Encarnação do Demônio

“Nesta segunda-feira Encarnação do Demônio estreou no Canal Brasil. Muitas teorias foram formuladas na tentativa de elucidar o porquê do fracasso do filme nas bilheterias brasileiras, eu mesmo quebrei a cabeça tentando encontrar alguma explicação plausível para a péssima recepção do público, e apenas consegui esboçar mais dúvidas que certezas. Porém, se a obra de Mojica nunca foi unanimidade, foi na adversidade que ela encontrou sua força. Talvez a televisão seja o veículo ideal para auxiliar  a obra em suas futuras revisões, encontrando ali uma nova geração de fãs. Encarnação do Demônio será reprisado no dia 24 de abril, às 22 horas. Aproveito para republicar uma breve resenha que escrevi no calor do momento após assistir o filme em seu lançamento durante o 4° Fantaspoa.”

Encarnação do Demônio

“Das trevas surge o oculto. O ventre perfeito gesta a maior criação: um ser que desconheça qualquer limite. Apenas força e fulgor; ímpeto e desejo. A perfeição suprema em meio ao caos. Excesso que surge do completo vazio. Para além de qualquer dor, ou loucura. Mais alto que Deus, mais baixo que Satã. Poderosa, indômita, impiedosa, lasciva, livre. É preciso gerar esta criança. Forjá-la na continuidade de meu sangue.” (Zé do Caixão)

Cineasta maldito, mítico e controverso, José Mojica Marins invadiu de tal forma o inconsciente coletivo do povo brasileiro que se tornou uma figura indissociável de sua maior criação, Zé do Caixão! Ícone absoluto do horror brasileiro, José Mojica Marins deixou sua marca no cinema nacional através de uma filmografia tão vasta e singular quanto incompreendida, composta por obras como “À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1963)”, “Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver (1967)” e “O Ritual dos Sádicos (1970)”. Admirado por cineastas canônicos como Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, Mojica sobreviveu à margem da indústria cinematográfica brasileira, resistindo bravamente à falta de apoio estatal, ao descaso da crítica e ao preconceito com o gênero horror, e após uma inexplicável gestação de 40 anos consegue enfim produzir “Encarnação do Demônio”, o desfecho da trilogia iniciada em 1963 com “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”.

“Encarnação do Demônio” é o retorno às telas do famigerado personagem Josefel Zanatas, o sádico e obstinado coveiro mais conhecido como Zé do Caixão. Mojica estava distante da direção desde 1987, e sem personificar o sinistro personagem em um filme próprio desde “Delírios de um anormal” (1978). Neste período de ausência nos cinemas o personagem sobreviveu no imaginário popular devido ao uso que o diretor fez de sua criação. Durante os anos 80 e 90, por uma questão de necessidade econômica, Mojica se viu obrigado a incorporar Zé do Caixão nos mais diversos campos midiáticos (de apresentador de TV à atração do Playcenter), fortalecendo o amálgama entre criador e criatura. Porém, diante dos olhos das platéias mais jovens a superexposição do personagem o transformou em uma mera caricatura, distante do ser que gerava o pavor no público e nos censores federais das décadas de 60 e 70. “Encarnação do Demônio” recupera a essência maléfica do personagem. O homem da capa preta, da cartola e das unhas compridas, está de volta, ainda mais sacrílego, iconoclasta e cruel.

A trama de “Encarnação do Demônio” dá seguimento aos fatos ocorridos em “Está Noite Encarnarei em Teu Cadáver”. Após 40 anos preso por seus crimes, Zé do Caixão é posto em liberdade, porém, o cárcere não sobrepujou a sua filosofia de vida, composta por uma teoria quase nietzscheana a respeito do “homem superior”. Zé do Caixão tem como principal meta a imortalidade do seu sangue, e isto somente será possível através do nascimento do filho perfeito, que só poderá ser concebido do ventre de uma “mulher superior”. Com o auxilio de Bruno (Rui Resende), seu fiel discípulo, o coveiro irá raptar belas mulheres que terão que passar por macabras e dolorosas provas até serem consideradas dignas de gerar o homem perfeito.

Ao sair da prisão, Zé é obrigado a morar em uma favela, e encontra um universo muito diferente daquele que deixou ao ser trancafiado no fim dos anos 1960, e assim, precisa se adaptar aos novos tempos. E nesta nova realidade onde a violência urbana, a pobreza e a truculência policial assustam mais do que qualquer entidade sobrenatural, o velho coveiro precisa ser tão cruel quanto o ambiente hostil que o acolheu, e é neste aspecto que os desavisados irão encontrar um Zé do Caixão bem diferente daquele que estavam acostumados a ver na televisão. Assombrado por fantasmas do passado e obcecado por gerar seu filho, ele irá desencadear um banho de sangue sem precedentes no cinema brasileiro, com cenas grotescas, capazes de corar Jigsaw, ou qualquer outro psicopata genérico do cinema americano. São especialmente incomodas as cenas em que uma garota é sufocada, tendo sua cabeça enfiada num barril cheio de baratas (reais), ou quando outra é costurada dentro de um porco, numa das seqüências mais chocantes e surreais do filme.

A jornada dantesca de Zé do Caixão, uma figura anacrônica perdida em meio à modernidade, é o resgate não apenas de um cineasta de talento indômito, submetido ao limbo pela incompreensão da indústria cultural, mas é também o resgate de um gênero cinematográfico que ainda enfrenta forte resistência por parte, não apenas da crítica brasileira, mas do grande público, que prefere engolir a seco os similares estrangeiros e não percebe as qualidades das produções nacionais, tanto que a obra de Mojica tornou-se objeto de culto ao redor do mundo, enquanto no Brasil ainda é vista com incompreensível descaso.

