GRAN TORINO

Aos 81 anos Clint Eastwood é um dos últimos remanescentes de uma geração que honrou a tradição de cineastas como Don Siegel e Samuel Fuller, praticando um cinema sóbrio, sem afetações estéticas, em que o papel da técnica é o de funcionar em prol da narrativa. Em Gran Torino, Eastwood continua fiel aos aspectos fílmicos que constituíram sua obra, e ciente de sua condição crepuscular, desenvolve um personagem que reflete elementos de sua própria trajetória como ator e diretor; a redenção de um homem rude, no limiar de sua existência, apegado a valores ultrapassados, que começa a questionar o seu olhar perante o mundo que o cerca.

Eastwood interpreta Walt Kowalski, um ex-combatente da Guerra da Coréia que não se envergonha de ostentar opiniões racistas, valores arcaicos e um mau humor crônico que o torna uma figura quase caricatural em sua amargura. Suas ações o fazem beirar a comicidade, e todos que o cercam são vítimas constantes do seu sarcasmo e de suas grosserias; os filhos ausentes, o padre do bairro, e principalmente os vizinhos asiáticos. Walt Kowalski é um cara durão, forjado nos campos de batalha e em 50 anos de trabalho na linha de montagem de uma fábrica de automóveis. Em uma vida de lutas, não lhe sobrou tempo para amenidades ou delicadezas, e lhe faltou sensibilidade para perceber que o mundo ao seu redor estava mudando. Seu bairro, antes um típico condomínio de trabalhadores da indústria automotiva que perseguiam o american dream, agora é um decadente reduto de imigrantes asiáticos da etnia Hmong, que tentam sobreviver em meio à violência das gangues e a falta de perspectiva de um futuro melhor. Desnorteado com a recente morte da esposa, e vendo ruir tudo aquilo em que um dia acreditou, Walt passa seus derradeiros dias bebendo cerveja, lavando, encerando e exibindo em frente a sua casa um automóvel Gran Torino 1972.

O Gran Torino que dá nome ao filme é o orgulho de Walt, e o estandarte daquilo que restou de seus valores, um símbolo de sua enferrujada crença no american way of life. Quando Thao (Bee Vang), o vizinho vietnamita tenta roubar o automóvel, aos poucos eles acabam desenvolvendo um estranho vínculo de amizade, onde o velho rabugento aos poucos percebe sua triste condição de ser anacrônico; uma criatura estranha num mundo que há tempos deixou de compreender. Walt começa, mesmo sem perder a dureza de seu caráter, a aprender a conviver com as diferenças, mas as ameaças de uma gangue à família de Thao fazem com que ele recarregue seu velho fuzil, e tente, a sua maneira restabelecer a ordem na vizinhança.

Habituado a encarnar nas telas homens durões e justiceiros implacáveis, o Walt Kowalski de Eastwood é um acerto de contas com sua persona cinematográfica, equivalente ao que John Wayne fez ao realizar com Don Siegel em 1976 O Último Pistoleiro. O simples gesto de apontar o dedo indicador para alguém, e disparar como se fosse uma arma, através de Eastwood adquire um significado que ultrapassa o próprio mito. A força de “Gran Torino” está em sua simplicidade, na honestidade de sua trama, e na coragem de Eastwood em desmistificar a figura do herói durão que ajudou a criar em seus mais de 50 anos de cinema, provando que a valentia de um homem pode ser medida, não pela pilha de corpos que deixa pelo chão, mas em quantas vidas pode salvar com seu próprio sacrifício.

 

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1 comentário

Arquivado em Drama, Thriller

Uma resposta para “GRAN TORINO

  1. Uma obra-prima de Eastwood que ainda terá o seu merecido reconhecimento. Belo texto, Christian.

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