WARRIORS- OS SELVAGENS DA NOITE

No princípio da década de 1980 aparelhos de videocassete ainda eram considerados artigos de luxo para a maioria dos cidadãos brasileiros, e as raras vídeolocadoras existentes restringiam-se às grandes capitais, sendo quase inexistentes nas cidades interioranas. Cinéfilos mais obstinados se aventuravam pelas salas lúgubres dos cinemas-poeira, ou perambulavam por cineclubes decadentes, realizando verdadeiras odisséias para assistirem aos filmes de seus diretores prediletos. Era uma época de transição, em que os aparelhos de TV (após o boom televisivo dos anos 1970), começavam a chegar com mais facilidade aos lares. E assim os cinemas de bairro, e principalmente das cidadezinhas do interior, começavam a agonizar, cedendo o seu espaço para salões de festas e cultos evangélicos, culminando nas famigeradas casas de bingo. Nem os mais otimistas poderiam sonhar com as facilidades tecnológicas que hoje encontramos para assistir um bom filme.

Com a extinção gradual dos cinemas-poeira, e a inacessibilidade do vídeo, uma geração de futuros cinéfilos (na qual me incluo), formou-se principalmente em frente aos monitores de televisão, assistindo aos filmes da Sessão da Tarde (dublados pela Herbert Richers) ou burlando o controle dos pais para varar noites assistindo a Sessão Coruja e outras sessões noturnas, onde nos deparávamos com obras fantásticas e díspares como Corrida Contra o Destino (1971) e O Incrível Homem que Derreteu (1977). Foi numa destas incursões televisivas madrugada adentro que me deparei, ainda na pré-adolescência, com um dos filmes mais marcantes deste período, Warriors – Os Selvagens da Noite (The Warriors), de Walter Hill.

Realizado em 1979, inspirado em um livro homônimo lançado quatorze anos antes pelo escritor Sol Yurick, Warriors contém uma premissa simples que aparentemente não o diferenciaria das inúmeras produções baratas de ação que povoavam os cinemas da época; um grupo de jovens acuados lutando pela sobrevivência numa cidade dominada pela violência. Porém, a direção precisa de Hill conseguiu extrair da trama elementos mais complexos, envolvendo desde referências a mitos da Grécia antiga até conflitos sociais e culturais, gerados tanto pela ressaca política que afetava os EUA naquele período quanto pelo niilismo anárquico do movimento punk, um dos frutos da efervescência cultural dos anos 70. Walter Hill e o roteirista David Shaber reformularam o romance de Yurick, amenizando o discurso social e focando a trama na ação gerada pelas brigas por território, algo comum entre as gangues que infestavam Nova Iorque naquele final de década. A inspiração veio da lendária batalha de Cunaxa, ocorrida em 401 A.C, quando um pelotão de soldados gregos comandados por Xenofonte precisou atravessar o Império Persa lutando com vários inimigos até chegar ao mar.

Após fixar seu nome como roteirista, escrevendo filmes para realizadores do porte de Sam Peckinpah (A Fuga) e John Huston (O Emissário de Mackintosh), Walter Hill ainda precisava confirmar o seu talento como diretor, e Warriors, sua terceira experiência nesta função, era a prova dos nove de que não era uma promessa vazia. Apesar de Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese ter exercido grande influência sobre os thrillers de temática urbana realizados na segunda metade da década de 70 (quando retratou com crueza quase documental a violência e a paranóia de uma grande metrópole), Walter Hill optou por uma abordagem mais estética; isentando a trama de qualquer compromisso com a realidade ao recriar uma Nova Iorque atemporal e visualmente próxima dos quadrinhos (mérito do diretor de fotografia Andrew Laszlo). Alguns anos antes o diretor Jack Hill havia utilizado recurso semelhante ao tratar do universo das gangues femininas na pérola B Faca na Garganta (1975).

Apesar de sua aparente falta de compromisso com a realidade, na época de seu lançamento, diversas gangues rivais entraram em conflito ao se encontrarem dentro do mesmo cinema. Durante as filmagens a produção precisou lidar diretamente com os líderes de cada bairro, pagando um taxa diária para que o equipamento não fosse roubado; o tipo de acordo que se tornaria comum nas favelas cariocas. E assim, o mundo real batia na porta dos produtores. Estes fatos renderam muita publicidade nas páginas policias, mas também um selo R, que restringia a entrada do público adolescente nos cinemas. No entanto a publicidade negativa apenas auxiliou o filme a tornar-se um fenômeno, e Walter Hillacabou se transformando no pai de um subgênero. Filmes sobre gangues de rua proliferaram durante os anos 1980, e a maioria, apesar de serem imitações de qualidade duvidosa, eram garantia de pura diversão, como a sangrenta produção independente Deadbeat at Dawn (1988) dirigida por Jim Van Bebber, ou os frutos da vertente italiana, representada por filmes como 1990: Guerreiros do Bronx(1982)de Enzo G. Castellari. No Brasil, o vexatório Punk’s, Os Filhos da Noite (1982) de Levy Salgado, é um dos raros representantes nacionais do gênero.