Em “Encarnação do Demônio”, Mojica trabalha pela primeira vez com um orçamento digno, e saltam aos olhos as qualidades técnicas do filme, seja pela excelente fotografia do veterano José Roberto Eliezer, pela impactante trilha de André Abujamra e Marcio Nigro ou pelo elenco afiado que reúne talentos de várias gerações, como Jece Valadão (falecido durante as filmagens), Adriano Stuart e Milhem Cortaz. Um dos desafios do filme é conquistar um publico que, apesar de conhecer a figura de Zé do Caixão, na verdade desconhece a obra de José Mojica Marins. O Zé do Caixão do cinema é uma figura intrínseca e malévola, que destoa da figura caricata e patética que se limitava a rogar pragas em programas de televisão. Os programas televisivos apagavam a verdadeira essência do personagem, sendo um freio para a imaginação mórbida de Mojica. Livre das amarras ele voltou a soltar sobre os espectadores os demônios aprisionados em sua imaginação, e grande parte do mérito é do talentoso roteirista gaúcho Dennison Ramalho (diretor do sombrio e premiado curta “Amor Só de Mãe”) que captou com maestria a aura maldita que envolve o personagem, e num trabalho de fã ardoroso deu um seguimento digno à mitologia iniciada no longínquo ano de 1963.

José Mojica Marins, após travar uma longa e árdua batalha contra a mediocridade e a incompreensão do stablishment da indústria cultural brasileira, encerra enfim sua trilogia de obsessão e horror, e no auge dos seus 72 anos ainda tem forças para renegar o canto do cisne, e promete lançar ainda mais sangue e vísceras nas telas dos cinemas brasileiros.

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16 Comentários

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16 Respostas para “Encarnação do Demônio

  1. Não há nada como uma resenha escrita “calor do momento “.
    Está linda , Cristian!
    Só que dessa vez não tem nem parabéns nem clapclapclap.
    Mas lhe mando um beijo (com todo respeito, hehehe!) serve?

  2. Pingback: Os números de 2010 « Cinema Ex Machina

  3. O Senhor é fiel

    Isaias 55.6 diz: Buscai ao SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.

    que a graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhäo do Espírito Santo seja com todos vós. Amém.
    2 corintios 13.14

    • Olá “Senhor Fiel”, como deve ter percebido, este blog é essencialmente sobre cinema (além de assumidamente ateísta), portanto, peço gentilmente para que não o utilize como mural de delírios religiosos. Fantasia por fantasia, acho “O Senhor dos Anéis” mais coerente do que a Bíblia. Mas se quiser divagar sobre cinema, fique à vontade. Se insistir em sua pregação, ao menos tenha senso de humor. E por falar em senso de humor, talvez seja esse fator que me faça achar a umbanda culturalmente mais interessante do que o cristianismo, então, dedico a você este “ponto”. Cante comigo:

      “Eu vi Exu, dando gargalhada
      Com o tridente na mão
      sua capa bordada.

      Ele é Exu Tiriri
      Morador lá da Calunga
      Vem firmar seu ponto aqui…”

    • Senhor Fiel, sai dai e para de Viadag
      em.

  4. anna

    Assembleia de Deus
    Gente procurem, pois não há nada melhor do que ouvir o SENHOR JESUS CRISTO, falando contigo, façam algo que melhorem a suas vidas ,,, ao invés de perder tempo com estas coisas…. o tempo é curto e Jesus Está voltando….

    • Anna, aproveitando que Jesus está voltando, peça pra ele passar na padaria e me trazer alguns pães, 1 litro de leite e um maço de cigarros.

      • Vitor Hugo

        E aproveitando ainda que ele tenha misericordiia de vose coisa ruim 1:X

      • Povo de Deus, existe algum trecho da Bíblia que pregue o assassinato da língua portuguesa? O fato de vocês lerem tanto a Bíblia não deveria contribuir para evitar o linchamento da gramática? Apesar de achar realmente chato e inconveniente esse tipo de mensagem religiosa num blogue de cinema (pelo visto muitas pessoas aqui não sabem distinguir realidade de ficção), não me importo que roguem pragas, que clamem ao seu Deus que eu arda na fogueira do inferno, pois como diria Ambrose Bierce, “amaldiçoar é tão eficiente como espancar com um martelo verbal de borracha”. Apenas peço sinceramente, que me xinguem, me amaldiçoem, ou peçam a minha conversão, sem ferir regras básicas de gramática. Obrigado pela atenção.

  5. Gabriel

    kkk povão olha só o mundo ta acabando pra quem acredita Deus procure a ”IGREJA” quem nao acredita ou quem não Acredita realmetente que o mundo vai acabar …Faça como eu Diga FODA-se para o futuro.eu por exemplo vou dar minha ultima volta de skate no half quem quizer me axá vô tá por lá !

    • Matheus

      cara eu só quero que você saiba que deus te ama assim mesmo!!!!!!!!

      • E eu só quero que você saiba que o amor de seu deus não me faz falta alguma. Porém, se ele me enviar flores, uma caixa de chocolates e uma prova de sua existência, podemos cogitar um encontro.

  6. Theodore

    Esse filme é ótimo, muito bem feito e os atores fizeram uma ótima atuação.
    PS: Sou evangélico e tenho mente aberta.

  7. Luciano Lacerda

    Galera. Sou teísta livre e sem filiação religiosa. Aos irmãos evangélicos: Esse não é um espaço para pregação religiosa, mas para avaliar e discutir a arte do cinema. Pregação nesse espaço é puro delírio. Quanta cara-de-pau. só mesmo pedindo pro Senhor Tranca Ruas proteger esse site de pregações evangélicas. Laroiê Exu!!!

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