UM HOMEM DOMINADO POR SUAS OBSESSÕES

O cineasta alemão Werner Herzog, seja na ficção ou no documentário, sempre utilizou sua câmera como uma arma para dissecar os conflitos internos de suas personagens. A ganância e o progressivo enlouquecimento de Klaus Kinski em Aguirre, A Cólera dos Deuses, ou o processo que vai da total alienação do mundo ao

Werner Herzog

desabrochar da consciência pelo qual passa Bruno S, em O Enigma de Kaspar Hauser, são exemplos de seu cinema intimista e anárquico, que reflete tanto a construção  como a diluição do indivíduo.

Em O Homem Urso, Herzog volta suas lentes de documentarista para a trágica história do ambientalista amador Timothy Treadwell, que passou treze verões consecutivos em companhia de ursos pardos no Alasca, até ser, junto com sua companheira Amie Huguenard, pateticamente devorado por um deles. É compreensível o interesse de Herzog pela desastrada empreitada de Treadwell, que sintetizou em vida os paradoxos ficcionais do cineasta alemão.

Quando decidiu dedicar sua vida à proteção dos ursos pardos, Timothy Treadwell acabou abdicando de uma parcela de sua humanidade. Vitima de sua misantropia, ele idealizou em seu refugio no Alasca um mundo perfeito, ao qual considerava menos selvagem e cruel do que o dos humanos. Porém, ao envolver-se de forma tão passional com sua causa, Treadwell traçou o caminho de sua destruição quando ultrapassou os limites de sua própria natureza, e passou a também considerar-se…um urso!

Para tentar desvendar as motivações que levam um homem a renegar a civilização, para embarcar de corpo e alma em uma insana causa ecológica, além de entrevistas com amigos íntimos e especialistas ambientais, onde não faltam comentários que vão da paixão ao puro sarcasmo, Herzog utilizou trechos das mais de cem horas de gravações realizadas pelo próprio Treadwell.

As gravações, que eram utilizadas para educar principalmente as crianças sobre o perigo de extinção dos ursos pardos, revelam, não um destemido protetor da natureza, mas um homem com a mente fragmentada, incapaz de discernir entre a realidade e o mundo selvagem inocentemente idealizado por ele. As imagens retratam o amadorismo de suas ações, prevendo a inevitável tragédia, pois Treadwell lidava com ursos ferozes de quase três metros de altura como

Timothy Treadwell

se fossem ursinhos de pelúcia; e como conseqüência, em outubro de 2003, ele e sua namorada foram vorazmente devorados por um dos ursos que protegiam. Durante sua morte a câmera, apesar da lente estar encoberta, permaneceu ligada, e o áudio captou toda a sua agonia. Um dos momentos de maior impacto de O Homem Urso ocorre quando Herzog ouve o registro. O áudio real não chega aos ouvidos do público, e escutamos apenas a narração hesitante de Herzog, que em determinado momento silencia, e sua reação ao conteúdo da fita é o suficiente para traduzir todo o horror ali contido.

Por ter em mãos um material perigosamente ambíguo, que poderia render um festival de escatologia e sensacionalismo, o diretor optou por não expor graficamente o funesto resultado da empreitada, e centrou-se nos depoimentos, que rendem desde momentos de pura perplexidade até acessos involuntários de humor negro, gerados principalmente pela presença do insólito legista que cuidou do caso.

Timothy Treadwell e Amie Huguenard

A controversa figura de Timothy Treadwell, independente do julgamento de seus atos, rendeu para Herzog mais do que um documentário sobre homens e ursos, ou sobre uma tragédia anunciada; o diretor concebeu uma dramática análise sobre a natureza, humana e animal, e organizou uma excursão por uma região mais selvagem e desconhecida que o gélido Alasca…a mente de um homem que se deixou dominar por suas obsessões.

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5 Comentários

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5 Respostas para “UM HOMEM DOMINADO POR SUAS OBSESSÕES

  1. Eu perdi a chance de ver esse filme do Herzog no National Geographic e me arrependo amargamente. Desde então, tenho procurado o filme sem sucesso. Está na minha lista dos filmes a serem vistos com urgência!

    • Roberto, a obra de Herzog, seja na ficção ou no documentário sempre nos reserva surpresas intrigantes, mas “O Homem Urso” é relativamente fácil de ser encontrado nas locadoras, ao menos em Porto Alegre.

  2. Angela Beatriz S M Vianna

    Oi, Cristian. Gostei muito dos teus textos, apenas discordo de ti em relação ao personagem de Herzog. Acredito que todo personagem, ficcional ou não, altera em maior ou menor grau suas atitudes diante da câmera. Assim, penso que o rapaz dos ursos não abriu mão de parcela de sua humanidade, ao contrário, cumpriu-a em sua plenitude. É certo que estamos diante de um suicídio indireto, mas parece que não havia, para ele, outro caminho a seguir. É como se a sua visão não antropocêntrica da vida o empurasse para o seu inevitável desfecho. Herzog – como todo grande cineasta, assim como todo grande escritor – aceita seu personagem sem impor restrições e, talvez por isso, sua expressão de dor e perda é que nos conta o inexorável fim.

    Espero ler um texto teu sobre “Odete”.

    Um abraço,

    Angela

    • Oi Angela. Com certeza a personalidade complexa de Treadwell da vazão para diversas leituras, e a sua é muito válida, porém, por mais fascinante que seja a trajetória do personagem, particularmente não simpatizo com a persona que ele encarnava diante das câmeras. O desfecho foi uma tragédia anunciada, desencadeada pelo despreparo e pela irresponsabilidade de seu comportamente obsessivo. Mas o próprio Herzog tinha sim algumas restrições com seu objeto fílmico, e critica a forma como ele idealizava os ursos sem se dar conta da indiferença cruel da natureza.

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