Na trama, Cyrus (Roger Hill) é uma espécie de messias urbano que almeja unir os jovens marginais de Nova Iorque, formando assim um verdadeiro exército de desagregados sociais; uma força criminosa impossível de ser ignorada pela sociedade, ou contida pela polícia. Durante uma reunião onde todas as gangues estão presentes, Cyrus é assassinado por Luther (David Patrick Kelly), membro dos Rogues, mas a culpa recai sobre os integrantes dos Warriors, que impossibilitados de provar sua inocência, precisam cruzar a cidade digladiando com hordas enfurecidas até chegarem a Coney Island, o seu território. Liderados por Swan (Michael Beck), os oito membros dos Warriors, e a intempestiva Mercy (Deborah Van Valkenburgh), partem em uma breve e perigosa odisséia em busca de um lugar seguro, percorrendo metrôs sombrios e ruas estranhas de uma Nova Iorque decadente, dominada pelo crime e pela anarquia. Hill impôs à trama um acertado ritmo de história em quadrinhos, tornando a narrativa ágil e concisa, e criou Luther, um personagem inexistente no livro, mas que se revelou um vilão memorável, marcando para sempre a carreira do então estreante David Patrick Kelly com a indissociável frase: “Warriors. Come out to play!”.

A jornada do grupo de anti-heróis é pontuada pela voz de uma misteriosa radialista (Lynne Thigpen), que funciona como uma espécie de coro grego, situando o espectador após cada batalha vencida, e pela trilha original composta por Barry De Vorzon (A Noite dos Arrepios, O Exorcista III), recheada de sintetizadores e timbres bizarros, que realçam ainda mais a estranheza da situação. As seqüências de ação são conduzidas com rigor, e a tensão aumenta toda vez que uma nova gangue entra em cena, sendo uma mais exótica e cruel que a outra. Lizzies, Turnbulls, Rogues, todas esperam uma oportunidade para arrancar um pedaço dos pobres guerreiros. A luta contra os excêntricos Baseball Furies (garotos com pinturas faciais estilo Kiss), onde tacos de baseball são utilizados com a reverência de espadas samurais, ou a briga no banheiro da estação de metrô, onde o slow motion (uma das artimanhas preferidas do diretor) intensifica a ação, tornaram-se antológicas. No entanto, uma cena chave da trama é realizada sem nenhum esboço de violência, mas em tortuoso silêncio, quando a bordo do metrô, Swan e Mercy, sujos e ensangüentados após uma noite de luta pela sobrevivência se deparam com dois jovens casais vindos de uma festa disco. De um lado, os párias, os excluídos, de outro, os símbolos de uma sociedade abastada e alienada, lindos e perfeitos em seus ternos e vestidos brancos. Olhares se cruzam revelando medo, ódio e desprezo. Um silencioso e representativo embate social.

A atração de Hill por figuras marginalizadas e o evidente desprezo pelo establishment são fatores constantes em sua filmografia. Desde o boxeador vagabundo, interpretado por Charles Bronson em Lutador de Rua (1975), passando pelo motorista especializado em assaltos vivido por Ryan O’Neal em Caçada Mortal (1978) ou os míticos pistoleiros de Cavalgada dos Proscritos (1980), o diretor costuma lançar um olhar complacente sobre o universo rude daqueles que vivem a margem da lei. Em parte é esta visão afetuosa sobre a vida dos perdedores a causa da empatia do público com o grupo de jovens marginais que compõem os Warriors.

Mas enquanto os cinéfilos compreendiam este fascínio do diretor como uma sublimação artística, a sociedade temerosa preocupava-se com a influência que o filme, já tornado um fenômeno pop, exerceria sobre os jovens. Sua veia explicitamente anárquica era vista como um elemento desestabilizador, uma ode ao caos. O cartaz original, substituído posteriormente pelos produtores, foi acusado de incitar distúrbios por trazer os dizeres: “Eles são os exércitos da noite. Eles têm a força de milhares. Eles superam os policiais em cinco para um. Eles poderiam governar Nova Iorque”.

