NEXT OF KIN : HORROR PERDIDO NA MEMÓRIA

Alguns filmes sobrevivem de forma fragmentada em nossa memória devido apenas a intensidade estética ou dramática de cenas específicas. Porém, muitas vezes não conseguimos lembrar de seus títulos, atores ou até mesmo de algo tangível sobre suas tramas que nos auxilie a reencontrar estas obras; apenas nos resta petrificada na lembrança o impacto de uma imagem. A busca incessante por um título esquecido nas brumas da memória é uma obsessão comum que aflige muitos cinéfilos, assim como a decepção de perceber, após uma revisão, que a obra não era tão interessante quando nossa memória deixava transparecer.

Uma de minhas buscas perdurou por duas décadas, desde que na adolescência, em uma madrugada qualquer no final dos anos 80, me deparei com um obscuro filme na televisão. Era um suspense ambientado em uma mansão tétrica, onde o cadáver de um velho era retirado de uma banheira, uma fonte jorrava sangue, e um maníaco perseguia uma garota com um martelo. Duas seqüências específicas me impressionaram, a que continha uma garota acuada em um banheiro espetando com um objeto pontiagudo um olho que a observava através de um buraco de fechadura, e a com um homem, que após invadir um posto de gasolina dirigindo um furgão, levava um tiro de escopeta na face à queima roupa. No entanto, um fator essencial havia me passado despercebido, o título! Empreendi uma árdua busca em diversas locadoras e acervos de amigos sem nunca obter sucesso, e como ninguém reconhecia a obra através de minhas descrições, com o tempo comecei a pensar que o filme talvez fosse uma armadilha de minha memória, uma construção fílmica constituída pelos diversos thrillers de suspense que assisti na vida. Porém, recentemente, ao assistir o documentário de Mark Hartley, Not Quite Hollywood: The Wild, Untold Story of Ozploitation (2008), que disseca de maneira formidável o cinema exploitation australiano, me deparei com um exaltado Quentin Tarantino fazendo elogios rasgados para um filme chamado Next of Kin. Para minha surpresa lá estavam as cenas que eu começara a pensar serem um amontoado de falsas lembranças; o olho sendo vazado, o assassino com o martelo, o cadáver na banheira.

Apesar do título identificado, a obra se revelou um tesouro difícil de ser garimpado na rede, mesmo com uma cópia restaurada tendo sido lançada em DVD na Austrália em 2007. Mas não demorou para, enfim, o filme chegar as minhas mãos, e graças a inestimável ajuda de Felipe Guerra, um exímio colecionador de cinema de gênero (e a mente distorcida por trás do blog Filmes Para Doidos), que gentilmente me cedeu uma cópia ripada do VHS nacional. Curiosamente o filme parece ter sido lançado no país durante os anos 1980 com dois títulos diferentes pela distribuidora MacVídeo; uma picaretagem comum nos primórdios do VHS no Brasil. Portanto Next of Kin pode ser procurado nos sebos tanto pelo nome Mais Próximo do Terror como por Terror Fatal. E para aumentar ainda mais a confusão, a versão intitulada Mais Próximo do Terror em sua capa, não trás este nome nos créditos iniciais, mas sim Próximos Parentes, uma tradução enviesada de seu título original.

Dirigido em 1982 por Tony Williams, um realizador com apenas mais um longa em seu currículo, o ainda mais obscuro Solo (1978), Next of Kin impressiona pela sua capacidade de gerar tensão através de um apurado senso estético. Sua decupagem, repleta de planos inusitados e sombrios, revela um inteligente e laborioso exercício de suspense em que o domínio da técnica foi essencial para a composição de um pesadelo gótico em plena área rural australiana; cortesia do excelente fotógrafo Gary Hansen (de Arlequim, 1980), falecido precocemente no mesmo ano.

