originou diversas lendas sobre seus dotes sexuais.  Se o famoso apetite sexual do personagem não é devidamente explorado, seus violentos conflitos com a lei são graficamente detalhados em cenas de ação captadas com impressionante realismo pelas câmeras digitais de Mann. A intensidade das cenas quase nos fazem sentir o cheiro de pólvora no ar.

Ao emular situações e diálogos típicos dos filmes de gangsteres dos anos 1930, como “O Inimigo Público” de William A. Wellman e “Anjos de Cara Suja” de Michael Curtiz, Mann realiza uma obra reverencial ao gênero e se rende ao fascínio que estas figuras marginais ainda exercem sobre o imaginário popular. Ironicamente a derrocada do próprio Dillinger ocorreu na saída de um cinema, após uma sessão de “Vencido pela lei”, um notório filme de gangsteres estrelado por Clark Gable.

Inimigos Públicos / Public Enemies / EUA/ 2009/140’

Dir: Michael Mann

Com: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Giovanni Ribisi.

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O PROJETO RAROS APRESENTA “NÃO NOS LIVRE DO MAL”!

A Sala P. F. Gastal da Usina do Gasômetro (3º andar) retoma nesta sexta-feira, dia 8 de abril, às 20h, as sessões do projeto Raros, exibindo o polêmico filme francês Não Nos Livre do Mal, de Joël Séria , produção de 1971 nunca lançada nos cinemas brasileiros.Constantemente incluído na extensa galeria de filmes malditos dos anos 1970, Não Nos Livre do Mal (Mais Ne Nous Délivrez Pas du Mal) causou alvoroço em seu lançamento, despertando a ira da igreja e chocando o público mais conservador, ao retratar sem pudores a amizade doentia entre duas adolescentes que desafiam normas sociais, empreendendo uma desenfreada e iconoclástica viagem rumo à autodestruição. Numa atitude de recusa às convenções, as jovens Anne (Jeanne Goupil) e Lore (Catherine Wagener) realizam missas negras, seduzem homens incautos e provocam tragédias ao praticarem perigosas brincadeiras. Inicialmente banido pela censura francesa por sua “perversão, sadismo e outras formas de destruição mental e moral”, o filme foi liberado após nove meses de proibição total para ser exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. Apesar da boa recepção por parte da crítica, Não Nos Livre do Mal fez uma carreira errática nos cinemas, sofrendo constante pressão de entidades religiosas e de censores de plantão, até cair gradualmente no esquecimento. Seu lançamento em DVD nos Estados Unidos (em 2006) e no Japão (em 2008) e novas exibições em festivais de cinema fantástico como o Night Visions Film Festival (na Finlândia) e o L’Etrange Festival (na cidade francesa de Lyon) deram início a uma nova onda de culto em torno deste estranho filme que somente agora, exatos 40 anos após a sua estreia (sua primeira exibição aconteceu em 5 de abril de 1971, no Festival de Cannes), poderá ser finalmente conhecido pelos espectadores porto-alegrenses.         A sessão de Não Nos Livre do Mal tem entrada franca, e será comentada pelo jornalista Thomaz Albornoz. Exibição em DVD. Diálogos em francês, com legendas em espanhol.Não Nos Livre do Mal (Mais Ne Nous Délivrez Pas du Mal), de Joël Séraa (França, 1971, 102 minutos). Com Jeanne Goupil, Catherine Wagener, Bernard Dhéran e Gérard Darrieu. Colorido. Diálogos em francês, com legendas em espanhol. Exibição em DVD.

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SALA P.F. GASTAL ENGRENANDO 2011

A Hora Final (On the Beach / 1959)

Após a ressaca carnavalesca e a inerente preguiça de um verão infernal, além das habituais dificuldades orçamentárias , burocráticas e logísticas, enfim estaremos engrenando nossa programação em 2011.  A recente tragédia japonesa nos

A Síndrome da China (The China Syndrome / 1979)

alertou mais uma vez para um risco que parecia controlado, a ameaça nuclear. A partir de terça-feira  (dia 22) até quinta-feira (dia 24) exibiremos dois dos melhores filmes já realizados a respeito de uma catástrofe nuclear, A Síndrome da China (The China Syndrome / 1979),  de James Bridges, e A Hora Final (On the Beach / 1959), de Stanley Kramer. Na sexta-feira (dia 25), o já tradicional Festival de Verão do RS de Cinema Internacional, terá início com uma mostra dedicada aos cineastas Michael Powell e Emeric Pressburger, onde os cinéfilos de plantão poderão conferir em película obras como Narciso Negro (Black Narcissus / 1947), Os Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes / 1948) e O Espião de Preto (The Spy in Black / 1939). Abaixo a programação completa, e para os que ainda não sabem, a Sala P.F. Gastal fica no 3° andar da Usina do Gasômetro, Av. Pres. João Goulart, 551. Fones: 3289 8135 / 3289 8137.