Não foi à toa que em 1980, como lembra Peter Biskind em seu livro Easy Riders, Raging Bulls, Walter Hill apareceria na capa da revista Saturday Review ao lado de Scorsese, Paul Schrader e Brian De Palma com a manchete: “Os Bárbaros: Fazendo Filmes Cruéis e Feios”. Os filmes destes cineastas apenas refletiam nas telas o espírito de sua época, o caráter violento e desesperançado de uma nação ainda buscando curar a ressaca moral pós-Vietnam.

Em 2005 Walter Hill lançou a sua versão do diretor contendo cenas inéditas e uma introdução sobre a batalha de Cunaxa. A nova edição também reforça os aspectos de HQ ao utilizar transposições rotoscópicas em algumas sequências. Após tornar-se um influente objeto de culto durante os anos 1980, Warriors foi apresentado para uma nova geração, não apenas através de sua nova versão, mas também de um jogo concebido para Playstation 2.

Depois de trinta anos, o filme ainda demonstra ter força o suficiente para manter-se vivo no imaginário popular, e insones e cinéfilos de plantão ainda podem se deparar com ele em alguma inusitada sessão da madrugada. E Walter Hill ainda é um “bárbaro” na ativa, que invariavelmente continua nos presenteando com seus filmes “cruéis e feios”.

(versão revista e ampliada de artigo originalmente publicado em http://www.insolitamaquina.com)

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43 Comentários

Arquivado em Ação, aventura, Thriller

43 Respostas para “WARRIORS- OS SELVAGENS DA NOITE

  1. Bravo!
    Clapclapclapclapclap!

  2. jonathan

    Bela matéria!!!!Me identifiquei bastante!!!!Aguardo o próximo!!!!

  3. Eduardo

    Parabéns, Cristian.
    Ótimo texto; equilíbrio perfeito entre paixão por cinema e crítica acurada.

  4. Verardi

    Começou o blog com um filme incrivel! Sou fã do Hill e tudo que faz! Este filme ainda será base pra mim. Quero rodar um longa sobre tretas de gangue que vivi aqui no ABC paulista!

    • Vebis, aposto que histórias não faltam para um excelente thriller de ação no ABC. Quem sabe tu não apaga a péssima lembrança deixada por “Punk’s, Os Filhos da Noite”, rs.

  5. Geiz Lenhador de Yggdrasil

    Muito ótima resenha super completa.
    Identifiquei a cidade bucólica interiorana no começo do texto -_-
    Abraçao

  6. Eduardo Aguilar

    Estou em êxtase!!! O melhor texto q. li sobre “Warriors”, um dos meus filmes de cabeceira. Mas acima de tudo, um dos melhores textos a respeito de cinema q. li em toda a minha vida!!! Parabéns! Longa vida ao seu blog!

    • Salve Aguilar! Acho que seu êxtase se deve ao excelente material analisado, o mérito é de Walter Hill, rs. Minha única preocupação era escrever um texto à altura do filme. Espero que suas visitas sejam frequentes por aqui, já que a distância geográfica nos impede de um bate papo numa mesa de bar. Pretendo ir a Sampa ainda esse ano e conhecer a nova herdeira da linhagem Aguilar. Grande abraço.

  7. Pô Verardi, parabéns pelo blog! E esse seu texto é realmente belissímo!

  8. faço das palavras do Aguilar as minhas

  9. Ainda não tive a oportunidade de ver esse filme, embora sempre tenha lido comentários favoráveis a ele. Não sei se uma coisa tem a ver com a outra, mas para quem, como eu, venera um filme como Fuga de Nova York, deve ter tudo para adorar e apreciar esse Warriors, não? Um abraço e que venham mais e mais resenhas.

  10. Os filmes ‘soul cinema’ do Jack Hill também sao muito bons.

    • Realmente Jack Hill era um branquelo movido pelo puro groove, “Coffy” e “Foxy Brown” estão aí para provar. Um amigo meu foi aluno dele na UCLA e me contou alguns fatos interessantes, que um dia escreverei por aqui. Valeu pela visita.

  11. Já para os marcadores! Abraços, vida longa ao blog.

  12. Parabéns Verardi, fiquei sabendo do blog pelo amigo Herax.
    Ótimo texto e sou fã fanatico do The Warriors, lembro de não perder um corujão… já devo ter visto mais de 15 vezes. Possuo a versão nacional, importada e o jogo de ps2, que conta um pouco da história antes do filme, de como a gangue foi formada.

