Favela Alien

Em outubro de 1938 ecoavam rumores a respeito de um conflito mundial, quando Orson Welles causou um surto de histeria coletiva em Nova York ao transmitir sua versão radiofônica de Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. A população, apreensiva com a iminência de uma guerra, entrou em pânico ao ouvir o rádio noticiar que invasores de outro mundo estavam destruindo a cidade. A ameaça vinha do espaço, mas apenas refletia temores próprios de sua época. A ficção científica, seja na literatura ou no cinema, sempre foi uma perfeita ferramenta especulativa da natureza humana, e assim, o encontro entre seres de mundos distintos serve tanto para realizar uma alegoria de nossa própria realidade, como serve de indagação sobre a essência do desconhecido. A invasão marciana criada por H.G. Wells em 1898, foi a metáfora encontrada pelo autor para criticar a política colonialista européia, condescendente com o genocídio e a dominação de povos considerados culturalmente inferiores.

Apesar de estar presente nas telas desde 1902, quando o pioneiro George Méliès adaptou Viagem a Lua (La Voyage Dans La Lune), do escritor francês Julio Verne, o gênero somente se popularizou no cinema a partir dos anos 1950, período em que invasões alienígenas se transformaram num artifício corriqueiro para retratar os medos provenientes da “Guerra Fria”. A paranóia comunista e as imprevisíveis conseqüências do uso de novas tecnologias, como a energia atômica, geraram obras canônicas como Vampiros de Almas (Invasion of The Body Snatchers, 1956), de Don Siegel, O Planeta Vermelho (Red Planet Mars, 1952) de Harry Horner, e O Dia em Que a Terra Parou (The Day The Earth Stood Still, 1951), de Robert Wise. Desde então se cristalizou uma extensa filmografia dedicada ao tema, onde invariavelmente estranhas criaturas surgem de algum canto desconhecido do espaço sideral com o intuito de subjugar a humanidade.

Em décadas de exploração do gênero, a coexistência, seja ela hostil ou pacífica entre humanos e extraterrestres, há muito deixou de ser novidade para os cinéfilos. Porém, Distrito 9 (District 9, 2009), produzido por Peter Jackson e idealizado pelo estreante diretor sul africano Neill Blomkamp, surpreende ao utilizar, travestido com a roupagem típica dos modernos filmes de ação, uma ocupação alienígena como analogia para revelar os meandros de uma sociedade embasada na segregação racial.

O enredo de Distrito 9 suscita fantasmas da antiga política social da África do Sul, remontando o regime do apharteid através de uma curiosa inversão de valores. Após uma gigantesca espaçonave extraterrestre sofrer pane e ficar a deriva sobre os céus de Johanesburgo, os guetos da cidade passam a ser habitados por seres chamados de “camarões”, uma referência as suas bizarras características físicas. Passados o espanto e a curiosidade iniciais, não tarda para que a convivência entre espécies tão distintas se transforme em algo caótico, tornando os aliens alvo das manifestações racistas e xenófobas que costumam afligir as minorias. Vinte anos depois, as criaturas sobrevivem isoladas da sociedade humana, subnutridas e marginalizadas em meio a miséria de um território conhecido como “Distrito 9”. Oprimidos pelos humanos, os “camarões”, apesar de sua avançada tecnologia bélica, não demonstram qualquer interesse pela dominação do planeta, em nada lembrando os malévolos invasores espaciais eternizados pela ficção dos anos 1950.

A superpopulação do território eleva os conflitos sociais entre as espécies, obrigando o governo a criar um campo de concentração batizado “Distrito 10”. O humano Wikus Van De Merve (Sharlto Copley), um pacato burocrata a serviço da MNU (grupo industrial com interesses humanitários suspeitos) é o responsável pela operação de despejo e realocação dos indesejados visitantes. Durante a ação ele acidentalmente entra em contato com uma misteriosa substância alienígena, e tem sua vida transformada num pesadelo kafkiano. Subitamente Wickus, um homem comum, passa a ser a chave biológica para a compreensão da tecnologia extraterrestre, despertando os interesses escusos da indústria armamentista.

Partindo de uma premissa original, presente em seu curta Alive in Joburg realizado em 2005, Neill Blomkamp faz uma breve e violenta análise da natureza humana, enquanto desenvolve o seu conceito particular de colonização alienígena. Utilizando uma curiosa gramática cinematográfica, o diretor mescla gêneros e transita com desenvoltura através de elementos que vão da crítica social ao universo fantástico e grotesco dos filmes B de ficção e horror. A nauseante metamorfose de Wickus, por exemplo, emula perfeitamente as obsessões corpóreas de David Cronenberg em “A Mosca” (The Fly, 1986).

A trama se desenrola de forma labiríntica, alternando a linguagem formal com a dos mockumentaries (falsos documentários), onde o recurso flash-ahead nos posiciona cronologicamente em pontos distintos da história. A opção de usar a câmera diegética, coloca o espectador constantemente no centro ação, onde a crueza e a brutalidade dos embates são ressaltadas através da fotografia dessaturada de Trent Opaloch. Não por acaso algumas seqüências lembram os modernos jogos de videogame, pois o filme só foi possível graças a frustração de Peter Jackson em não conseguir viabilizar a versão cinematográfica do jogo Halo.

