O MÊS EM QUE PORTO ALEGRE RESPIROU CINEMA!

Mostra Kenneth Anger no mezanino da Usina do Gasômetro

Durante o mês de julho Porto Alegre vivenciou um raro momento de verdadeiro êxtase entre os cinéfilos locais. Os menos atentos aos eventos culturais relativos a cinema, ou simplesmente insensíveis as artes em geral, não perceberam ou deram importância a feliz conjunção de agendas que possibilitou o fato de nomes como Kenneth Anger, Claire Denis e Lamberto Bava estarem perambulando simultaneamente pelas ruas da cidade. Estes cineastas tão

Anger e Denis em encontro inusitado

díspares quanto importantes em seus respectivos nichos podiam ser vistos passeando tranquilamente pela Rua da Praia, bebendo um cafezinho no Mercado Público ou assistindo ao pôr do sol na beira do Guaíba. Presenças inusitadas que tornaram a cidade um cenário quase surreal, de ares fílmicos, pois para os amantes do cinema, estas figuras aparentemente comuns bebendo o cafezinho na mesa ao lado não passavam despercebidas, estavam envoltas na mítica de suas obras.

Enquanto Lamberto Bava era o homenageado do VII FANTASPOA, tanto Claire Denis como Kenneth Anger tinham suas obras dissecadas em retrospectivas na Usina do Gasômetro. Por trabalhar na Coordenação de Cinema, Vídeo e Fotografia da prefeitura junto com Bernardo de Souza e Marcus Mello, que com esforços hercúleos foram os responsáveis pela vinda de Anger e Denis, tive a oportunidade de participar ativamente destas mostras e dialogar com estas figuras icônicas.

Mostra Kenneth Anger no mezanino da Usina do Gasômetro

Receoso com a aura maldita envolvendo o cineasta místico que concebeu “Invocation My Demon Brother”, “Lucifer Rising” e o livro “Hollywood Babylon”, encontrei Kenneth Anger ainda no aeroporto, e tive minhas ressalvas dissipadas ao me deparar com um senhor sorridente e acessível, que em nada lembrava o artista obscuro, famoso seguidor dos preceitos de Aleister Crowley, sempre relacionado a temas polêmicos envolvendo arte, homossexualismo e missas negras. Não foi à toa que os Rolling Stones compuseram “Simpathy for the Devil” em sua homenagem. Aos 84 anos Anger parecia sereno, sempre esboçando um sorriso resplandecente, ao contrário de seu acompanhante, o sisudo artista multimídia e ocultista Brian Butler.

Na coletiva de imprensa a idade pareceu lhe pesar nos ombros, e no geral Anger foi lacônico, respondendo sem muito entusiasmo algumas questões sobre sua obra ou se esquivando de forma bem humorada de perguntas sobre sua relação com rituais ocultistas. Quando indaguei se Hollywood ainda era uma Babilônia sobre a qual valeria escrever algo a respeito, respondeu que tem um terceiro volume de “Hollywood Babylon” quase finalizado, mas tem receio de lançá-lo, pois certamente seria processado pelos adeptos da Cientologia. Sobre o satanismo, não apenas em seus filmes como em sua trajetória pessoal, contrapôs que as pessoas as vezes não compreendem o seu estranho senso de humor, e o levam mais a sério do que deveriam. Porém, se Anger apenas quis se desvencilhar do assunto, talvez por estar cansado de responder sobre o tema, ou se realmente a magia era apenas mais uma ferramenta lírica em seu trabalho, seu amigo Brian Butler parece realmente levar as forças ocultas com seriedade. Ao final da coletiva Butler foi conversar com meu amigo Antônio Augusto

Fagundes Filho (mestre em tarô e outras atividades mágicas), que foi quem

Brian, Antônio e eu, na caça das entidades.

durante a coletiva mais manifestou curiosidade nas atividades demoníacas de Anger. E o interesse de Butler era claro, “brazilian black magic”, a boa e velha macumba. Após a coletiva acompanhamos Antônio numa tour pelas “floras’ do Mercado Público, e ficamos o resto da manhã envoltos com exus, pombas giras, pretos velhos e outras entidades. Engraçado foi explicar para Brian a denominação de algumas entidades da umbanda. Como traduzir “Exu Tranca Rua”? Com meu inglês macarrônico arrisquei um “Exu Lock Street”. Durante todo mês de julho a obra de Anger pôde ser devidamente apreciada numa exposição delirante que ocupou um grande espaço no 2° andar da Usina do Gasômetro. O velho cineasta deu seu aval, e retornou para sua babilônica Hollywood, nos deixando em dúvida sobre o quanto de realmente demoníaco havia na ostentação de seu simpático sorriso.