A trama inicialmente remete a tradição dos old dark house, mas revela-se mais conectada com os giallos italianos, assim como padece esteticamente de uma inegável influência de O Iluminado (The Shining, 1980), de Stanley Kubrick. Após a morte de sua mãe, Linda (Jackie Kerin) retorna para um vilarejo no interior da Austrália para reger o negócio da família, uma mansão gótica transformada num asilo para idosos. Enquanto tenta se habituar com o novo ambiente, Linda reencontra Barney (John Jarratt), um antigo namorado, ao mesmo tempo em que começa a ser atormentada por pesadelos e bizarras lembranças de infância. Quando um dos internos é encontrado morto na banheira, segredos vêm à tona, revelando que a aparente normalidade do asilo esconde um passado de mortes misteriosas. Num período de popularização dos slashers e dos filmes splatters em geral, em que os excessos de violência gráfica eram quase obrigatórios para o gênero, Williams optou por investir na atmosfera, construindo o suspense lentamente, oscilando entre o real e o onírico, para culminar num banho de sangue exemplar, mais pela inteligente orquestração do mise em scène do que propriamente pela quantidade de glóbulos vermelhos na tela.

Acho interessante a capacidade que possuem alguns diretores, principalmente de filmes de baixo orçamento, de canibalizar outras obras transformando suas referências em releituras repletas de elementos originais, mesmo que muitas vezes flertem descaradamente com o simples plágio. O cinema de Mario Bava e Dario Argento parece ter sido um forte referencial para o fotógrafo Gary Hansen, e para o roteirista Michael Heath, que em 1984 seria parceiro de David Blyth em Guerra para a Morte (Death Warmed Up). Impossível não perceber visualmente as influências barrocas de Mario Bava, ainda mais nas citações explicitas a Kill Baby Kill (Operazione Paura,1966), com a imagem da garotinha vagando por corredores sombrios de posse de uma bola vermelha. Dario Argento se faz presente na estrutura “giallistica” do roteiro, no virtuosismo técnico e na excelente trilha sonora do alemão Klaus Schulze, que remete a sonoridade do Goblin, parceiros de Argento em alguns de seus filmes mais inspirados. O Iluminado, de Kubrick, é pontualmente citado, seja pela ambientação, onde o hotel assombrado é substituído por um asilo igualmente tétrico, pela famosa cena do cadáver na banheira, ou a seqüência do elevador se esvaindo em sangue, aqui transformado modestamente em um chafariz.

Apesar de tantas citações, Williams conseguiu fugir habilmente da armadilha de transformar sua obra numa mera fotocópia de outros filmes do gênero, ou num festival de obviedades. A inteligente decupagem da seqüência final, onde Jackie Kerin se refugia de um psicótico em um posto de gasolina, é uma demonstração da originalidade e da perspicácia de Williams, que utiliza a dilatação do tempo de forma exemplar, sustentando a tensão até a inevitável explosão de violência.

Após Next of Kin, Tony Williams voltou-se para a televisão, dirigindo principalmente obras publicitárias, e jamais retornou ao cinema. A fria recepção por parte dos críticos australianos daquele período talvez seja um dos motivos deste inexplicável afastamento. De fato, o filme não foi um sucesso comercial em seu lançamento, mas com o tempo foi adquirindo o status de filme de culto, influenciando uma geração de futuros realizadores australianos, como Greg Mclean, diretor de Wolf Creek- Viagem ao Inferno (Wolf Creek, 2005) e Morte Súbita (Rogue, 2007). Não foi à toa que Maclean escalou o veterano John Jarratt para interpretar o caipira sociopata de Wolf Creek.

Infelizmente a inacessibilidade do DVD dificulta o resgate desta pequena pérola das brumas do esquecimento. Porém, após revê-lo tantos anos depois, foi gratificante perceber que Next of Kin é tão interessante quanto minha memória insistia em transparecer.

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18 Comentários

Arquivado em exploitation, Horror, Suspense, Thriller

18 Respostas para “NEXT OF KIN : HORROR PERDIDO NA MEMÓRIA

  1. Grato pela citação, Cristian. Esse é um belíssimo filme que deveria ser mais conhecido, mas infelizmente está esquecido naquela miríade de fitas lançadas nos primórdios do VHS no Brasil, por pequenas distribuidoras como Gemini, Mac Vídeo e Office.

