FANTASMA TECHNICOLOR

Originalmente publicado em 1911 pelo escritor francês Gaston Leroux, o tétrico romance O Fantasma da Ópera tornou-se um inesperado sucesso, cativando o público com sua trama macabra e folhetinesca. O êxito literário fez com que a história fosse transposta para o cinema pela primeira vez em 1925, e a triste figura do músico virtuoso, transformado numa figura grotesca e amargurada, que guiada por suas obsessões vaga pelos subterrâneos da Ópera de Paris em busca de vingança, acabou eternizada através da interpretação de Lon Chaney, também conhecido como O Homem das Mil Faces. O Fantasma da Ópera, dirigido por Rupert Julian, tornou-se não apenas um ícone do cinema mudo, mas um dos mais influentes filmes de horror da história, e grande parte deste mérito se deve a marcante caracterização de Chaney.

Em 1943, o mundo estava mergulhado na Segunda Guerra Mundial, e a indústria cinematográfica também sentia os reflexos desta crise, quando os produtores da Universal resolveram ressuscitar o seu antigo sucesso, afinal, com o advento do cinema falado e com as novas técnicas de coloração, poderiam realizar uma releitura sonora e em cores da obra de Leroux, fornecendo assim um espetáculo grandioso o suficiente para atrair o público, que neste período estava muito mais preocupado com as investidas de Hitler na Europa.

Para realizar a façanha, a Universal contratou o polivalente diretor Arthur Lubin, e a fotografia, um elemento essencial nesta nova concepção da obra, ficou a cargo de Hal Mohr e Howard Greene, dois pioneiros na área dos filmes coloridos, que optaram por investir no, então inovador, processo Technicolor. Para o elenco foram escaladas figuras populares da época, como o carismático cantor Nelson Eddy, que possuía grande empatia com o público, portanto era o tipo de galã certo para as horas incertas; para viver Christine, a fonte das obsessões do Fantasma, a jovem atriz e cantora Susanna Foster; e por fim, para encarnar o famigerado Erique Claudin, mais conhecido como O Fantasma da Ópera, o talentoso ator inglês Claude Rains, que antes havia interpretado outros ícones do cinema fantástico, o insano cientista de O Homem Invisível (1933),  e o amaldiçoado John Talbot de O Lobisomem (1941).

O novo roteiro mantinha basicamente a história original. Erique, um veterano violinista da Ópera de Paris, nutre uma estranha atração pela jovem cantora Christine, porém, suas atitudes beiram o patético e transparecem em atitudes paternais, Christine, por sua vez, só pensa em ter seu talento de soprano reconhecido, e divide suas intenções amorosas entre o barítono Anatole (Nelson Eddy) e o agente de polícia Raoul (Edgar Barrier). Ao descobrir que suas composições foram roubadas por outro músico, Erique perde o controle e se envolve em uma briga onde tem seu rosto desfigurado. Enlouquecido, ele se refugia nos subterrâneos de Paris, e encobrindo o rosto com uma máscara, atormenta a famosa casa de óperas com sabotagens e assassinatos que visam promover a ascensão de Christine nos palcos.

A trama não sofreu grandes inovações em comparação com a versão anterior, no entanto, o deslumbramento com as possibilidades do Technicolor tornou-se uma faca de dois gumes. O filme ganhou uma colorido vibrante, típico do processo que caracterizava-se pela intensidade do brilho e do contraste, porém, a vivacidade das cores o tornou menos sombrio que a antiga versão em preto e branco. O atrapalhado triângulo amoroso envolvendo Christine, Anatole e Raoul, é utilizado como um recurso de alívio cômico, e também auxilia a amenizar o tom soturno da história. É no palco, nos momentos musicais, que o filme consegue equilibrar a técnica ao enredo, em momentos de pura fruição. Um deleite para os olhos e para os ouvidos. Curiosamente, devido aos altos impostos gerados pela guerra, para baratear a produção a Universal optou por utilizar apenas trechos de óperas que estivessem em domínio público. Outra curiosidade é referente à seqüência da queda do lustre. Em 1896, um militante anarquista sabotou o lustre da Ópera de Paris, que caiu tragicamente sobre a platéia; o evento inspirou Leroux a escrever a famigerada cena.

A interpretação de Rains, apesar de correta, inspirando simpatia pela trágica sina de seu personagem, ficou aquém do Fantasma de Chaney, que marcou época por inspirar um sentimento ainda mais primordial, o medo. Lon Chaney, com seu rosto horrendamente deformado, e seus trejeitos alucinados, se fixou de tal maneira no imaginário popular, que fica difícil, mesmo após tantas décadas e inúmeras refilmagens desassociar sua imagem da vingativa figura do Fantasma da Ópera.

Em 1944, a Universal comemorou os frutos de seu investimento, conseguindo quatro indicações e arrebatando dois Oscars (melhor fotografia e melhor direção de arte). As cores vibrantes do Technicolor hipnotizaram as platéias, e amenizaram os dias cinzentos de guerra. O sistema de cores dominou o cinema por mais de vinte anos, e só foi substituído no começo dos anos 1960 pelo Eastmancolor, um processo menos mágico, porém, mais barato para os verdadeiros Fantasmas da Indústria Cinematográfica.

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4 Comentários

Arquivado em Horror, Musical

4 Respostas para “FANTASMA TECHNICOLOR

  1. Essa versão aí eu não vi ainda. Mas adoro a do Chaney.

  2. Com o tempo eles foram transformando a história num musical por conta da montagem feita pelo Andrew Lloyd Weber (o que foi uma pena!). Não foi essa a versão que eu assisti, mas gosto muito da abordagem original da história. É mais gratificante.

    • Pois é Roberto, o Andrew Lloyd Weber foi o grande responsável pela pasteurização da obra, que ficou menos tétrica com o passar dos anos, mas os musicais geraram variações interessantes, como “O Fantasma do Paraíso” do De Palma.

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