OLIVER TWIST: DICKENS SOB O OLHAR DE POLANSKI

A infância pobre do diretor Roman Polanski, e as suas desventuras nos guetos de Varsóvia durante a segunda guerra mundial, amenizam a estranheza inicial de ver seu nome relacionado a uma obra como “Oliver Twist”. A evocação de sua própria infância talvez tenha sido um fator decisivo em sua opção por embarcar em um projeto tão dissonante de seu universo cinematográfico, e já vertido para as telas inúmeras vezes, sendo a lacrimosa versão de 1948, dirigida por David Lean e com Alec Guinnes no elenco, a mais aclamada.

Mas ao contrário do que se poderia esperar, a sua visão da clássica obra de Charles Dickens não sofre arroubos de criatividade ou tendências ostensivamente sombrias, mantendo-se fiel ao romance escrito em 1837. O jovem órfão Oliver Twist (Barney Clark) sofre com a fome, a indiferença e a rígida educação da Inglaterra Vitoriana. Submetido a um trabalho de semi-escravidão em uma fábrica de estopas, ele é expulso por ousar pedir um prato de comida além de sua cota. Entregue a um coveiro, ele é submetido a diversas humilhações, até que decide fugir para Londres, onde é acolhido por Fagin (Ben Kingsley) e sua turma de pequenos ladrões. O inocente Oliver é incitado a cometer pequenos furtos, mas antes de envolver-se definitivamente com o crime, cai nas graças de Mr. Brownlow (Edward Hardwicke), um benfeitor que o ampara, dedicando-lhe confiança e educação. Porém, o crime insiste em estar presente na vida de Oliver, pois temendo ser denunciado, Fagin resolve silenciar definitivamente o garoto, recorrendo aos serviços do temido marginal Bill Sykes (Jamie Foreman). Assim, novamente Oliver terá de enfrentar grandes provações que ameaçarão seus planos de uma vida instável.

A primorosa reconstituição da Londres vitoriana vista através das lentes de Pawel Edelman, realçam o perfeccionismo técnico que envolve toda a produção. Se ao escrever o romance no século XIX, Charles Dickens queria denunciar a pobreza, varrida para debaixo do tapete pelos nobres ingleses, esse fato foi captado com sensibilidade por Polanski, que nos faz passear por ruas e becos imundos, repletos de pessoas famintas e desesperadas. Ben Kingsley, no papel do patético larápio Fagin, é um dos alicerces fortes do filme, com uma interpretação carismática, no limite do caricatural, que consegue nos provocar sentimentos ambíguos, que vão da raiva à comiseração. A trama, por mais que inspire lágrimas, consegue fugir da pieguice habitual do gênero, mas tem como ponto fraco justamente o seu personagem central. O garoto Barney Clark nos apresenta um Oliver Twist irritantemente passivo, e sem o carisma necessário para sustentar um personagem de tamanha carga emocional, sendo apagado pelas interpretações mais do que corretas dos coadjuvantes, com destaque para a jovem ladra Nancy (Leanne Rowe), que ao entrar em cena exibindo seios fartos e ares vulgares de prostituta mirim, nos faz lembrar que ainda estamos diante de um filme de Polanski.

Em alguns momentos “Oliver Twist” sofre com o desempenho irregular de seu personagem título, mas é uma falha menor que não consegue embaçar as qualidades desta obra de apelo universal, repleta de dor, sofrimento e redenção, em que o próprio diretor teve direito a exorcizar alguns de seus demônios.

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