SERRAS DA DESORDEM

Serras da Desordem representou o retorno de Andrea Tonacci à tela grande após um hiato de 30 anos, período no qual ocasionalmente se dedicou a televisão, e que em nada apaziguou a verve anárquica do diretor dos cultuados Bang Bang e Blablablá. O título Serras da Desordem não apenas indica a região onde a trama se desenvolve, como também serve de analogia as opções estéticas e narrativas tomadas por Tonacci para recriar a história de Carapiru, índio que após o massacre de sua família se tornou um andarilho solitário, empreendendo uma fuga que o manteve isolado de seu povo e da civilização por 10 anos, até ser encontrado em 1987, distante mais de 2 mil quilômetros do local da chacina.

Andrea Tonacci não faz concessões comerciais na recriação deste épico intimista, e desordem é uma palavra chave para acompanhar a trajetória de um homem em estado de completa alienação, isolado de sua cultura, confrontado com uma civilização que não compreende. A montagem, por vezes caótica, da veterana Cristina Amaral é uma artimanha essencial para instigar o espectador, se negando a fornecer respostas fáceis, pois para acompanhar Carapiru também é preciso perder-se.

Para recontar a história Tonacci utiliza um curioso processo, misto de documentário e reconstrução ficcional, utilizando como atores as pessoas que vivenciaram os fatos, inclusive o próprio Carapiru. O velho índio retorna ao local do massacre, visita o vilarejo que o acolheu antes de ser entregue aos cuidados da Funai, e refaz sua trajetória de dor e redenção, que culminou com um deus ex machina tão improvável que só poderia acabar na tela do cinema. Carapiru é encontrado pelo filho que julgava morto, e é reconduzido ao seu povo.

A câmera ubíqua de Tonacci acompanha Carapiru, realçando seu olhar repleto de tristeza, estranheza e ingenuidade diante de uma realidade tão diferente da sua. Serras da Desordem, mais do que uma análise do destrutivo processo de aculturação a que foram submetidos

Tonacci e eu Sala PF Gastal junho de 2007

os povos indígenas, é a história de uma vida devastada, a trajetória de um indivíduo sobrevivendo em meio ao caos silencioso da solidão e da exclusão cultural. O diretor Andrea Tonacci, oriundo do provocativo cinema marginal dos anos 60, não facilita para o espectador, e a história de Carapiru é narrada de forma fragmentada, desordenada, mas não tão caótica quanto o processo de civilização imposto à cultura indígena.

É compreensível o interesse de Tonacci pela figura peculiar de Carapiru, afinal ambos de certa forma estiveram isolados, mesmo que em limbos distintos, por um longo período, involuntariamente impedidos de exercitar uma vital necessidade de expressão. Carapiru retornou para seu povo e Tonacci às telas de cinema, e seu retorno, após uma inexplicável ausência de 30 anos que não lhe domou o gênio anárquico, foi laureado com o Kikito de Ouro no Festival de Gramado em 2006.

Anúncios

3 Comentários

Arquivado em Documentário

3 Respostas para “SERRAS DA DESORDEM

  1. Eu não achei isso tudo, não. Gostei mais do documentário que o José Padilha fez sobre aquela aldeia indígena. Recomendo também o Terra Vermelha, do Marco Becchis.

    • Roberto, compreendo que “Serras da Desordem” provoque opiniões controversas, afinal, como explicitei, Tonacci se nega a fornecer respostas fáceis, ou mesmo produzir uma obra estéticamente acessível ao grande público. “Os Segredos da Tribo”, do Padilha, e “Terra Vermelha” do Marco Bechis também são interessantes, mas optam por leituras bem diferentes da condição indígena, bem mais palatáveis ao público em geral do que o intimismo minimalista de Tonacci.

  2. Pingback: SERRAS DA DESORDEM | Orfanato Portátil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s