A retrospectiva da obra de Claire Denis na Sala P.F Gastal, foi essencial para uma reavaliação (e destruição) de conceitos que eu havia sedimentado durante anos sobre o trabalho desta peculiar realizadora francesa. Nunca fui um grande entusiasta de sua visão de cinema, mas sempre admirei a força com que ela defende suas opções narrativas e estéticas, e nesta revisão, filmes como “Desejo e Obsessão” e “35 Doses de Rum” (exibidos em belas cópias em 35mm)

Aula de cinema com Claire Denis

cresceram imensamente, apagando um certo ar de formalismo presunçoso que eu achava existir em seus trabalhos. E uma das surpresas mais agradáveis foi assistir “US Go Home”, uma rara produção realizada para a TV (para a série Tours lês Graçons ET lês Filles de leur Age) sobre a juventude francesa dos anos 60, que se tornou instantaneamente o meu filme preferido da diretora. Porém, o grande mérito desta retrospectiva foi a presença da própria Denis. Após a exibição de “Beau Traveil”, filme de abertura da mostra, realizou-se um debate, mediado pelo excelente montador Milton do Prado, que se transformou em uma extasiante explanação sobre a arte de fazer filmes.  O diálogo franco com o público, onde a realizadora conversou sobre seu processo criativo, suas influências, escolhas e experiências, foi uma absurda aula de cinema como raramente tive a oportunidade de presenciar. Conversei brevemente sobre o começo de sua carreira, iniciada como assistente de direção de um dos meus cineastas prediletos, Dusan Makavejev, em “Sweet Movie”. Ela revelou que a lição mais importante apreendida como assistente foi “não ter medo”. E falou isso não em termos artísticos, mas se referindo à experiência de vida. Aprender a nadar, andar de motocicleta, e realizar outras atividade perigosas que lhe eram exigidas em um filme, foram coisas fundamentais para auxiliá-la (uma jovem considerada frágil) a encarar a vida de frente; não temer. Além de Makavejev, Claire foi assistente de nomes como Win Wenders, Jim Jarmush, Costa-Gavras e Robert Enrico. Um currículo mais do que invejável.

Simpático e bonachão, Lamberto Bava estampou sorrisos nos rostos dos mais fervorosos fãs de horror durante o VII FANTASPOA. Apesar de não constar no hall dos meus diretores prediletos (seu lugar está ocupado pela lendária figura de seu pai, Mario Bava), Lamberto tem o mérito de ser o realizador de um dos filmes que mais marcaram a minha adolescência, auxiliando a sedimentar o meu gosto pelo gênero fantástico, “Demons- Filhos das Trevas”. O gore descarado, e a sequência onde demônios são massacrados dentro de um cinema (ao som de “Fast is a Shark”, do Accept) por um jovem munido de uma katana e uma motocicleta, é o suficiente para perdoá-lo pela gama de filmes medíocres que ele viria a dirigir. Atencioso com o público, o veterano diretor italiano participou de sessões comentadas sobre a sua obra e a de seu pai, e sanou a curiosidade dos cinéfilos revelando fatos interessantes, não apenas sobre os filmes da família Bava, mas também peculiaridades sobre como funcionava a indústria do horror italiano. Na retrospectiva de Mario não faltaram títulos

Ouvindo atentamente Lamberto Bava

clássicos como “A Máscara do Demônio”, “Perigo:Diabolik” e “Whip and the Body”, porém lamentei a ausência de “Sei Donne Per L’assassino”, filme seminal do gênero giallo. Entre os muitos relatos de Lamberto, foi curioso saber que apesar de seu nome constar como assistente de direção na ficha técnica de “Canibal Holocausto”, de Ruggero Deodato, ele não teve nenhum envolvimento com o filme, tendo cedido seu nome apenas para fechar uma cota de produção. E seus comentários sobre a rivalidade entre os diretores de filmes de gênero daquele período, apesar de muitos trabalharem cooperativamente, acabaram com a ilusão de que havia uma relação afetiva entre eles; as relações pareciam ocorrer estritamente no plano comercial Segundo relatou, depois de ter produzido seu primeiro longa-metragem, Deodato teria lhe dito, “Parabéns Lamberto, mas agora que você também é diretor, não podemos ser mais amigos”. Alguns destes comentários proporcionaram uma compreensão maior sobre desavenças lendárias entre diretores como Dario Argento e Lucio Fulci. Foi uma experiência emocionante ouvir histórias pessoalmente de quem presenciou e participou ativamente de um dos períodos mais efervescentes e criativos do cinema fantástico italiano.

O mês de julho de 2011 ficará ainda um bom tempo em minha memória, feito uma velha película technicolor, que mesmo arranhada, as cores persistem em não esmaecer.

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Arquivado em Diretores, Divulgação, Experimental, Fantasia, Fantástico, Festivais, giallo, Horror, Mostras

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