    Mais uma fez parabéns e o blog já esta nos favoritos.

    • Oi Octavius. O jogo é realmente ótimo. O ator que interpretou Cyrus processou os criadores por terem utilizado sua imagem e voz sem permissão, mas não sei como acabou essa briga. Valeu pela visita.

  13. buchinsky

    Já está linkado. Ótimo texto, Cristian. Parabéns !!!

  14. Confesso que tenho pouca lembrança do filme, embora tenha visto numa época que não era tão fã de cinema, na infância. Mas o texto está foda. E você sabe que eu sou fã de seus contos, que até hoje espero que apareçam novamente, seja na internet, seja em livrarias. Grande abraço!

    • Grande Ailton! Mantenho meus contos bem trancafiados. Eles são de um tempo em que eu achava ter algum talento literário, rs. Mas quem sabe, quando menos esperarem, eu me anime em abrir a minha caixa de Pandora literária. Abração.

  15. Impecável!!!
    Como é bom ver gente boa e de bom gosto escrevendo pra caralho 😀

  16. Maurício R. Kern

    Espero ler aqui muitos textos como esse, Cristian. Difícil não se identificar com o início desse teu texto. E foi legal tu ter citado O Emissário de MacKintosh, que foi um filme que vi pela primeira vez justamente num Corujão, numa madrugada de verão lá em Capão da Canoa, numa época em que eu era apaixonado pela Dominique Sanda (risos). De vez em quando passa Warriors no TCM – que é um dos poucos canais que fazem a gente voltar no tempo e lembrar da época em que víamos filmes bons do calibre de Warriors, Parceiros da Noite, Inferno na Torre, etc. na tv (mesmo sem termos um videocassete). Um abraço!

    • Olá Maurício. Por onde tu anda? Ainda tenho um videocassete capenga, mas no passado, por pressão dos familiares, precisei me livrar de mais de 200 fitas, senão o mofo iria dominar o meu apartamento, rs.

      • Maurício R. Kern

        Cara, infelizmente continuo em Brasília. Ei, mas não te desfaz do teu velho vcr. Ainda não “encostei” o meu. Quase sempre que vou aí, acabo pegando uma ou outra pérola que só tem em vhs na locadora.

  17. Leandrus Felix

    Boas lembranças das madrugadas malditas. Warriors era constantemente reprisado no Corujão e no Domingo Maior. Bons tempos aqueles, que infelizmente não voltam mais.

  18. Oi Leandrus. As vezes preciso conter minha nostalgia, o passado nos parece melhor agora do que realmente era, mas que aquelas sessões malditas (apesar da má recepção da minha antena e dos inevitáveis cortes) realmente deixam saudade. Lembra do final de “A Fúria” (De Palma) e de “Scanners” (Cronenberg) completamente tesourados pela Globo? Valeu pela visita.

  19. Cris

    haaaaa, por acaso foi warriors a tua inspiracao naqueles dias em que passou com um lenco vermelho da mae amarrado na cabeca dando rasteiras, chutes e voadoras nos teus amigos invisíveis ???

  20. Pingback: Os números de 2010 « Cinema Ex Machina

  21. The warriors.
    Um filme de gang e um jogo tbm mais com uma historia mais contada e com ataques de qualquer tipos de armas que estiverem ao alcanse.
    O jogo de plastatyon 2 e xbox360 são praticamente identicos,só que o jogo da microsoft tem uma varredura melhor,e um grafico um pouco mais avançado.
    Em fim,the warriors esta na historia,influenciando a jovens fazerem gangs ou deixando pessoas até emocionadas por eles.
    The warriors,uma historia de 9 herois q vão se dando mal no caminho,vão para o bronx com 9 e voltam em 6.
    Parabens warriors.
    The warriors na historia dos anos 70

  22. WARRIORS
    AMO
    RETORNAR
    RESTO DA GANG
    I LOVE WARRIORS
    OS GUERREIROS
    RIFFS
    SÃO BONS

  23. WARRIORS!!!!
    VOCES WARRIORS SÃO BONS,MUITO BONS
    OS MELHORES
    O RESTO É NOSSO

  24. Ajax

    Warriors!?!?!?! Come out to playy!!

  25. Os selvagens da noite..caramba eu lembro bem desse filme,eu era um molequinho..tenho boas lembranças!!

  26. lindejonso dos santos

    bem o filme e muito irador cara lembro-me nanha juventude cuando eu chegava de matrugada so para assiste

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