CÃO SEM DONO

“É uma dor canalha que te dilacera

é um grito que se espalha também pudera

não tarda nem falha, apenas te espera […] “

(Walter Franco)

Na seqüência de abertura de “Cão Sem Dono”, as personagens Ciro (Julio Andrade) e Marcela (Tainá Müller) são dois corpos ardentes que parecem se fundir num amálgama libidinoso onde não existe espaço para falsos pudores. Na cena seguinte, sentados à mesa do café, eles agem como dois estranhos, medindo palavras e tropeçando no aflitivo silêncio das pausas. A intimidade adquirida durante uma noite de sexo casual, pela manhã tornou-se tão fugaz quanto um orgasmo. Esta sensação de estranheza e distanciamento com relação ao próximo e ao mundo é o fio que nos conduz através do cotidiano de Ciro, um jovem tradutor de russo desempregado, que atravessa uma crise existencial, e se perde gradualmente num tortuoso labirinto de sensações e sentimentos. Numa existência sem maiores expectativas, em que a figura de um cão vira-lata chamado Churras (simbólica extensão do próprio Ciro) é a mais próxima representação de um amigo, Ciro não consegue definir o papel de Marcela em sua vida. Será ela a sua Ariadne, ou o seu Minotauro?

A partir do romance “Até o Dia em que o Cão Morreu”, do escritor Daniel Galera, os diretores Beto Brant e Renato Ciasca conceberam uma densa trama urbana, que causa espanto pela crueza de sua produção, despida de qualquer barroquismo estético, inclusive trilha incidental, e que cativa pela sua sinceridade atroz. A trama elíptica, amparada em atuações viscerais e corajosas, e num roteiro que se deixa levar por situações cotidianas, navegando com naturalidade pelos pequenos dramas que compõem a vida de Ciro, não nos proporciona soluções mirabolantes, apenas serve de guia e retrato instântaneo da dilacerante jornada interior de um homem em busca de identidade própria.

A produção concisa e despojada de “Cão Sem Dono” contradiz os caminhos estéticos e cinemáticos indicados por Brant em seu trabalho anterior, o hermético e polêmico “Crime Delicado”. Brant e Ciasca, companheiros de longa data (mas em seu primeiro crédito conjunto na direção), não tiveram medo de reinventar mais uma vez a sua visão de cinema, indicando novos caminhos para velhos questionamentos. Outro mérito do filme é fugir da armadilha de se tornar uma obra regional, pois apesar do sotaque sulista inundar a tela, Porto Alegre é apenas o cenário, o drama é universal.

As dores, amores, dúvidas e apreensões de Ciro, ecoam muito além da simples ficção, transformam a tela do cinema em nosso espelho, o reflexo de uma geração, que queira ou não, também é um pouco cachorro vadio.

Cão Sem Dono/ BR./ 2007

Dir: Beto Brant e Renato Ciasca

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8 Comentários

Arquivado em Cinema Nacional Porra!, Drama

8 Respostas para “CÃO SEM DONO

  1. ailtonmonte

    Ufa! Que alívio, Christian. Tem tanta gente que odeia esse filme – que eu amo – que ver alguém de bom gosto tecendo elogios é um prazer.

  2. Quem seria, Ailton, capaz de tamanha blasfêmia? Cão Sem Dono é tudo e mais. E é totalmente cachorro vadio.

  3. Ailton e Pedro, até compreendo as motivações de quem desgosta de Cão Sem Dono, o despojamento estético e a narrativa árida realmente podem causar estranheza, não é para qualquer público. Eu já conhecia o trabalho do Julio Andrade do teatro e de alguns curtas, mas especialmente aqui seu desempenho é comovente. Pena que seu talento esteja sendo desperdiçado num papel caricatural numa dessas novelas da Globo.

  4. ailtonmonte

    Eu estou por fora do que Julio Andrade está fazendo na Globo, mas ele está muito bem também em HOTEL ATLÂNTICO, de Suzana Amaral. Um grande filme, que passou batido.

  5. buchinsky

    Sorry, mas eu não embarquei. Não consegui ‘comprar’ o personagem, muito menos uma gata daquelas que se importa com ele.

    “Hotel Atlântico” eu gostei.

  6. David X. Lima

    É bom ver que o Cristian também gostou. Quando eu vi o título do post até fiquei com medo de só ler críticas ruins.

    O que vocês acham do final do filme? Eu ainda hoje às vezes me pego pensando sobre o que pode ter acontecido depois. Não li o livro, portanto não sei se a obra original ajuda a esclarecer esse ponto.

    • David, o filme toma algumas liberdades com relação ao livro. Se minha memória não me engana, a personagem da Tainá Müller morre no desfecho original, mas prefiro o final esperançoso do filme.

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