Após assistir Alive in Joburg, o diretor da trilogia “O Senhor dos Anéis” ficou tão empolgado com a inventividade de Blomkamp, que o escalou para dirigir a versão live action do jogo da Microsoft. Descontente com o fato de um inexperiente diretor sul africano ter sido escolhido para realizar Halo, a Microsoft cancelou o projeto. Peter Jackson, talvez se recordando da época em que era um realizador desconhecido tentando conseguir financiamento para seus projetos insólitos, resolveu investir 30 milhões de dólares nos delírios fílmicos de Blomkamp.

Apesar de seu forte subtexto sócio-político, Distrito 9, conduzido com o entusiasmo de um estreante, não se exime de ser, acima de tudo, um excitante veículo de entretenimento, utilizando toda a pirotecnia comum aos filmes de ação contemporâneos, gerando momentos de grande impacto visual. Mas ao traçar um paralelo entre uma raça extraterrestre e nossa própria humanidade, invertendo os habituais papéis de opressor e oprimido, Neill Blomkamp e a co-roteirista Terri Tatchell, mantiveram o dialogo com a tradição crítica de autores como H.G. Wells, reformulando paradigmas e auxiliando a revitalizar o gênero através de um inusitado e instigante thriller de ficção científica.

(Artigo originalmente publicado na revista Teorema n° 15)

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8 Comentários

Arquivado em Sci-fi

8 Respostas para “Favela Alien

  1. Puxa, essa história de ficar fazendo claclapclap me deixou com a mão inchada!
    Então vou lhe aplaudir com palavras mesmo, Cristian.
    Está ótimo esse seu artigo para o “Distrito 9” e eu já tinha lido na ocasião em que você publicou !
    Parabéns!

  2. Esse filme é fodástico, pena que muita gente não embarcou na viagem.

    • Pois é Herax, recordo que o crítico de um “badalado” site (que particularmente sempre vi com ressalvas) destruiu cruelmente com o filme antes de sua estréia por aqui, com comentários do tipo: “Fãs de boa ficção científica, e fãs de Halo, merecem mais do que essa demonstração juvenil de um Resident Evil 5 de baixo orçamento”. E conheço muita gente que até hoje não viu o filme por conta deste lamentável artigo. Na época enviei um e-mail para o tal crítico questionando a sua leitura (ao meu ver) equívocada sobre a obra, mas é óbvio que fui devidamente ignorado. Mas isto foi antes de o filme arrebentar nas bilheterias, ser indicado para uma caralhada de prêmios, e ser elevado gradualmente ao status de cult. Mas em 1977 todos faziam piada de “Star Wars” e apostavam todas as fichas numa ficção hoje esquecida chamada “Damnation Alley”. Ces’t la vie.

  3. buchinsky

    >Fãs de boa ficção científica, e fãs de Halo, merecem mais do que essa demonstração juvenil de um Resident Evil 5 de baixo orçamento

    Há tantos equívocos na frase acima que o melhor a fazer é ignorar.

  4. Maurício R. Kern

    Distrito 9 foi o último filme que vi num dia em que, aproveitando que eu estava aí em P. Alegre, resolvi fazer uma maratona cinematográfica – que começou às 3 da tarde e foi até às 2 da matina. Era a pré-estreia dele, e, apesar do cansaço, vi ele com o maior sorrisão no rosto, pois, em alguns momentos, parecia que eu estava de novo numa sala de cinema vendo RoboCop. Fora que, durante a sessão, ele fez com que eu me lembrasse ainda de mais um monte de clássicos do sci-fi oitentista. Ah, os outros filmes que vi antes dele naquele dia foram (nessa ordem): Anticristo, Bastardos Inglórios (foi no final de semana de estreia dele) e Deixa Ela Entrar. Foi uma boa maratona.

  5. Laura

    oi, Cristian! seu texto como sempre é ótimo. concordo com o que você disse sobre o filme!

    mas entro aqui na carona deste post para dar os parabéns e desejar longa vida ao seu blog!! bjs!

  6. Excelente texto!
    A lembrança da semelhança com “A Mosca” foi muito boa. Esse filme, Distrito 9, é a prova de que efeitos especiais podem sim acontecer conjuntamente com uma história consistente.
    Eu não sou fã do Halo, prefiro outros jogos de 1a pessoa, mas estava ansioso para ver o filme por um trailer que vi, onde um antigo combatente já idoso, contava de um memorial ou museu, os horrores da batalha. As filmagens das batalhas, com o “câmera-man” correndo junto e tomando balaço eram realmente boas, e foram passadas para o Distrito 9.
    Quanto ao comentário do Herax (e sua resposta, Pepo) realmente foi uma pena esse filme ter sido “queimado”, já que é melhor que muita porcaria mais cara que saiu por aí…

    Abraço!

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