 

GRADE DE HORÁRIOS

Semana de 22 a 27 de março de 2011

22 de março (terça-feira)

A Hora Final (On the Beach / 1959)

16:00 – A Hora Final (134 min / exibição em DVD)

19:00 – A Síndrome da China (121 min / exibição em DVD)

 

23 de março (quarta-feira)

16:00 – A Síndrome da China (121 min / exibição em DVD)

19:00 – A Hora Final (134 min / exibição em DVD)

 

24 de março (quinta-feira)

16:00 – A Hora Final (134 min / exibição em DVD)

19:00 – A Síndrome da China (121 min / exibição em DVD)

 

25 de março (sexta-feira)

Mostra The Archers – O Cinema de Michael Powell e Emeric Pressburger

15:00 – O Espião de Preto (exibição em 35mm)

17:00 – Eles Vão Dar o que Falar (exibição em 35mm)

19:00 – Os Sapatinhos Vermelhos (exibição em 35mm)

 

26 de março (sábado)

Michael Powell e Emeric Pressburger

Mostra The Archers – O Cinema de Michael Powell e Emeric Pressburger

15:00 – Eles Vão Dar o que Falar (exibição em 35mm)

17:00 – Narciso Negro (exibição em 35mm)

19:00 – O Espião de Preto (exibição em 35mm)

 

27 de março (domingo)

Mostra The Archers – O Cinema de Michael Powell e Emeric Pressburger

15:00 – Narciso Negro (exibição em 35mm)

17:00 – Os Sapatinhos Vermelhos (exibição em 35mm)

 

 

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DANCING LADY

Cinco anos após “O Cantor de Jazz” (1927) inaugurar a era do cinema falado, os filmes musicais já eram um nicho lucrativo para os produtores de Hollywood. Após a Grande Depressão de 1929, com a economia americana imbuída de um firme propósito de reconstrução, o gênero proliferou nas telas levando ao público o otimismo e a alegria da Broadway. É durante este período seminal para os grandes musicais que surge “Amor de Dançarina” (Dancing Lady, 1933).

Idealizado como resposta da MGM ao sucesso dos musicais coreografados por Busby Berkeley (o grande mestre da comédia musical), o filme serviu de veículo para a ascensão de Joan Crawford ao estrelato. Dirigido por Robert Z.

Clark Gable e Joan Crawford

Leonard, diretor medíocre, mas que devido a sua versatilidade soube como poucos transitar do cinema mudo para o sonoro, adaptando-se às novas tecnologias e fomentando uma prolífera carreira atrás das câmeras, “Amor de Dançarina” é celebrado mais pelo charme de seu elenco, repleto de nomes que fariam história no cinema americano, do que por sua realização. Além da presença de Crawford, Clark Gable, Franchot Tone e do trio de humoristas que no futuro seriam conhecidos como “Os 3 Patetas”, o filme é celebrado por ser a estréia cinematográfica de Fred Astaire.

A trama reproduz com humor alguns aspectos comuns em muitas produções da época, como a luta de uma dançarina em busca da fama, e a atribulada

Joan Crawford e Os 3 Patetas

vida nos bastidores. Crawford interpreta Janie Barlow, dançarina impetuosa que desperdiça seu talento em teatros vaudeville. Acusada de “atos indecentes”, após uma desastrosa apresentação, ela é colocada na prisão, da qual é salva pelo admirador Tod (Franchot Tone), um rico bon vivant que lhe promete uma chance na Broadway em troca de seu “amor”. Apresentada ao produtor teatral Patch Gallagher (Clark Gable), Janie, determinada em alcançar o sucesso, precisa provar que merece estar sob os holofotes, enquanto desenvolve uma relação de amor e ódio com seu produtor.

A cena em que Crawford realiza um show de sapateado, acompanhada pelos patetas Moe, Larry e Curly, comprova a versatilidade da atriz, e sua parceria com Fred Astaire durante a canção “Let’s Go Bavarian” é exemplar, assim como a inventiva composição de cena, repleta de transições e efeitos óticos que antecipam a experimentação e o clima de delírio que dominariam os suntuosos musicais nas décadas seguintes.

A trajetória pessoal de Crawford se confunde com a de sua personagem; o ator Franchot Tone foi um de seus diversos maridos, e Clark Gable seu mais

Joan Crawford

célebre amante. De origem humilde, a atriz não poupou esforços ou pudores para chegar até Hollywood; atuou em espetáculos vaudeville, freqüentou casas de strip-tease, e sua primeira experiência atrás das câmeras foi atuando em obscuros filmes pornográficos, e, reza a lenda, nunca recusou nenhum teste de sofá, não hesitando em utilizar seu corpo para conseguir um papel. Mesmo após sua trágica história ser revelada pela filha Chistina Crawford, na polêmica biografia “Mamãezinha Querida”, na qual era acusada de ser uma mulher obsessiva e cruel, Joan Crawford ainda hoje é lembrada como uma das grandes divas da era de ouro do cinema. Por trás do glamour e da alegria dos musicais, também ressoavam amargas histórias de luta pelo sucesso.

 

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