FROST/NIXON

Em 1974, após o escândalo Watergate, e o humilhante fracasso da intervenção militar no Vietnam, o presidente Richard Nixon renunciou a presidência dos E.U.A, e durante três anos manteve silêncio sobre o caso. Nenhuma emissora de TV, nenhum jornalista político de renome, nenhum adversário político conseguiu qualquer manifestação de Nixon sobre os fatos que levaram a sua derrocada. O ex-presidente se manteve firme em suas convicções de que não devia nenhum esclarecimento ao povo americano sobre o mar de corrupção, os abusos de poder, e a utilização de escutas ilegais, que foram recurso freqüente em seu governo.

Em 1977, para surpresa geral, Nixon aceitou conceder uma entrevista para David Frost, um desacreditado showman inglês, mais conhecido por seus programas sensacionalistas e pela sua fama de playboy. Frost vê nesta entrevista a possibilidade de conseguir credibilidade no mercado de entretenimento americano, enquanto Nixon enxerga uma oportunidade de recuperar a simpatia dos americanos e se reerguer politicamente. O resultado deste embate entrou para a história do jornalismo político, porém, foram os bastidores deste confronto que forneceram o material mais contundente para se compreender não apenas as engrenagens da política americana, mas principalmente os jogos de poder e as forças estranhas que movimentam a mídia.

A caracterização de Frank Langella como o falecido presidente Richard Nixon, não apenas impressiona, é quase uma possessão espírita, sua atuação ultrapassa a simples reprodução de trejeitos, vai além da caricatura, e se apóia em pequenas nuanças e contradições de caráter, apostando mais na sutileza do que no habitual exagero com que Nixon é costumeiramente retratado. A interpretação de Anthony Hopkins, que optou por um nariz falso, em “Nixon” (1995) de Oliver Stone, é um bom exemplo da tendência da figura do ex-presidente assumir aspectos cartunescos. E ao contrário de Oliver Stone, a direção de Ron Howard também prezou pela sutileza, e optou em centrar a ação nos conflitos éticos e pessoais das personagens, deixando de lado a simples diatribe política.

Frank Langella e Michael Sheen repetem na tela os papéis que haviam interpretado nos palcos, o que talvez explique a intimidade e a força que impõem aos seus personagens. Em2007 apeça rendeu a Langella o prêmio Tony de melhor ator, além da indicação de melhor ator no Oscar 2009, uma das 5 indicações que o filme recebeu. A adaptação do roteiro para as telas foi realizada pelo próprio dramaturgo, Peter Morgan, que soube equilibrar a origem teatral da história, conseguindo tornar empolgante um conflito em que basicamente duas pessoas confrontam suas idéias sentadas diante de uma câmera. O ping pong entre entrevistador e entrevistado adquire aos poucos um sentido mais amplo, uma batalha em que convicções políticas, ideais, e vaidades são o menos importante, o que realmente está em jogo é a verdade, e ambos sabem que ela pertencerá àquele que melhor se apropriar dos fatos.

 

(O vergonhoso silêncio imposto pela grande mídia com relação ao livro Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro JR, me instigou a republicar este artigo, escrito em 2009 quando do lançamento de Frost/Nixon nos cinemas brasileiros. Apesar das escabrosas evidências de mais um legítimo “Watergate” brasileiro, boa parte da imprensa, invés de fazer o seu papel, parece estar agindo feitos os três macacos da famigerada fábula chinesa, tapando os olhos, os ouvidos e a boca.)

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2 Comentários

Arquivado em Drama

2 Respostas para “FROST/NIXON

  1. Esse filme é fantástico. Sheen e Langella travam um verdadeiro boxe mental. Não canso de rever.

    Excelente review!

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