    Gostaria muito de rever NEXT OF KIN numa cópia decente, até porque é comum rever esses filmes antigos agora e descobrir que as cópias lançadas no Brasil estavam mutiladas de tantos cortes (foi a surpresa que tive ao rever o DVD gringo do “Patrick”, por exemplo).

  2. Pingback: Tweets that mention NEXT OF KIN : HORROR PERDIDO NA MEMÓRIA « Cinema Ex Machina -- Topsy.com

  3. Shunna

    Ótimo texto , Cristian!
    Deixei o link desse artigo seu no tópico do filme lá no clubinho pro pessoal ver e “peguei emprestado” algumas fotos também!
    Parabéns!

  4. Luiz

    parece uma boa pedida. consegui a versão do dvd no cinemageddon, se quiser pegar comigo é só dar um toque.

  5. Parece uma boa pedida mesmo!
    Engraçado que agora mesmo, graças ao Lucio Fulci, consegui lembrar de um filme importante da minha infância. Vi o “Sette Note in Nero” e atriz principal é a mesma de um filme que não conseguia lembrar. Sem sacanagem, tava há uns 15 anos atrás do filme.

    Outro filme que ficou na minha memória foi Inverno de Sangue em Veneza, que é até hoje um dos meus favoritos.

    • Léo, “Inverno de Sangue em Veneza” marcou minha infância, acho que assisti pela primeira vez numa sessão noturna da Band, desde então tenho pavor de anões vestindo capas de chuva vermelhas, rs.

  6. doprado

    Cristian, se tu quiser eu consigo um avi com qualidade razoável, ripado do DVD australiano, de Next of Kin.

  7. Gabriel Caroccia

    Olá Cristian! Eu possuo este VHS faz uns dois anos, com o nome de Terror Fatal. Já vi umas 3 fitas diferentes do mesmo filme. Gostaria de saber se há alguma parte hiper-cortada neste filme (eu já assisti)
    já que a versão que tenho possui 86 min, e a do DVD tem 90 min, se não me engano… Abraços!

    • Olá Gabriel. Recentemente consegui uma cópia do DVD australiano que contém 90 minutos, e não percebi nenhum corte drástico, porém preciso rever mais atentamente. As vezes ocorrem apenas cortes estratégicos em tempos mortos para agilizar a trama.

  8. Pingback: PROJETO RAROS APRESENTA “NEXT OF KIN” (MAIS PRÓXIMO DO TERROR)! « Cinema Ex Machina

  9. Matheus Mitsu

    Tive uma experiencia similar. Assisti esse filme em meados dos anos 90 na televisão. Na época eu devia ter uns 4 ou 5 anos de idade. Nem lembro qual o canal, mas me assustou de tal maneira que as cenas q vc citou não saíram da minha memória.

    Finalmente achei ele na net através de uma extensa pesquisa no google descrevendo a tal cena do banheiro com o cadáver na banheira e a ‘agulhada’ que a velha leva no olho.

    Engraçado é que durante minha pesquisa, notei que outras pessoas que procuravam o mesmo filme tinham basicamente a mesma cena do banheiro como um dos unicos momentos que lembravam desse filme…

    Eu revi o filme e sincermente e ainda melhor do que eu lembrava.

    • Olá Matheus! É compreensível o fato destas imagens serem memórias em comum, pois são visualmente impactantes. E o filme melhora a cada revisão. Pena que o Tony Williams não realizou mais nada, ele tinha um impressionante domínio do mise en scene.

  10. Se interessar a alguém, meu blog disponibiliza o filme para download com legendas em português embutidas em um arquivo de qualidade razoável. Na postagem há inclusive um link para esse site.

    http://facadanofigado.blogspot.com.br/2012/09/mais-proximo-do-terror-next-of-kin-1982.html

  11. Fiquei intrigada com esse filme, quando o descobri não me parecia lá essas coisas, mas graças a sua resenha vou procura-lo e assistir mais rápido possível.

  12. João Luiz

    Onde encontro esse filme pra baixar com legenda ou dublado?

  13. Thanks a lot for sharing this well put together web-site. http://bit.ly/2f0xJ92

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