ZINEMATÓGRAFO #3

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Em meio aos gritos de insatisfação, ao caos e aos conflitos ideológicos que se chocam nas ruas de Porto Alegre, também corre solta a terceira edição do Zinematógrafo.

EDITORIAL

“A cidade está empolgante enquanto movimentos articulam focos de resistência aos positivistas-cientificistas-conservadores que buscam pautar a cidade.

A depredação estética de Porto Alegre é fruto também da ignorância dos que a “pensam” e planejam. Não é só questão de interesses financeiros, mas também de analfabetismo estético. Aí é que está. Quando os responsáveis não sabem ir além do conceito pronto do que sejam coisas belas e como elas interagem imaterialmente com os populares, eles não são capazes de pensar os movimentos, a transitoriedade, os fluxos, as relações, as revoltas, os trânsitos, os sexos, os corpos. Eles não governam: extinguem. Qualquer espontaneidade é então desestruturada, a ferro ou a fogo. É esse o encadeamento de subjetividades que faz com que a ideia de uma cidade mais branca, concentrada e em marcha se estabeleça como uma visão honesta e bem calculada do progresso. Assim, fica fácil endurecer o discurso punitivista “quando o pedestre atravessa fora da faixa”. Cadeia. Bomba de efeito moral. Cavalo e pancada.

Engraçado é que, em um filme como Depois de Maio, em que as aspirações de uma juventude pós-1968 se “encontram desencontradas e se encontrando”, coisas semelhantes acontecem – claro, com todas suas diferenças. Em Porto Alegre, esses movimentos também estão tateando uma potência não numa unidade, mas na desestruturação do pensamento e da prática dos confortáveis. É outro jogo, mas jogo de sangue que corre, que pulsa.

E vem aí um filme sobre Hannah Arendt, dirigido pela Margarethe von Trotta, que já fez um bom filme sobre Rosa Luxemburgo. Ela pensou a ação política com firmeza e disse que “o indivíduo em seu isolamento jamais é livre; só pode sê-lo quando adentra o solo da polis e age nele”. Tem tudo a ver. Esperamos que o filme venha para os cinemas de Porto Alegre, aproveitando que a cidade vive esse momento politicamente importante.

Num dos dias de maio, esse mês louco que sempre parece durar uns cem dias de tanta coisa que acontece, um senhor octogenário apareceu feliz da vida no cinema – tinha acabado de ver um faroeste – e começou a falar do Shane:

exibi uma cópia em 16mm nos anos 1950, num cineclube que criei no Colégio Jesuíta em Santa Catarina, onde dava aulas de história. Os padres não gostavam, alguns filmes eu passava escondido, mas as crianças ficavam loucas com aquilo e, você vê, um das crianças era o Rogério Sganzerla.

O senhor – o cinéfilo apaixonado chamado Décio Andriotti – deu um sorriso safado e emendou: a gente faz as coisas e nunca sabe o que vai dar.

Essa frase traduz um pouco o que está acontecendo na cidade – quando as pessoas estão nas ruas, o que incomoda é que elas fazem coisas e nunca se sabe o que vai dar. Por isso, neste momento, enquanto a direita tenta engolir a rebelião com seus olhos gordos, é fundamental assumirmos as incertezas, assumirmos a inutilidade, assumirmos sem medo que a causa realmente não custa mais do que vinte centavos. Ela custa, na verdade, bem menos: dezenove, quinze, dez, até chegar a zero. Quanto menos motivos para incendiar a cidade, mais ela vai pegar fogo. E precisa.”

Colaboradores dessa edição: Daiane Marcon, Daniel de Bem, Débora Luz, Cristian Verardi, Gabriella Gasperin, Lennon Macedo, Leonrado Bomfim, Luciano Viegas, Nathália Rech, Paulo Casa Nova, Pedro Henrique Gomes, Priscila Pasko, Ranieri Brandão

* O Zinematógrafo tem distribuição gratuíta e pode ser encontrado flutuando pelas ruas, atualmente incendiárias, de Porto Alegre / Contato: zinematografo@gmail.com

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2 Comentários

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2 Respostas para “ZINEMATÓGRAFO #3

  1. Eu quero um! Vou dar uma volta por o Gasômetro.

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